Irlanda do Norte refém do "Brexit" 50 anos após o Bloody Sunday

A morte às mãos do Exército britânico de 14 nacionalistas católicos que protestavam pacificamente foi um dos pontos baixos dos Troubles. As feridas nunca sararam totalmente.

Há 50 anos, soldados britânicos dispararam contra manifestantes pacíficos em Londonderry, na Irlanda do Norte, matando 13 nacionalistas católicos desarmados (um 14.º morreria meses depois). O Bloody Sunday, como ficou conhecido o dia 30 de janeiro de 1972, marcou o início daquele que seria o ano mais mortífero dos Troubles, o conflito entre os republicanos e os unionistas protestantes, com 479 mortes. Uma violência que só acalmou com os Acordos de Sexta-Feira Santa, em 1998. Hoje, meio século após aquele domingo sangrento, as feridas ainda não sararam e há novas que surgem por causa do "Brexit" e o chamado Protocolo para a Irlanda do Norte. Um tema que vai dominar a campanha para as eleições de 5 de maio.

A marcha naquele domingo tinha sido organizada em Derry (o nome usado pelos católicos) pela Associação de Direitos Civis da Irlanda do Norte, que protestava desde 1968 contra a discriminação no acesso ao voto, à habitação ou ao emprego. Naquele domingo o protesto era contra o aumento das detenções de católicos sem julgamento. Apesar de ilegal, a marcha juntou cerca de 15 mil pessoas, com o 1.º Batalhão do Regimento de Paraquedistas britânico a ser chamado para as barricadas, para impedir que chegasse ao centro.

A determinada altura, alguns jovens atiraram pedras contra os militares, que eventualmente responderam com tiros. Os britânicos alegaram que tinham ficado eles próprios debaixo de fogo e um primeiro relatório deu-lhes razão, indicando que havia na multidão infiltrados paramilitares do Exército Republicano Irlandês (IRA). As vítimas - seis delas tinham 17 anos - só seriam ilibadas em 2010. Uma investigação lançada após os Acordos de Sexta-Feira Santa concluiu finalmente, ao fim de 12 anos, que os manifestantes não estavam armados, com o então primeiro-ministro britânico, David Cameron, a pedir desculpa, apelidando os acontecimentos do Bloody Sunday de "injustificados e injustificáveis".

Os familiares das vítimas continuam hoje a pedir justiça, já que nenhum dos militares foi levado à justiça - chegou a ser aberto um inquérito a um, em 2019, mas foi arquivado em 2021. O comandante, o tenente-coronel Derek Wilford, continua a defender que agiram por estarem sob ataque. Em 2021, o governo de Boris Johnson apresentou uma proposta de lei para acabar com as acusações "vexatórias" por crimes cometidos nos Troubles, o que os críticos veem como uma amnistia para os ex-soldados e os paramilitares.

"Brexit" e Protocolo

Meio século depois do Bloody Sunday, imortalizado na música dos U2, a Irlanda do Norte continua tão dividida como sempre, com o "Brexit" a gerar novas tensões e violência nas ruas (sem chegar à dimensão do passado). No referendo de 2016, a região votou 55,8% para ficar na União Europeia, mas o sair acabou por ganhar no Reino Unido com 51,9%. Após anos de negociações entre Londres e Bruxelas para garantir que não haveria uma fronteira física com a República da Irlanda, criou-se o Protocolo para a Irlanda do Norte.

Na prática, este deixou o território ainda dentro do mercado único europeu de bens, mas criou uma fronteira no mar da Irlanda e problemas no comércio entre Londres e Belfast. Isto porque tem que haver um controlo à entrada na Irlanda do Norte de forma a impedir que esses produtos entrem no mercado único europeu por essa via. Mas Londres suspendeu a aplicação do protocolo e quer renegociá-lo com Bruxelas, nomeadamente no que diz respeito à jurisdição dos tribunais europeus caso haja alguma disputa. Os 27 rejeitam, contudo, esta hipótese, mas as negociações continuam entre o vice-presidente da Comissão Europeia, Maros Sefcovic, e a ministra do "Brexit" e chefe da diplomacia britânica, Liz Truss.

Na Irlanda do Norte, os unionistas do DUP (que apoiam a união com o Reino Unido) querem o protocolo rasgado, ameaçando deixar o governo de partilha de poder, enquanto os republicanos do Sinn Féin, que apoiam a reunificação das Irlandas, querem mantê-lo. O comércio entre Belfast e Dublin está a aumentar. O tema deverá ser central nas eleições de 5 de maio, onde o Sinn Féin pode pela primeira vez ser o mais votado, conseguindo assim que Michelle O"Neill se torne primeira-ministra.

Neste cenário, que poderá ser alterado caso o protocolo vá para o lixo, não é ainda claro se o DUP, liderado por Jeffrey Donaldson, aceitaria o cargo de número dois (que, na prática, tem um estatuto igual ao de número um). Isso poria em causa os Acordos de Sexta-Feira Santa, que preveem a partilha de poder entre os dois blocos. Os centristas e liberais da Aliança, que se apresentam como "neutros" na divisão entre nacionalistas e unionistas, têm vindo a ganhar força, com Naomi Long ao leme, e podem ter uma palavra a dizer na solução final.

Este promete, contudo, ser um ano-chave para o unionismo, esperando-se que o censos de 2021 (cujos resultados serão conhecidos mais para o final do ano) mostre, pela primeira vez, que o número de católicos é maior do que o de protestantes. Isso, junto com os problemas do "Brexit", poderá fazer aumentar as vozes a favor de um referendo sobre a reunificação das Irlandas - o acordo de 1998 reconheceu a legitimidade de tal solução, defendendo que só poderá ser alcançada com o consenso da maioria da Irlanda do Norte.

susana.f.salvador@dn.pt

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