Israel e Hamas ignoram apelos à calma e prometem mais ataques

Israelitas responderam à operação "Espada de Jerusalém", que envolveu mais de 300 rockets lançados pelos palestinianos, com a operação "Guardiões do Muro".

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ignorou ontem os apelos da comunidade internacional à desescalada da violência em Jerusalém e na Faixa de Gaza, prometendo "intensificar o poder dos ataques" de Israel. O Hamas "será atingido de formas que não espera", disse num vídeo, depois de duas mulheres israelitas terem morrido na cidade de Ashkelon nos ataques de rockets palestinianos. Já o movimento islamita prometeu continuar a repelir a agressão israelita com toda a força, "independentemente dos sacrifícios".

As duas mulheres israelitas (uma na casa dos 40 a outra dos 60 anos) foram vítimas da operação "Espada de Jerusalém", lançado pelo Hamas na segunda-feira após o fim do ultimato dado a Israel para que retirasse da Esplanada das Mesquitas - palco de confrontos entre palestinianos e forças de segurança israelitas desde sexta-feira. Durante a noite, foram lançados mais de 300 rockets e, já de manhã, mais de uma centena no espaço de apenas cinco minuto em direção a Ashkelon e Ashdoh, a norte da Faixa de Gaza. Um desafio para o escudo de defesa israelita (Iron Dome ou Cúpula de Ferro), que intercetou 90%.

Israel não se limitou a defender, respondendo também com a operação "Guardiões do Muro", matando pelo menos 30 pessoas em mais de uma centena de ataques aéreos contra a Faixa de Gaza. Entre os mortos estão dois comandantes da Jihad Islâmica, 15 membros do Hamas, mas também nove crianças. Israel disse não ter a confirmação de que foram os seus ataques a atingir alvos civis, levantando a hipótese de as vítimas terem sido atingidas por rockets palestinianos defeituosos.

Apelos internacionais

A União Europeia (UE) e os EUA apelaram à desescalada da violência. "Estamos profundamente preocupados com os recentes confrontos e com a violência", disse o alto representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, pedindo para que "tudo seja feito para evitar o aumento das tensões" e "mais vítimas civis". Por seu lado, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, defendeu que "todas as partes devem desescalar, reduzir as tensões, dar passos práticos para acalmar as coisas", após uma reunião com o homólogo jordano, Ayman Safadi.

Mas Washington travou uma declaração conjunta do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que reuniu de urgência na segunda-feira a pedido da Tunísia, considerando que "por enquanto" não era "oportuno" emitir uma mensagem pública. O projeto de declaração da Noruega, China e Tunísia pedia a Israel para interromper "as atividades de colonização, demolição e expulsão" de palestinos "incluindo em Jerusalém Oriental". Uma das razões para o atual escalar da violência, no final do Ramadão (mês sagrado para os muçulmanos), foi a decisão judicial (está pendente a do Supremo Tribunal) de expulsar várias famílias palestinianas da casa onde vive há décadas no bairro de Sheikh Jarrah, depois de famílias judias terem reivindicado direitos de propriedade das terras.

Nos últimos anos, a construção dos colonatos israelitas intensificou-se na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, com projetos imobiliários financiados pelo Governo ou iniciativas de organizações de colonos para comprar casas de palestinianos ou expropriá-los. "Os colonatos israelitas têm estado a avançar a grande velocidade e faz confusão que a comunidade internacional não se tenha insurgido, da maneira como deveria", disse ao DN a professora da Universidade Autónoma, Maria João Tomás, lembrando que "a comunidade internacional não está a fazer nada".

Em finais de 2019, o ex-presidente norte-americano Donald Trump alterou a posição dos EUA em relação aos colonatos, dizendo que estes não eram ilegais, e o seu plano de paz para o Médio Oriente propunha que Israel mantivesse o controlo sobre eles. O atual presidente, Joe Biden, mostrou-se contra os colonatos no passado, defendendo a solução de dois Estados e mostrando-se contra ações que prejudiquem os esforços de paz.

Mas tem olhado para o conflito israelo-palestiniano como tendo "baixa prioridade", segundo o site Axios. Diante da atual escalada de violência, a professora Maria João Tomás acredita contudo que o presidente terá que reagir. "É um grande desafio para Biden que o vai obrigar a tomar uma posição publicamente", disse, lembrando contudo que o lóbi judeu é muito forte nos EUA.

Acordos de Abraão

Os acontecimentos dos últimos dias lançam uma sombra sobre os Acordos de Abraão, que permitiram a normalização das relações diplomáticas entre Israel e vários países árabes, sob a mediação de Washington. Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos criticaram a violência junto à mesquita de Al-Aqsa, juntando-se a países como a Jordânia ou o Egito (que já normalizaram as relações com Israel há décadas).

Após uma reunião entre os chefes da diplomacia da Liga Árabe, o secretário-geral, Ahmed Abul Gheit, condenou ontem os ataques aéreos israelitas qualificando-os de "indiscriminados e irresponsáveis". O ministro egípcio, Sameh Shoukry, indicou que o Cairo terá tentado contactar Israel e outros países interessados para acalmar a situação, mas sem sucesso. "Não obtivemos a resposta necessária."

susana.f.salvador@dn.pt

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