"O conflito na Ucrânia traz uma aprendizagem clara para os líderes e militares de Taiwan" 

Jorge Tavares, docente do mestrado em Estudos Chineses da Universidade de Aveiro e fundador do Observatório da China, fala ao DN da relação entre Pequim e Moscovo e do paralelismo entre a invasão da Ucrânia e o que a China pode fazer em Taiwan.

A China parece ter procurado até agora fazer equilibrismo entre a relação com o Ocidente e a "amizade" com a Rússia. Manter essa posição pode ser um jogo arriscado?
Acaba por ser um mal menor, permite-lhe gerir com cautela o evoluir da situação e colocar-se numa posição mais cómoda. Em algumas das últimas grandes ocorrências internacionais, como o 11 de Setembro, a guerra contra o terrorismo, a crise financeira de 2008, a anexação da Crimeia e até a covid-19, a China soube sempre tirar vantagens económicas ou estratégicas. Se tivesse apoiado formalmente a Rússia, ainda que tenha manifestado compreensão pelo contexto de segurança e de se abster no voto de condenação na ONU, criticando a NATO, teria ficado sujeita à aplicação de sanções da União Europeia e dos EUA. A maior perda neste processo, que representa um claro ganho para Washington, é o relativo enfraquecimento do eixo Moscovo-Pequim, estando os chineses a demarcar-se das ações de Vladimir Putin. Não significa que a China deixe de estar alinhada com o objetivo conjunto de enfrentar os EUA, mas uma ligação explicita à Rússia acarreta riscos para os seus interesses. A parceria estratégica sino-russa está assente num quadro de conveniências, mal o equilíbrio é quebrado, o eixo fragiliza-se. Se Pequim conseguir manter as suas vantagens primordiais, prefere seguir a via da ambiguidade estratégica. Os bancos e as empresas estatais chinesas temem perder o acesso ao dólar, para além do acesso a tecnologia americana. A Rússia só representa 2% das exportações chinesas, ao passo que o mercado americano representa 16% e a Alemanha 3,5%. Entre a UE e a China são transacionados 1,7 mil milhões de euros por dia. Neste sentido, de forma a evitar as sanções, Pequim deixou de fornecer à Rússia componentes para aeronaves; a empresa petrolífera Sinopec cancelou os projetos e o Banco Asiático de Investimentos em Infraestruturas, maioritariamente controlado pela China, não está a facultar empréstimos ao seu vizinho.

O impacto das sanções à Rússia já se sente na economia chinesa. Pequim vai sofrer as suas consequências nos próximos anos?
O grande impacto poderá ser o prolongamento da guerra, afetando as ligações económicas com a Ucrânia, particularmente no setor alimentar, bem como a deterioração das relações com a Rússia. Mantendo-se numa posição ambígua, tal como já aconteceu na anexação da Crimeia, em 2014, serão mais os proveitos que as perdas. Um dos ganhos, será o acesso a petróleo e gás natural do vizinho a preços mais competitivos; tenderá a ganhar maior abertura para estender influência em áreas dominadas anteriormente pela Rússia, particularmente na Ásia Central; verá reforçado o papel da sua moeda, oferecendo as suas infraestruturas financeiras alternativas ao sistema de pagamentos SWIFT, bem como a venda de equipamentos eletrónicos e de automóveis.

Têm-se traçado paralelismos entre a invasão da Ucrânia pela Rússia e o que a China pode fazer em Taiwan. É uma hipótese ou Xi Jinping prefere recuperar Taiwan sem usar a força?
Em relação à "questão de Taiwan", a China preferirá solucionar a questão sem ter de usar a força, como ensina a estratégia tradicional chinesa: "vencer sem lutar". Durante a liderança de Ma Ying-jeou (2008-2016), em Taiwan, do histórico Partido do Kuomintang (KMT), parecia estar a caminhar-se para uma solução pacífica para o conflito. Mas a população de Taiwan, particularmente a geração mais nova, não ficou agradada com a excessiva abertura e crescente dependência face à China continental, forçando um novo ciclo político no território. Desta forma, chegou ao poder Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista (PDP), com tendências mais independentistas, naturalmente mais hostis para Pequim. O uso da força nunca poderá deixar de ser equacionado. Se não houver uma solução pacífica, acontecerá no dia em que numa análise de custos e benefícios, Pequim saiba que os seus interesses ficam salvaguardados e que terá uma vitória inequívoca. O caso da Ucrânia, com toda a reação internacional, terá afastado a China de uma solução deste tipo para os próximos tempos. Mas o conflito traz também uma aprendizagem clara para os lideres e militares taiwaneses, particularmente no desenvolvimento de táticas defensivas; enquanto os restantes parceiros asiáticos estão igualmente a reforçar os seus meios militares, temendo cenários idênticos de um gigante asiático expansionista na região.

A crise na Ucrânia reaproximou os EUA da NATO e dos aliados europeus, a China pode tentar beneficiar deste desviar do olhar dos EUA da Ásia-Pacifico, em que estavam focados nos últimos anos?
Sim, esse é um dos ganhos indiretos, conseguindo que a região da Ásia Pacífico saia do centro das atenções da política internacional. Foi o que aconteceu, por exemplo, no pós-11 de Setembro, em que os EUA centraram a atenção no Médio Oriente, descurando a Ásia. Este vazio de poder permitiu a Pequim projetar o seu poder no espaço circundante, sem grandes contrariedades. Inclui-se a delimitação da linha das nove raias, exercícios militares, demonstração de força naval, e a ocupação de recifes e ilhas no Mar do Sul da China, ainda que com soberania reclamada por vários atores da região.

Falou-se num pedido de apoio económico e militar da Rússia à China, que foi negado. Surpreendeu-o a dificuldade das forças russas frente à resistência ucraniana?
Sim, o apoio foi negado, embora possa ser concretizado de forma dissimulado. Há desconfianças entre quadros oficiais da UE e dos EUA, mas até ao momento não se pode confirmar. A verdade é que a China tem ligações ferroviárias com a Rússia, que poderiam facilmente subverter as sanções. Refiro-me, particularmente, à linha que liga Shenzhen a S. Petersburgo, através do Cazaquistão, que já está em funcionamento e permite a entrega de contentores em 18 dias. Ainda assim, considero que o gigante asiático não o deverá fazer, pelos motivos que referi anteriormente. A aplicação de sanções seria desastrosa para o seu mercado, ainda muito dependente das dinâmicas económico-financeiras internacionais e das cadeias de abastecimentos. Quanto à dificuldade das forças russas para dominarem a resistência ucraniana, parcialmente sim. A verdade é que é um cenário tantas vezes repetido nas relações internacionais, que envolvem conflitos assimétricos. Forças pior equipadas, mas com uma ligação afetiva muito forte ao seu território, mais motivadas, costumam conter exércitos de grande potencial militar. O Vietname em combate com os EUA e o Afeganistão com a União Soviética, são exemplos deste tipo. É por aqui, numa lógica de contenção, que Taiwan está a desenvolver a sua capacidade de resistência face a uma força militar mais forte.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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