O fim da guerra está nas mãos de Kiev, dizem Kremlin e Lukashenko

Porta-voz da presidência russa e autocrata bielorrusso alinhados na mensagem de pressão aos ucranianos. Bruxelas promete mais sanções para breve.

No dia seguinte ao quinto ataque russo em larga escala no espaço de um mês e meio à Ucrânia, o Kremlin e o seu mais próximo aliado, o autocrata bielorrusso, vieram a público pressionar Kiev. Vladimir Putin também falou, mas para advertir sobre uma nova crise, caso avance a iniciativa do G7 de impor um limite ao preço do petróleo russo. E, sinal dos tempos, ouviu críticas do primeiro-ministro da Arménia durante o encontro dos líderes da organização de segurança de antigos países soviéticos.

Na ressaca do ataque russo, composto por sete dezenas de mísseis de cruzeiro, que causaram pelo menos dez mortes e deixaram a Ucrânia e a Moldávia sem eletricidade durante horas, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky denunciou no Conselho de Segurança das Nações Unidas que a Rússia está "a utilizar a energia como arma de guerra, agora que a temperatura está a descer abaixo dos zero graus", tendo classificado o ataque de "crime flagrante contra a humanidade". O seu apelo para uma "resposta firme", sem surpresa, esbarrou no direito de veto russo.

De visita a Helsínquia, a presidente da Comissão Europeia condenou os "ataques bárbaros" da Rússia que levam "bebés, pais e avós a gelarem às escuras" e confirmou que está para breve um novo pacote de sanções, o nono, à Rússia. "Estamos a trabalhar arduamente para atingir a Rússia onde atinge ainda mais a sua capacidade de fazer a guerra à Ucrânia", disse Ursula von der Leyen numa conferência de imprensa.

A dirigente alemã não adiantou que medidas estarão incluídas nas sanções. Na véspera, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano afirmou que as restrições impostas a Moscovo estão a resultar. Mas Dmytro Kuleba sugeriu aos europeus para se apressarem e adicionarem mais medidas, entre as quais sanções à indústria dos mísseis, de forma a que o regime russo se veja impossibilitado de atingir as cidades e as infraestruturas de energia.

Na quarta-feira, os 27 não se entenderam sobre a medida preconizada pelo grupo dos países mais industrializados de impor um teto ao preço do petróleo russo. Apesar de não afetar de forma direta a UE - à exceção da Hungria os restantes países não podem comprar petróleo a Moscovo a partir de dia 5 - Chipre, Grécia e Malta não estão interessados nas consequências que pode ter para os seus petroleiros. Ainda assim, von der Leyen mostrou-se "confiante de que muito em breve" será aprovado um preço máximo global para o petróleo russo em parceria com o G7 e outros países. "Não descansaremos enquanto a Ucrânia não tiver prevalecido sobre Putin e a sua guerra ilegal e bárbara", afirmou.

O líder russo, em conversa telefónica com o primeiro-ministro iraquiano Mohamed al-Sudani, alertou sobre as "graves consequências para o mercado global de energia" que tal medida traria. Moscovo tem ameaçado deixar de vender petróleo aos países que aceitem tal medida, bem como baixar a produção extrativa no próximo ano.

Presente em Ierevan, Arménia, para um encontro dos líderes da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), aliança militar que junta a Rússia e Bielorrússia à Arménia e aos países da Ásia Central Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão, Putin reconheceu "problemas" no funcionamento da OTSC. Em setembro, quirguizes e tajiques mataram-se às dezenas numa disputa fronteiriça; e no mesmo mês o governo arménio pediu a intervenção da OTSC após o bombardeamento do Azerbaijão ao seu território, mas a única resposta foi o envio de observadores russos.

O primeiro-ministro Nikol Pashinyan, que recusou assinar a declaração conjunta da reunião, disse ser "deprimente que a integração da Arménia na OTSC não tivesse conseguido conter a agressão do Azerbaijão", azedando o encontro que também recebeu protestos nas ruas. "Putin é uma persona non grata (...) Não temos nada em comum com este grupo de países não democráticos", disse ao Politico um manifestante.

Um desses líderes não democráticos, o bielorrusso Alexander Lukashenko, disse aos jornalistas que o conflito foi tema de debate e que "está nas mãos da Ucrânia" o seu fim. "Se não querem que um número enorme de pessoas morra, é difícil, é complicado, mas têm de parar, senão dá-se a completa destruição da Ucrânia", disse em tom de ameaça ao país invadido.

No mesmo comprimento de onda, o porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov atirou para Kiev a responsabilidade de pôr termo à "operação militar" se "resolver a situação de tal forma que as exigências do lado russo sejam satisfeitas e de pôr assim fim a todo o sofrimento possível da população civil". A resposta, do conselheiro de Zelensky Mikhailo Podolyak, foi dirigida a Peskov: "A Rússia invadiu a Ucrânia. E a Rússia pode parar a guerra a qualquer momento, sem mais mísseis e retirada de tropas. Não é suficientemente inteligente para estabelecer uma relação causa-efeito?".

Troca de prisioneiros

Pelo segundo dia consecutivo russos e ucranianos realizaram troca de prisioneiros. Na mais recente libertação, Kiev diz que regressaram a casa 50 militares que haviam sido detidos em Mariupol, Chernobyl e na ilha da Serpente em troca de igual número de militares ocupantes. Somam-se a 35 militares e um civil no dia anterior.

Segundo a Reuters, dirigentes de ambos os países mantiveram conversações, na semana passada, nos Emirados Árabes Unidos, com o objetivo de Moscovo retomar as exportações de amoníaco (componente essencial para a composição de fertilizantes), reabrindo um gasoduto da região russa do Volga para o porto de Pivdennyi, no mar Negro, que tem capacidade para escoar 2,5 milhões de toneladas daquele gás por ano.

Em troca, e segundo declarações públicas do presidente Zelensky, a Ucrânia exigia um programa de troca de prisioneiros e a reabertura do porto de Mykolaiv. Apesar de a as sanções à Rússia não atingirem produtos alimentares nem fertilizantes, Moscovo diz não conseguir transportar estes produtos. No que respeita aos prisioneiros de guerra, Zelensky disse no final de outubro que foram postos em liberdade 1031 ucranianos, número entretanto desatualizado.

Boris cidadão honorário

O ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson foi distinguido com o título de cidadão honorário de Kiev, anunciou o autarca da capital ucraniana, Vitaliy Klitschko. "Johnson tem feito e, tenho a certeza, continuará a fazer tudo o que for possível para que o Reino Unido e os líderes mundiais forneçam a assistência necessária à Ucrânia", declarou o presidente da Câmara.

Hungria adia Suécia e Finlândia na NATO

O primeiro-ministro húngaro disse que o parlamento só irá votar a ratificação da entrada da Suécia e da Finlândia na NATO em 2023. Viktor Orbán justificou a demora com a atividade legislativa anticorrupção em resposta às exigências da Comissão Europeia, cujos fundos estão bloqueados. Além da Hungria, também a Turquia não ratificou o ingresso dos países nórdicos na Aliança Atlântica.

cesar.avo@dn.pt

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