Ex-guerrilheiro eleito presidente da Colômbia

O ex-guerrilheiro Gustavo Petro foi eleito o primeiro presidente de esquerda de uma Colômbia devastada pela crise, depois de vencer o milionário Rodolfo Hernández numa segunda volta tensa e imprevisível.

Com mais de 99,5% dos votos contados, Gustavo Petro, antigo presidente da câmara de Bogotá, de 62 anos, detinha uma liderança de mais de três pontos, equivalentes a cerca de 700 mil votos a mais do que o populista Hernández, de 77 anos.

"Hoje é uma celebração para o povo. Vamos celebrar a primeira vitória popular", escreveu Petro no Twitter.

"Que tanto sofrimento seja amortecido pela alegria que hoje inunda o coração da Pátria. Esta vitória é para Deus e para o povo e a sua história. Hoje é o dia das ruas e praças", acrescentou Petro.

Hernández aceitou o resultado durante uma transmissão ao vivo no Facebook. "Espero que o senhor Gustavo Petro saiba governar o país e seja fiel ao seu discurso contra a corrupção", disse o magnata da construção.

Petro vai suceder ao profundamente impopular conservador Iván Duque, que foi impedido pela constituição da Colômbia de se candidatar à reeleição, num país sobrecarregado com uma pobreza generalizada, um surto de violência e outros infortúnios.

Num outro marco histórico, a ativista ambiental e feminista Francia Márquez, de 40 anos, tornar-se-á na primeira mulher - e negra - vice-presidente da Colômbia.

Esperava-se uma abstenção elevada entre os 39 milhões de eleitores, no meio de receios de que um resultado próximo pudesse desencadear violência. Para garantir a segurança, foram destacados cerca de 320 mil polícias e militares.

A missão de observação eleitoral disse que um dos observadores eleitorais de Petro e um soldado foram mortos, ambos no sul.

A violência política faz parte da história da Colômbia não é estranha: cinco candidatos presidenciais foram assassinados ao longo do século XX. Antes da primeira volta das eleições presidenciais deste ano, vários candidatos receberam ameaças de morte.

Gustavo Petro terá de lidar com um país a recuperar economicamente da pandemia, um surto de violência relacionada com o tráfico de drogas e uma raiva profundamente enraizada contra o poder estabelecido que transbordou em protestos antigovernamentais em abril de 2021.

Quase 40 por cento do país vive na pobreza enquanto 11 por cento está desempregado.

A ideologia de esquerda está intrinsecamente ligada na mente de muitos colombianos ao longo conflito de seis décadas do país, deixando muitos a temer o que uma presidência Petro pode representar. Petro foi um guerrilheiro urbano da esquerda radical nos anos 80 e passou quase dois anos na prisão. Mas o seu grupo M-19 fez a paz com o Estado em 1990 e formou um partido político.

Propõe diálogo entre América Latina e EUA sobre ambiente no primeiro discurso

O Presidente eleito propôs que a América Latina se una para dialogar com os Estados Unidos e lançar as bases para uma "transição energética" face aos danos causados pelas mudanças climáticas.

"Proponho ao governo dos Estados Unidos e a todos os governos das Américas que nos reunamos num diálogo para estabelecer os passos da transição energética, os passos da construção de uma economia descarbonizada, os passos da construção de uma economia da vida em toda a América", disse Petro, no domingo, no primeiro discurso depois de vencer a segunda volta das eleições.

O economista disse que a prioridade da política diplomática do governo será que a Colômbia esteja "na vanguarda mundial no combate às mudanças climáticas".

"A ciência mostrou-nos que, como espécie humana, podemos desaparecer a curto prazo (...), a dinâmica de acumulação de um mercado desenfreada, instintos desenfreados de ganância, um processo de consumo desenfreado estão prestes a terminar com os próprios fundamentos da existência. Nem a esquerda nem a direita nos dizem, é a ciência que nos diz", salientou.

Petro sublinhou que os Estados Unidos são o país que mais emite gases de efeito estufa, "absorvidos no sul", na Amazónia.

"Se são emitidos lá e nós absorvemos aqui, por que não conversamos? Por que não estabelecemos outra forma de nos entendermos?", questionou.

EUA felicitam colombianos por eleições "livres e justas"

Também no domingo, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, felicitou os colombianos pelas eleições presidenciais "livres e justas", sem comentar a proposta de Gustavo Petro.

"Estamos abertos a trabalhar com o Presidente eleito Petro para fortalecer ainda mais as relações entre os Estados Unidos e a Colômbia e levar as nossas nações a um futuro melhor", disse Blinken, num comunicado do Departamento de Estado dos EUA.

O líder da diplomacia norte-americana disse que "a cooperação entre os Estados Unidos e a Colômbia melhorou a saúde pública, a capacidade subsistência, o Estado de Direito e a proteção ambiental nos nossos dois países e em toda a região".

UE felicita Petro por resultado "inquestionável"

O alto representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, felicitou esta segunda-feira Gustavo Petro pela vitória nas eleições, com um resultado "inquestionável".

"Felicito Gustavo Petro pela eleição como próximo presidente da Colômbia. A Colômbia é um parceiro fundamental para a UE. Conte com a União Europeia para continuar a fortalecer as nossas relações", disse Borrell na rede social Twitter.

Posteriormente, Josep Borrel afirmou à chegada a um Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE que na Colômbia houve um "voto claro a favor da mudança política e de uma sociedade mais igualitária e inclusiva".

O alto representante afirmou igualmente que a UE tem uma missão de observação eleitoral destacada no país sul-americano, adiantando que será publicado um relatório sobre o processo.

No entanto, Borrell disse poder antecipar "que as eleições foram absolutamente transparentes, realizadas com total normalidade, com resultado inquestionável".

"Desejo o melhor para o presidente eleito da Colômbia e, para os colombianos, que possam avançar numa sociedade mais igualitária e inclusiva", concluiu.

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