Diário de Guerra - Dia 5. "Estamos a lutar pela nossa liberdade. Glória à Ucrânia!"

Enviado Pedro Cruz faz o relato, todos os dias, dos acontecimentos na zona do conflito.

O edifício do Museu de Artes de Lviv tem uma torre de vigia que se destaca por ser antiga, altiva e medieval. A porta é estreita, mas uma vez atravessada, o que vai lá dentro não é a calma ou o silêncio habitual nos museus. Há um corrupio, um formigueiro, um exército de mulheres ucranianas, de todas as idades, que tecem redes de camuflagem que hão de servir para esconder blindados, tanques e trincheiras na linha da frente.

O processo não é complexo, mas tem várias fases - há quem recolha, selecione e separe tecidos de várias cores e os coloque em diferentes pilhas; a tarefa seguinte é cortar o tecido em tiras longitudinais, tão longas quanto o tecido o permita; depois, essas tiras compridas dão origem a outras, mais pequenas, de um metro. Por fim, dezenas de pares de mãos, sem parar, sem nunca parar, em movimentos enérgicos, rápidos e repetitivos, vão atando os pedaços de tecido a uma rede previamente colocada ao alto. Cada rede tem dez ou mais pessoas a laborar, todas ao mesmo tempo. Em poucos minutos, a rede que há de chegar "aos rapazes" na linha da frente fica pronta. E não há tempo para parar. Música popular ucraniana toca nas colunas, para dar ânimo e recordar a todas o que estão ali a fazer. São voluntárias. E sempre que alguém se cansa ou para para fumar ou beber água, outra toma o seu lugar e mantém vivo o trabalho.

"Isto é o que podemos fazer. Queremos ajudar, não vamos ficar em casa a ver as notícias sem fazer nada", resume Anasthasia Uvernikova, especialista em tecnologia que, do alto dos seus 24 anos, coordena mais de 200 voluntárias. "As mulheres que aqui estão têm filhos, maridos, pais, irmãos, namorados, na linha da frente do combate. Nós ajudamos desta forma." Minutos depois, a música baixa e uma jovem eleva a voz diante de todos.

"- Parabéns a todos, acabámos de bater um recorde. Até agora já conseguimos fazer 24 redes de camuflados. Estão prontas e já seguiram para os rapazes."

A sala para por alguns segundos e todos se aplaudem mutuamente, como se cada um retribuísse a si próprio, e aos outros, o trabalho que tinham acabado de fazer. Entusiasmada, Anasthasia grita:
"- Glória à Ucrânia!"

Os voluntários juntam-se à interpelação. Em coro, "glória à Ucrânia". E ela prossegue:
"- O Putin que se fod*!"
E o coro torna a concordar, sobem o tom, gritam várias vezes em conjunto: "O Putin que se fod*!"

A música volta a tocar e todas regressam ao trabalho. Fora da porta, a fila para entregar tecidos continua a crescer.
A dez quilómetros do centro de Lviv, Olena Znak, fotógrafa de viagens, está sentada no chão da sala. Sozinha. Deixou, por estes dias, o apartamento na cidade e regressou para juntos dos pais. Também ela tem sacos de tecido para cortar, primeiro em tiras grandes e depois em pedaços de um metro. Quando enviar a encomenda, quem está a montar a rede de camuflado só precisa de atar o pano à rede. "Temos de ajudar os rapazes."


Uma rede de voluntários disposta a tudo


Saindo do museu, é só virar à esquerda, a rua sobe um pouco, depois corta-se à direita, sempre a subir. Há um portão, aberto, que dá para um pátio não muito grande de terra batida. Outro exército. Aqui, há só homens com mais de 60 e jovens com menos de 18, que dominam os fornos numa divisão minúscula - a cozinha foi pensada para servir uma casa e não uma frente de batalha.

No pátio, divididas em grupos, mulheres de várias idades e estratos sociais, tratam dos legumes. "Agora estou a cortar cebolas e a lutar pela nossa liberdade", diz Yulia Kardash, 44 anos, professora. Toda a gente sabe que não há exército que funcione de barriga vazia: "Temos de tratar bem dos nossos rapazes, queremos que estejam saudáveis, temos que tomar conta deles e estamos gratas pela forma como estão a tomar conta de nós".

A mulher que coordena todo o trabalho destas voluntárias fala alto, depressa e em várias direções. As instruções são claras e precisas. Tem voz de comando. E um objetivo: "A comida tem de chegar depressa para não se estragar." Só quando vê as panelas a entrar em carrinhas que mal cabem no portão que dá acesso ao pátio de terra batida, é que Ludmyla Kuvaisova, fundadora da "cozinha voluntária", consegue descansar.

De volta dos alhos está a jornalista Regina Lizogub. Revela-se a mais emocional: "Temos de ajudar os nossos rapazes." Quanto a ela, garante, está "disposta a tudo". "Se for preciso pegar numa arma e ir combater, estou pronta. Quero defender o meu país, a nossa liberdade e independência".

Ah! E "o Putin que se fod*".

Enviado à Ucrânia

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