Guerra não terá vitória russa, diz Biden. Para Moscovo caiu a Cortina de Ferro

Aliados reiteram apoio à Ucrânia no final da Cimeira da NATO, uma organização datada e com "ambições imperialistas", segundo Putin. Lavrov recuperou a Cortina de Ferro de Churchill.

No final da Cimeira da NATO, com a passagem aberta para a adesão da Finlândia e da Suécia, e o novo conceito estratégico aprovado, os aliados fizeram nova prova de apoio à Ucrânia. Alguns líderes, com o presidente dos Estados Unidos à cabeça, anunciaram mais ajuda militar.

Questionado por quanto tempo irá continuar a enviar armamento e dólares para Kiev, Joe Biden foi taxativo. "Vamos manter-nos com a Ucrânia, e toda a Aliança vai manter-se com a Ucrânia, enquanto for necessário para, de facto, garantir que os ucranianos não sejam derrotados pela Rússia. Como tal, não sei como vai terminar, mas não vai terminar com uma vitória russa sobre a Ucrânia". Por seu lado, se o presidente russo se mostrou otimista sobre o desenrolar da "operação militar especial", já o seu chefe da diplomacia vê nos acontecimentos mais recentes o "cair da Cortina de Ferro" entre a Rússia e a Europa.

"Pelo que vi dos nossos amigos e aliados russos durante a guerra, estou convencido de que não há nada que eles admirem tanto como a força, e não há nada pelo qual tenham menos respeito do que a fraqueza, especialmente a fraqueza militar (...) Se as democracias ocidentais se mantiverem unidas na estrita adesão aos princípios da Carta das Nações Unidas, a sua influência para promover esses princípios será imensa e ninguém será capaz de violá-los. Se, contudo, se dividirem ou vacilarem no seu dever e se se permitir que estes anos tão importantes escapem, então a catástrofe poderá, de facto, subjugar-nos a todos."

As palavras são de Winston Churchill e foram proferidas em 1946 no famoso discurso nos Estados Unidos em que ficou cunhada a expressão "Cortina de Ferro". O então líder da oposição britânica alertava para o perigo do comunismo e apelava para uma relação especial anglo-americana e para um apoio sem reservas à recém-criada ONU. O momento é outro, mas os ecos da mensagem de Churchill (à exceção do papel das Nações Unidas) ouviram-se em Madrid, durante a Cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Na conferência de imprensa no final do encontro dos chefes de Estado e de governo, Joe Biden classificou o encontro de "histórico" e aproveitou para criticar o líder russo e responsabilizá-lo pela subida dos preços, bem como da potencial crise alimentar. "Esta cimeira tratava de reforçar as nossas alianças, de enfrentar os desafios do nosso mundo, tal como ele é hoje, e as ameaças que vamos enfrentar no futuro. Putin pensou que poderia quebrar a aliança transatlântica. Ele tentou enfraquecer-nos. Ele esperava que a nossa determinação se quebrasse. Mas está a obter exatamente o que não queria. Ele queria a finlandização da NATO e obteve a NATOnização da Finlândia", disse.

A braços com um Supremo Tribunal que nos últimos dias pôs em causa políticas e princípios dos democratas - como a limitação ao porte de armas, o direito ao aborto ou o combate às emissões de gases com efeito de estufa - e com o crescente descontentamento devido ao aumento do preço dos combustíveis, o presidente norte-americano anunciou um pacote adicional de auxílio à Ucrânia de 800 milhões de dólares (763 milhões de euros) que inclui um sistema de defesa aérea, artilharia, radares, e munições adicionais para o sistema de lançamento múltiplo de foguetes HIMARS.

Além dos EUA, outros países aproveitaram a reunião para informarem das futuras entregas a Kiev. O presidente francês Emmanuel Macron disse que mais seis sistemas de artilharia móvel Caesar e um número significativo de veículos blindados irão ser enviados; o Ministério da Defesa da Suécia comunicou a expedição de mais 5 mil armas antitanque e 17 sistemas de míssil antinavio, além de espingardas e munições; e o Reino Unido fez saber, pelo gabinete do primeiro-ministro, que irá ajudar Kiev com um novo pacote militar de mil milhões de libras (1,1 mil milhões de euros) com "sofisticados sistemas de defesa aérea, veículos aéreos não tripulados, equipamentos de guerra eletrónica novos e inovadores e milhares de peças de material vital para os soldados ucranianos".

Já Boris Johnson aproveitou a retirada militar da Rússia da Ilha das Serpentes, no Mar Negro, para dizer que será impossível dominar a Ucrânia. "No fim de contas será impossível para Putin controlar um país que não aceita o seu domínio", disse Johnson. "Vimos o que fizeram em Kiev e em Kharkiv, agora na Ilha das Serpentes. Acho que a coisa certa é continuar a seguir o rumo que a NATO traçou, não importa a dificuldade."

Depois de na véspera Vladimir Putin ter dito que o "trabalho está a decorrer sem problemas, ritmicamente", referindo-se aos combates das forças russas na Ucrânia, afirmou que "a NATO é um rudimento de uma época passada, da Guerra Fria" e acusou os seus estados de "ambições imperialistas" - uma afirmação considerada "ridícula" pelo chanceler alemão Olaf Scholz.

Em visita a Minsk, o MNE russo Sergei Lavrov vê a "Cortina de Ferro já a descer", uma alusão às relações cada vez mais tensas entre a Rússia e os restantes países europeus.

"Boa vontade" russa na ilha das serpentes

A Rússia afirmou que estava a retirar-se da ilha das Serpentes, que fica ao largo da costa sul da Ucrânia, perto das principais rotas marítimas, como um "gesto de boa vontade" destinado a libertar o acesso marítimo. Já a Ucrânia reivindica uma vitória estratégica, tendo alegado que forçaram os ocupantes a recuar, depois de terem sido submetidos a vários ataques, o último dos quais arrasou o sistema de radares e o sistema de defesa aéreo russos.

Kiev disse ainda que, horas antes de os militares russos terem retirado em lanchas, foi abatido um helicóptero russo que se dirigia para o local.

Avanço em Lysychansk

Em Lysychansk, a situação é uma cópia do ocorrido antes na cidade vizinha de Severodonetsk, tomada há dias pelos russos. "Podemos simplesmente dizer que os russos são muito numerosos e estão a chegar de todos os lados. Há um número incrível de veículos e de artilharia", disse o governador de Lugansk, Serhiy Gaiday. Os meios de comunicação ucranianos anteveem que o exército ucraniano seja obrigado a retirar-se para não ficar cercado, tal como em Severodonetsk.

Erdogan ameaça com novo bloqueio

O presidente turco voltou a ameaçar a Suécia e a Finlândia com um bloqueio à adesão dos dois países à NATO menos de 48 horas depois do acordo entre os três países. "Se cumprirem com seu dever, apresentaremos [o memorando] no Parlamento" para sua aprovação. Se não o fizerem, é impossível para nós enviá-lo ao Parlamento", advertiu Erdogan, que invocou uma "promessa feita pela Suécia", relativa à extradição de "73 terroristas". O governo sueco lembrou que as decisões em matéria de extradição são tomadas pela justiça, "independente" do poder executivo.

F-16 para a Turquia, F-35 para a Grécia

Aliados na NATO e rivais, Grécia e Turquia aproveitaram a cimeira para avançarem com negócios de armas: Atenas vai comprar 20 aviões F-35 aos EUA, enquanto Joe Biden disse esperar que o Congresso aprove a venda de 40 F-16 à Turquia e a modernização de outros 80.

cesar.avo@dn.pt

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