Do voo histórico entre Israel e a Arábia Saudita ao "sangue nas mãos" de Joe Biden

Presidente norte-americano tinha prometido transformar o reino num estado pária, por causa do assassinato do jornalista Khashoggi, mas ontem cumprimentou o príncipe herdeiro, que os EUA dizem ter autorizado a sua morte

O Air Force One do presidente dos EUA, Joe Biden, voou ontem de Israel para a Arábia Saudita, naquele que foi o primeiro voo direto entre os dois países - numa rota que está a partir de agora aberta a qualquer companhia aérea, até às israelitas. Um momento "histórico", segundo Biden. Mas as atenções estavam focadas no encontro que teria com o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, acusado pelos EUA de ter aprovado a operação que em 2018 resultou na morte do jornalista Jamal Khashoggi. Uma morte que levou Biden a prometer transformar a Arábia Saudita num país "pária". Promessa agora quebrada, com a noiva do jornalista saudita a acusá-lo de ter "sangue nas mãos".

Apesar de o presidente norte-americano ter decidido que contrariar a influência chinesa e russa, pressionar para o aumento da produção de petróleo e encorajar laços mais próximos com Israel eram razões suficientes para pagar o preço político de viajar até à Arábia Saudita, a sua equipa receava qualquer imagem de Biden a apertar a mão a MBS - como é conhecido o príncipe herdeiro e líder de facto do país. O encontro foi à porta do palácio de Al-Salam, em Jidá, onde Mohammed bin Salman esperava o presidente norte-americano. Não houve um tradicional aperto de mão, mas um fist bump, com os punhos fechados, popularizado pela pandemia.

MBS acompanhou depois Biden até junto do pai, o rei Salman, de 86 anos, para um encontro à porta fechada - só os media oficiais sauditas estiveram presentes, sendo raras as aparições do monarca em público, alegadamente por problemas de saúde. Os dois trocaram um aperto de mão. Depois, o presidente e o príncipe herdeiro tiveram uma "reunião de trabalho" junto com outros membros das respetivas equipas, à volta de uma grande mesa, mas também num cenário mais íntimo, separados apenas por uma pequena mesa de apoio.

"Sangue nas mãos"

Hatice Cengiz, que era noiva do jornalista saudita assassinado em Istambul, partilhou no Twitter a imagem do cumprimento entre Biden e Mohammed bin Salman e aquilo que Khashoggi diria se fosse vivo: "O sangue da próxima vítima de MBS está nas suas mãos".

Numa conferência de imprensa posterior ao encontro, Biden disse que falou do caso "revoltante" com MBS, que lhe terá "basicamente dito que não era pessoalmente responsável" pela morte. "Eu indiquei que pensava que ele era", acrescentou Biden, reiterando que foi "direto" no tema das questões dos Direitos Humanos. "Para um presidente norte-americano, ficar calado sobre o tema dos Direitos Humanos é inconsistente com quem nós somos e com quem eu sou", referiu.

Biden disse ainda que não pode garantir que o Estado saudita não mate mais dissidentes, mas prometeu uma resposta forte: "Se algo do género acontecer outra vez, vão ter essa resposta e muito mais."

Durante a visita, Biden quer que o maior exportador de petróleo aumente a produção, de forma a reduzir o preço dos combustíveis, hoje está previsto um encontro com os líderes dos países do Golfo sobre este tema. Ao mesmo tempo que quer reforçar as relações entre Washington e Riade, travando os avanços tanto de Pequim como de Moscovo na região. Mas procura também fomentar uma maior abertura nas relações entre Arábia Saudita e Israel.

Têm sido dados passos nesse sentido, tendo em conta a ameaça do Irão - que os sauditas consideram a principal ameaça à estabilidade do Médio Oriente e que os israelitas veem como principal inimigo. Assim, não houve oposição de Riade quando o seu aliado regional, os Emirados Árabes Unidos, estabeleceram relações diplomáticas com Israel em 2020, seguindo-se o Bahrein e Marrocos, ao abrigo dos Acordos de Abraão. Mas os especialistas duvidam que haja qualquer normalização das relações com o rei Salman ainda vivo - ele defende que não deve haver paz até à retirada israelita dos territórios palestinianos.

Num gesto para com Biden e Israel, a Arábia Saudita abriu ontem o seu espaço aéreo a voos provenientes deste país. Já os israelitas deram luz verde a um acordo sobre duas ilhas desabitadas, mas estratégicas, no Mar Vermelho (Tiran e Sanafir), cuja soberania o Egito concordou há anos transferir para a Arábia Saudita, em troca de apoio financeiro, e que, ao abrigo do acordo de paz, Israel tinha de validar.

"Horizonte político".

Biden começou o dia com uma ida a Belém, na Cisjordânia, para um encontro com o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas. O presidente dos EUA reiterou o compromisso para a solução de dois Estados, de modo a acabar com o conflito israelo-palestiniano, defendendo que é preciso "um horizonte político" que dê esperança aos palestinianos. "Não podemos permitir que o desespero nos roube o futuro", afirmou.

Por seu lado, Abbas criticou o "apartheid" israelita e disse estar a dar passos para melhorar as relações com Washington, insistindo na reabertura do consulado norte-americano para os palestinianos em Jerusalém, fechado pelo ex-presidente Donald Trump. Em matéria económica, Biden prometeu cem milhões de dólares para ajudar a rede hospitalar e um projeto para implementar o 4G na Faixa de Gaza e Cisjordânia, além de uma contribuição adicional de 200 milhões de dólares para a agência da ONU que lida com os refugiados na Palestina.

Biden recusou reunir com a família da jornalista Shireen Abu Akleh, alegadamente morta pelos israelitas quando fazia a cobertura de uma operação policial, mas convidou-os a ir a Washington. E disse que os EUA vão continuar a insistir numa total transparência em relação ao que aconteceu.

susana.f.salvador@dn.pt

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