Há crianças a serem decapitadas em Moçambique, diz ONG

A Save The Children alerta que há crianças a serem decapitadas em Cabo Delgado por extremistas islâmicos. A ONG fala em relatos "horríveis" do que se está a passar nesta província no norte de Moçambique. A violência já fez mais de dois mil mortos e 650 mil deslocados.

"Quando tudo começou, estava em casa com os meus quatro filhos. Tentámos fugir para a floresta, mas eles levaram o meu filho mais velho e decapitaram-no. Não podíamos fazer nada porque também seríamos mortos", conta uma mãe em Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Preferindo não ser identificada, esta mulher conta que naquela noite a "aldeia foi atacada e as casas queimadas".

Este é um dos relatos "horríveis" que a organização não governamental (ONG) Save The Children ouviu sobre o que se está a passar na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. A ONG falou com famílias deslocadas, que relataram como militantes islâmicos assassinaram adultos e também crianças.

O filho de Amélia, nome fictício, não conseguiu escapar à brutalidade de militantes islâmicos e esta mulher conta que foi obrigada a fugir com a família. "Depois de o meu filho, de 11 anos, ter sido morto, entendemos que já não era seguro ficar na minha aldeia. Fugimos para a casa do meu pai noutra aldeia, mas alguns dias depois os ataques começaram lá também. Eu, o meu pai e as crianças passámos cinco dias a comer bananas verdes e a beber água de bananeira até termos o transporte que nos trouxe até aqui", contou.

Equipa da ONG "levada às lágrimas"

"Os relatos de ataques a crianças incomodam-nos profundamente. A nossa equipa foi levada às lágrimas ao ouvir as histórias de sofrimento contadas por mães em campos de deslocados", disse Chance Briggs, diretor da organização em Moçambique, citado em comunicado.

As necessidades das crianças deslocadas em Cabo Delgado, norte de Moçambique, "superam em muito os recursos disponíveis para apoiá-las" e muitas vezes elas são o alvo de violência, alertou a Save the Children.

"A ajuda é desesperadamente necessária, mas poucos doadores priorizaram a assistência para aqueles que perderam tudo e para os seus filhos", numa altura em que o mundo lida também com a covid-19, refere Briggs.

"Quase um milhão de pessoas enfrenta fome severa"

"Enquanto o mundo estava focado na covid-19, a crise de Cabo Delgado cresceu e foi menosprezada", acrescentou.

A Save the Children referiu que "quase um milhão de pessoas enfrenta fome severa" como resultado direto da onda de deslocados provocada pelo conflito armado na região, incluindo pessoas deslocadas e comunidades anfitriãs.

Como reflexo da pirâmide etária do país, cerca de metade das pessoas afetadas pela violência são menores de 18 anos, presenciando muitas vezes morte e destruição e sendo elas próprias alvo das partes em conflito.

"Todas as partes devem garantir que as crianças nunca sejam alvos. Devem respeitar as leis humanitárias internacionais e de direitos humanos e tomar todas as ações necessárias para minimizar os danos civis, incluindo o fim de ataques indiscriminados e desproporcionais contra crianças", acrescentou Briggs.

Mais de duas mil mortes e 670 mil pessoas deslocadas

A violência armada em Cabo Delgado está a provocar uma crise humanitária, com mais de duas mil mortes e 670 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos.

Algumas das incursões de rebeldes foram reivindicadas pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico entre junho de 2019 e novembro de 2020, mas a origem dos ataques continua sob debate.

À BBC, Briggs refere que "Cabo Delgado é a província mais pobre de Moçambique" e, ao mesmo tempo, uma terra rica devido aos "enormes recursos minerais" que lá existem. Há, diz, a "sensação por parte de alguns de que os recursos não estão a ser partilhados de forma igual, pelo que parece ser um motor do conflito", analisou.

Afirmou, no entanto, que "é difícil entender as motivações" que poderãoestar na origem da violência. Os insurgentes, conta, recrutam os jovens para se juntarem a eles como "e, se recusarem, são mortos e às vezes decapitados".

A situação de insegurança levou a petrolífera Total a diminuir o número de trabalhadores e a abrandar os trabalhos no megaprojeto de gás na região, até que seja garantido um perímetro de segurança pelas Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas.

No entanto, mantém-se a previsão de início de exportação de gás natural liquefeito em 2024.

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