Oito audiências, uma só conclusão: Trump foi responsável pela invasão do Capitólio

Congressistas que investigam os eventos de 6 de janeiro já concluíram as sessões públicas previstas, mas, com novas testemunhas a aparecer, estima-se que em setembro haja uma "segunda temporada" do espetáculo televisivo que montou um cerco ao ex-presidente dos EUA.

Ao longo de dois meses, uma comissão de congressistas norte-americanos (dois deles republicanos) apresentou em oito audiências públicas os resultados da sua investigação ao que aconteceu no ataque ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021 - durante o qual pelo menos cinco pessoas morreram. Em oito sessões, procuraram demonstrar como o então presidente Donald Trump foi o responsável pela violência daquele dia, ao insistir que as presidenciais de novembro de 2020 lhe tinham sido "roubadas", ignorando todos aqueles que rejeitavam esta ideia, recusando passar uma mensagem para pacificar os seus apoiantes, e ainda representa uma ameaça.

Desde o primeiro dia que ficou claro que a comissão queria transformar este julgamento público de Trump - que ainda não está livre de poder ter de enfrentar mesmo um tribunal - num espetáculo. Daí que tenha sido contratado um antigo produtor da estação ABC News, James Goldston, para tentar manter os norte-americanos agarrados à televisão. Pelo menos 20 milhões assistiram à primeira audiência em horário nobre, que só a Fox News não passou em direto.

Após a última audiência, já madrugada de sexta-feira em Lisboa, o ex-presidente insistiu na sua rede social (Truth Social) que houve fraude eleitoral e atacou a comissão, apelidando-a de "corrupta" e "partidária". Os trabalhos ainda não estão concluídos, apesar de não estarem previstas novas audiências públicas. Mas isso pode mudar no recomeço dos trabalhos em setembro, uma vez que a porta está aberta ao aparecimento de mais testemunhas. Mas o que é que foi dito nas oito audiências?

DIA 1 - 9 de junho

Trump "atiçou a chama" do ataque

Acompanhados de vídeos do que aconteceu durante as horas da invasão do Capitólio e de excertos de testemunhos recolhidos previamente, a comissão quis passar uma mensagem-chave na sua estreia: Trump foi a personagem central dos eventos de 6 de janeiro de 2021. Não houve um motim desorganizado, mas um ataque planeado com o objetivo de reverter o resultado das presidenciais.

Trump "chamou a multidão, reuniu a multidão e acendeu a chama deste ataque", disse a vice-presidente da comissão, a republicana Liz Cheney. E indicou que ao longo das audiências o ex-presidente seria apresentado como alguém que é uma ameaça à democracia, que não ouviu os conselhos das pessoas à sua volta e que não tinha interesse em parar a violência. Quando a multidão gritava "enforquem Mike Pence", atacando o então vice-presidente, Trump terá dito: "Talvez os nossos apoiantes tenham a ideia correta. Ele merece-o."

Dia 2 - 13 de junho

Trump "afastado da realidade"

A segunda audiência centrou-se no clima em torno da equipa de Trump após a derrota eleitoral - com testemunhos de vários deles -, mostrando um presidente que recusava ouvir a verdade e que focava a sua atenção nas conspirações sobre fraude. O então procurador-geral, William Barr, disse que Trump "estava afastado da realidade", com outros testemunhos a mostrar que se rodeava cada vez mais daqueles que reforçavam as suas crenças.

Naquilo que a congressista democrata Zoe Lofgren apelidou de "o grande golpe", Trump extorquiu 250 milhões de dólares aos seus próprios apoiantes para um "fundo de defesa eleitoral" que não existia. O dinheiro foi usado pelo comité de ação política de Trump para outros grupos de apoio e até para a sua cadeia de hotéis, indicou a comissão.

Ficou também claro que o presidente tinha a capacidade para incitar à violência, com um responsável eleitoral de Filadélfia a dizer que, depois de ter sido atacado por Trump no Twitter, começou a receber ameaças de morte.

Dia 3 - 16 de junho

Pence resistiu a pressão e ameaças

A terceira audiência centrou-se no vice-presidente, Mike Pence (que não testemunhou), deixando claro que ele resistiu à pressão de Trump e às inúmeras ameaças para não reconhecer o resultado eleitoral. O papel do vice-presidente no dia da confirmação das eleições é puramente cerimonial, de presidir aos trabalhos, mas Trump queria que ele rejeitasse validar o resultado - algo que Pence recusou fazer. Se tivesse cedido à pressão, as testemunhas disseram que teria posto em causa toda a democracia.

A pressão era acompanhada de ameaças, públicas e em privado, com Trump a discutir com Pence ao telefone e a dizer que ele não tinha "coragem" para reverter a eleição a favor do presidente. Os ataques em público, seja através do Twitter ou no discurso no próprio dia 6 de janeiro, incentivaram a multidão contra o vice-presidente, com um membro do grupo de extrema-direita Proud Boys a dizer que Pence teria sido morto se tivesse havido essa possibilidade.

Testemunhas indicaram ainda que o advogado John Eastman, que terá escrito os memorandos com o plano para Pence reverter as eleições, sabia que este era ilegal - e depois da invasão do Capitólio procurou que o seu nome fosse colocado numa lista de perdões presidenciais.

Dia 4 - 21 de junho

Ataques a quem contou os votos

A comissão focou-se nos esforços de Trump para impedir a vitória de Joe Biden nas presidenciais, com as pressões que fez aos responsáveis locais e estatais para que revertessem o resultado do voto popular. O plano passava, por exemplo, por substituir os eleitores do colégio eleitoral que na realidade elege o presidente por outros mais abertos a ignorar o resultado do voto popular.

Uma funcionária eleitoral da Geórgia, Wandrea Moss, deu conta das ameaças que recebeu depois de se tornar um alvo de Trump e dos apoiantes. Um vídeo dela e da mãe, Ruby Freeman, a contar os votos foi retirado do contexto, sendo ambas acusadas de fraude eleitoral. "Sabem o que é ter o presidente dos EUA a atacar-vos?", questionou Freeman. "Não há nenhum local em que me sinta segura", acrescentou.

Dia 5 - 23 de junho

Pressão sobre os procuradores

Na quinta audiência, o foco foi para a pressão que Trump fez junto dos procuradores para que investigassem inúmeras denúncias de fraude eleitoral com base em teorias de conspiração, todas infundadas. "Diga que a eleição foi corrupta e deixe o resto para mim e para os congressistas republicanos", disse o presidente a um vice-procurador, Richard Donoghue, cujas notas escritas à mão foram mostradas na comissão.

O presidente entrou em choque com o procurador-geral, William Barr, que acabou por pedir a demissão, pressionando o seu substituto, o interino Jeffrey Rosen, praticamente todos os dias, ameaçando nomear alguém que se mostrasse disponível para agir como ele queria.

Nesta audiência foi ainda revelado como pelo menos cinco republicanos procuraram perdões presidenciais relacionados com os eventos no Capitólio. "A única razão que conheço para pedir perdão é se cometemos um crime", disse o republicano Adam Kinzinger, que está na comissão com Cheney. Todos negam ter feito algo de errado.

Dia 6 - 28 de junho

Trump queria ir até ao Capitólio

Numa audiência que não estava prevista, Cassidy Hutchinson, a antiga assistente do chefe de gabinete Mark Meadows, levantou o véu sobre o que estava a acontecer dentro da Casa Branca no dia 6 de janeiro. A testemunha-surpresa revelou como o presidente ficou aborrecido porque lhe disseram que, por motivos de segurança, não podia juntar-se aos apoiantes que marchavam a caminho do Capitólio depois de discursar perto da Casa Branca. E tentou mesmo agarrar no volante da limusine, que era conduzida por um membro dos Serviços Secretos.

Num testemunho demolidor, contou que Trump sabia que algumas pessoas que apareceram para o ouvir discursar estavam armadas e tinham sido travadas nos detetores de metal, dizendo: "Elas não estão aqui para me magoar. Deixem-nas entrar. Deixem as minhas pessoas entrar." Dentro da Casa Branca houve quem equacionasse usar a 25.ª Emenda da Constituição, que permite a transferência do poder se o presidente for considerado incapaz.

A antiga assistente da Casa Branca revelou que Trump e os conselheiros estavam cientes da possibilidade de violência, contrariando a ideia de que o ataque foi algo espontâneo. O advogado de Trump, Rudy Giuliani, perguntou-lhe se ela estava excitada com o que ia acontecer no dia 6. Quando ela perguntou o que ia acontecer, ele disse que "vamos ao Capitólio" e que ia ser "ótimo, o presidente vai lá estar, ele vai parecer poderoso". Meadows disse-lhe depois que "as coisas podem tornar-se más", com ela a ripostar que sentiu "medo" e ficou "nervosa".

Dia 7 - 12 de julho

Tweet de Trump foi "apelo às armas"

A comissão procurou mostrar as ligações entre a retórica do presidente e os grupos de extrema-direita, como os Proud Boys ou os Oath Keepers, sendo examinado o impacto de uma mensagem que Trump escreveu no Twitter a 19 de dezembro. Neste tweet, enviado de madrugada, após uma reunião do presidente com um grupo de conselheiros externos à Casa Branca, Trump apelava aos apoiantes para irem a Washington no dia 6 de janeiro, prometendo que seria "selvagem". Para a comissão foi um "apelo às armas".

A marcha para o Capitólio já tinha sido pensada, mas só no discurso de 6 de janeiro é que Trump transmitiu essa ideia aos apoiantes. "Não foi um apelo espontâneo à ação, mas uma estratégia deliberada", indicou um dos membros da comissão. Naquela reunião teria sido também pensado um plano de autorizar o secretário da Defesa a apreender máquinas de voto. O conselheiro da Casa Branca Pat Cipollone testemunhou que não sabia como aquelas pessoas tinham entrado na Sala Oval, considerando que não estavam a dar bons conselhos a Trump. A reunião durou horas e houve gritos e insultos de ambos os lados.

Nesta audiência foi ainda revelado que Trump tentou contactar uma testemunha (que não atendeu o telefone), com o caso a ser denunciado à justiça.

Dia 8 - 21 de julho

As três horas e sete minutos de silêncio

Na última audiência, a comissão mostrou como Trump seguiu os acontecimentos pela televisão, recusando durante três horas e sete minutos dizer aos apoiantes que tinham invadido o Capitólio para irem para casa, apesar de os assessores lhe pedirem para o fazer (dois demitiram-se nesse dia). Quando finalmente o fez, quando era claro que tinha falhado, mostrou-se do lado dos manifestantes - disse que eles eram "muito especiais". No dia seguinte gravou um vídeo, mas os takes que foram descartados mostram como não queria dizer o que estava no teleponto, nomeadamente que as eleições tinham acabado.

O presidente da comissão, Bennie Thompson, opinou que Trump deve ser "responsabilizado" pelo ataque à democracia. Cheney questionou: "É possível confiar novamente num presidente que está disposto a fazer as escolhas que Trump fez durante a violência de 6 de janeiro para uma posição de autoridade?" Trump não põe de lado voltar a candidatar-se em 2024.

susana.f.salvador@dn.pt

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