Os desafios do próximo primeiro-ministro britânico

O anúncio do vencedor da corrida à sucessão de Boris Johnson na liderança do Partido Conservador, e próximo primeiro-ministro, será feito na segunda-feira às 12:30. Liz Truss e Rishi Sunak são os dois finalistas na corrida.

A eleição para a liderança do Partido Conservador acontece num contexto difícil, tendo o sucessor ou sucessora de Boris Johnson dois enormes desafios pela frente: revigorar o país e resgatar a confiança no Governo.

O aumento do custo de vida no Reino Unido vai estar no topo da agenda do próximo chefe de Governo, mas Liz Truss ou Rishi Sunak - os dois finalistas na corrida à liderança conservadora - terão mais adversidades pela frente em questões como a energia, instabilidade social e as relações com a União Europeia (UE).

O anúncio do vencedor da corrida à sucessão de Boris Johnson na liderança do Partido Conservador, e próximo primeiro-ministro, será feito na segunda-feira às 12:30.

A eleição, realizada por voto postal entre cerca de 180.000 militantes do partido, encerrou às 17:00 de sexta-feira.

O sucessor de Johnson, e 15.º chefe de Governo no reinado de Isabel II, será recebido na Escócia na terça-feira pela monarca, que deverá então indigitar o novo primeiro-ministro (ou primeira-ministra) para que forme um novo Governo enquanto líder do partido com maioria parlamentar.

As principais questões a abordar pelo próximo primeiro-ministro britânico:

ECONOMIA

A taxa de inflação chegou em julho a 10,1%, um máximo em 40 anos. O Banco de Inglaterra prevê que atinja os 13% em outubro e economistas do banco Goldman Sachs admitem que chegue aos 22% em 2023. O crescimento económico foi revisto em baixa e o banco central antevê uma "longa recessão", com uma contração de 1,5% em 2023 e 0,25% em 2024.

O Governo está a ser pressionado para reforçar as medidas de apoio aos britânicos, sobretudo aqueles com menores rendimentos.

A inflação reflete o aumento das despesas com os bens alimentares e transportes, estes devido ao preço dos combustíveis, mas o custo da energia doméstica é um dos fatores mais preocupantes, sobretudo na aproximação do inverno.

As medidas terão de ser estendidas a empresas cujos custos acrescidos com a energia, que não está coberta pelo preço máximo, põem em causa a sobrevivência de negócios de pequena e média dimensão e ameaçam postos de trabalho.

ENERGIA

O Reino Unido tem como compromisso atingir a neutralidade carbónica até 2050 e apostou na expansão da energia nuclear, eólica, solar e do hidrogénio para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Mas a guerra em curso na Ucrânia, desencadeada pela Rússia em fevereiro passado, tornou a segurança energética uma das principais prioridades do país.

O aumento dos preços do gás natural nos mercados internacionais vai levar à maximização da exploração de combustíveis fósseis, nomeadamente no Mar do Norte. Mesmo assim existe um risco de escassez durante o inverno devido a roturas de fornecimento da Rússia. Especialistas avisam para a necessidade de reduzir o consumo e preparar o país para falhas de abastecimento de energia.

INSTABILIDADE SOCIAL

Desde os anos 1970 que o Reino Unido não assistia a tantas greves. O regresso da taxa de inflação aos dois dígitos já levou a greves nos transportes, correios, advogados, recolha do lixo e portos, com mais anunciadas nas comunicações, escolas e outros serviços públicos. Os trabalhadores exigem aumentos de salários para não perderem poder de compra.

A conjuntura tem merecido comparações com o chamado "Inverno do Descontentamento" de 1978-1979, quando cadáveres ficaram por enterrar e o lixo amontoou-se nas ruas durante semanas.

A crise derrubou o Governo do Partido Trabalhista e levou à eleição da conservadora Margaret Thatcher. Alguns líderes sindicais têm levantado a hipótese de greves coordenadas a nível nacional com a capacidade para paralisar o país.

BREXIT

Quase dois anos depois do 'Brexit', os benefícios da saída da União Europeia (UE) têm sido poucos evidentes. As novas regras para a imigração agravaram a escassez de mão-de-obra em vários setores, incluindo na saúde, e há sinais de quebra nas trocas comerciais.

Por resolver continua o impasse no estatuto comercial da Irlanda do Norte e o acesso do Reino Unido ao programa europeu de financiamento à ciência Horizonte Europa.

Os dois candidatos têm prometido eliminar leis e regras herdadas da UE e avançar com o plano de suspensão do acordo do 'Brexit' na província britânica. Mas os críticos receiam que Bruxelas responda com uma "guerra comercial" ao impor tarifas sobre produtos britânicos, e que a tensão entre os dois aliados arrisque a unidade necessária para contrapor a Rússia na guerra da Ucrânia.

IMIGRAÇÃO ILEGAL

Desde o início de 2022, 22.670 migrantes completaram a travessia do Canal da Mancha, quase o dobro do registado na mesma altura no ano passado. Um relatório parlamentar britânico estimou que 60 mil pessoas cheguem ao Reino Unido por esta via este ano. O Governo conservador britânico tem-se mostrado incapaz de reduzir este número, apesar do apoio financeiro a França para reforçar a vigilância costeira e fortalecer o acolhimento de migrantes.

Londres assinou um acordo controverso com o Ruanda para enviar para o país da África Oriental os requerentes de asilo que chegam ilegalmente ao país. Um primeiro voo de deportação chegou a estar marcado para junho, mas foi cancelado devido a uma decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

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