Líder islâmico alerta para infiltração de radicais em mesquitas de Moçambique

Presidente do Conselho Islâmico nega ligação de terroristas ao islão, mas defende reforço da vigilância nos locais de culto.

O presidente do Conselho Islâmico de Moçambique (Cislamo) defendeu "uma vigilância apertada à proliferação de mesquitas" e associações islâmicas criadas sem o conhecimento das autoridades, alertando para a "infiltração" de pregadores que espalham o radicalismo. "Não é de hoje o alerta para uma vigilância apertada à proliferação de mesquitas que não são conhecidas pelo Governo nem por nenhuma associação islâmica em Moçambique", afirmou Aminudin Muhammad à Lusa.

Muhammad defende que o escrutínio aos locais de culto é importante para evitar o aproveitamento do islão por "gente estranha" que promove uma "má doutrinação de jovens", como está a acontecer na província de Cabo Delgado, norte do país, onde os "autores da violência usam o islão para lançar o caos".

Nas mesquitas novas é "fácil infiltrar-se gente estranha e de fora do país com ideias negativas de vida em sociedade", diz Aminudin Muhammad.

O responsável religioso defendeu que só podem ser autorizadas a praticar cultos as mesquitas que se comprometem com os princípios e os valores do islão e as leis do país. "Quando não se presta atenção ao que se passa nessas mesquitas novas criadas fora do controlo [das autoridades], é fácil infiltrar-se gente estranha e de fora do país com ideias negativas de vida em sociedade", acrescentou. O controlo, prosseguiu, deve ser exercido sobre qualquer fé religiosa, porque "o perigo pode vir de qualquer lado quando a religião é deturpada".

Aminudin Muhammad rejeitou a ligação entre o islão e a violência armada em Cabo Delgado, apontando o interesse pela delapidação de recursos naturais como provável razão da ação de grupos armados na região. "A maioria das vítimas da guerra em Cabo Delgado é muçulmana e há muitas mesquitas destruídas. Aquilo não tem nada a ver com o islão", acrescentou.

O presidente do Cislamo apontou a coincidência entre o início da violência armada em Cabo Delgado com a presença de multinacionais de gás natural na região, para dar substância à ideia de que o interesse em recursos está por detrás do conflito. "Não tínhamos instabilidade em Cabo Delgado antes do início dos projetos de gás natural, mas agora que estão lá as multinacionais a situação piorou", afirmou Aminudin Muhammad.

Muhammad notou que os promotores da violência armada no norte do país desprezam os princípios e valores do islão, chegando a entrar calçados nas mesquitas, o que viola os princípios básicos da religião, além de "pronunciarem mal as palavras e frases tipicamente ligadas ao islão". "O islão tem séculos em Moçambique e nunca foi causa de violência. O islão em Moçambique sempre promoveu a concórdia com outras religiões", sustentou.

O presidente do Cislamo afastou ainda suspeitas de que estudantes moçambicanos de escolas corânicas estejam envolvidos na radicalização de jovens no norte de Moçambique.

Muhammad reiterou que as entidades islâmicas moçambicanas alertaram as autoridades sobre a presença de fiéis com "um comportamento estranho" nas mesquitas antes do início da violência, em 2017, mas esses avisos "foram ignorados".

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