Mali critica a França e vira-se para "empresas privadas russas" de segurança

Governo do Mali acusa Paris de abandonar o país, criticando o "anúncio unilateral" de retirada de tropas que justifica que "procure outros sócios". Em causa a contratação de mil paramilitares do grupo Wagner, acusado de abusos por exemplo na República Centro Africana.

O primeiro-ministro do Mali, Choguel Kokalla Maiga, acusou a França de abandonar o seu país dilacerado pelos conflitos e ameaçado pelos grupos terroristas com a decisão de reduzir suas tropas no terreno este ano.

Maiga disse perante a Assembleia Geral das Nações Unidas que lamentava o "anúncio unilateral" da França que, segundo ele, justifica que o seu governo "procure outros sócios", numa aparente referência ao pedido do Mali para que empresas russas reforcem a segurança no país africano.

O chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, confirmou este sábado que o governo do Mali contactou "empresas privadas russas" para reforçar a segurança, e que o Kremlin não tem nada a ver com este caso.

Os países europeus têm alertado o governo do Mali, nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, contra a contratação de paramilitares do controverso grupo privado Wagner.

Mas com Paris preparado para reduzir a sua presetnça militar no país, Lavrov confirmou que o Mali está a contactar as empresas privadas russas. "Esta é uma atividade que tem sido realizada de forma legítima", disse numa conferência na sede da ONU, em Nova Iorque. "Não temos nada a ver com isso", acrescentou, dizendo que o governo do Mali calculou que "as suas próprias capacidades seriam insuficientes na ausência de apoio externo" e começou as discussões.

Segundo as notícias, o governo de Bamako está prestes a contratar mil paramilitares do grupo Wagner. França alertou para o risco de isso isolar o país internacionalmente, mas o primeiro-ministro do Mali acusou Paris de abandonar o seu país com uma decisão "unilateral" de retirada das suas tropas.

Maiga disse que o seu governo tinha justificação para "procurar outros parceiros" e reforçar a segurança, criticando a "falta de consultas" dos franceses.

O grupo Wagner é considerado próximo do presidente russo, Vladimir Putin, sendo acusado pelos países ocidentais de agir em nome de Moscovo.

Paramilitares, instrutores e empresas de segurança privadas russas têm vindo a ganhar influência em África nos últimos anos, particularmente na República Centro Africana, onde as Nações Unidas acusaram o grupo Wagner de abusos.

Moscovo admite ter enviado "instrutores" para a República Centro Africana mas alega que eles não estão a participar ativamente nos combates. Rússia insiste ainda que não há paramilitares na Líbia, apesar das acusações ocidentais nesse sentido.

As Nações Unidas, que tem cerca de 15 mil capacetes-azuis no Mali, também expressou preocupação de um possível envolvimento do grupo Wagner.

A União Europeia, que treina as tropas do Mali através da missão EUTM (que inclui 700 soldados de 25 países europeis) alertou que o envolvimento do grupo Wagner iria afetar "seriamente" as suas relações com Bamako.

"Dizer 'estava lá primeiro, saiam' é insultuoso, primeiro de tudo para o governo em Bamako, que convidou os parceiros internacionais", disse Lavrov.

França, que perdeu 52 soldados no Sahel desde que começou o seu envolvimento na região em janeiro de 2013 (o último ainda na sexta-feira), decidiu reorganizar a sua presença militar em volta de uma unidade centrada em ataques contra líderes jihadistas e no apoio aos exércitos locais.

Os militares devem deixar algumas bases até ao final do ano e o número de tropas francesas no Sahel deverá passar das atuais cinco mil para as 2500 ou 3000 até 2023.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG