Deslocados de Quissanga antecipam futuro de quem foge agora ao terror

O campo 25 de Junho, em Metuge, foi construído para acolher 3 mil famílias, mas ultrapassou largamente a capacidade. Agora dá abrigo a 5872 agregados familiares: 23 589 pessoas.

A vida de Muanacha António depois da invasão da Quissanga, na província de Cabo Delgado, em 2020, é como que um olhar para o futuro dos deslocados de Palma: incerto, repleto de saudade e de revolta. "Gostaria mesmo era de voltar a casa. A minha vida está habituada lá. Sou uma camponesa, trabalhava na agricultura. Aqui não consigo trabalhar, porque a área é nova para mim, não sei onde posso abrir o campo para a agricultura. Lá [em Quissanga] sei onde encontrar os campos para a agricultura", diz à agência Lusa.

Muanacha tem 29 anos e fugiu da vila de Quissanga em setembro, após meses de ataques constantes dos rebeldes, apoiados pelo grupo terrorista Estado Islâmico, que tiveram como ponto alto o final de março, quando a sede de distrito foi mesmo ocupada.

"Atacaram pela primeira vez a 29 de janeiro [de 2020], algumas pessoas conseguiram sair [da vila], aquelas que tinham família de fora. Quem não tinha família ou condições para sair ficou. Eu continuei lá até ao dia 25 de setembro. Voltaram a atacar e partimos nessa noite", descreve Muanacha, sentada no banco em frente à tenda que lhe foi atribuída quando chegou a 27 de setembro com os quatro filhos, o marido e a mãe. Uma das filhas observa-a, atenta, a partir da tenda, que hoje constitui a sua casa.

São quatro paredes feitas de bambu, uma lona de plástico, um pequeno coletor de energia solar que fornece alguma energia, uma panela ao lume e o banco onde está sentada.

Encontrá-la não foi difícil, já que a "casa" provisória onde está a viver no campo 25 de Junho, em Metuge, localiza-se relativamente perto do centro, ao lado de uma antiga escola onde os líderes das diferentes comunidades de deslocados estão reunidos durante o dia.

O campo foi construído para acolher 3 mil famílias, mas ultrapassou largamente a capacidade. Agora dá abrigo a 5872 agregados familiares - 23 589 pessoas -, de acordo com a informação disponibilizada pelos responsáveis pela gestão daquele espaço.

Inverno e chuvas a chegar

A lona que dá um teto à família de Muanacha já está rota e precisa de substituição. Este é um problema recorrente em todo o campo, assim como a falta de utensílios para cozinhar ou meios de transporte que permitam levar as pessoas até ao hospital mais próximo.

No hemisfério sul, o inverno está a chegar e com ele a chuva, por isso, é preciso substituir lonas e reforçar as estruturas das tendas, já que o solo do 25 de Junho não absorve a água, nascendo poças lamacentas atrativas para os mosquitos que transmitem a malária, a doença mais presente no campo.

Durante a conversa com Muanacha, um automóvel com um altifalante alerta a população para o início de uma campanha de distribuição de medicamentos contra a malária.

Também por isto, pelo medo permanente das doenças, se Muanacha pudesse voltaria imediatamente a casa, da qual tem "muitas saudades". "Arroz, mandioca, milho e feijão nhemba", assim como "alface, repolho, cebola e outras hortícolas". Tudo isto era cultivado por Muanacha na sua pequena machamba [horta], explica, com saudade, à agência Lusa.

"É quase tudo difícil. Não sei como conseguir dinheiro, muita coisa... A roupa, bens de casa. Lá conseguia com aquilo que produzia na machamba. Repartia uma parte para o consumo, a outra parte vendia e conseguia comprar outras necessidades", conta.

"Campo de acomodação" temporário

O 25 de Junho é um "campo de acomodação" temporário. As comunidades vão, entretanto, ser transferidas para outras áreas de Metuge onde as autoridades esperam integrar os denominados campos de realojados.

Muanacha e a família vão eventualmente encontrar uma casa, como as que existem na comunidade de Quilite, que agrega 1705 deslocados, na área de Ntokota (Metuge), a cerca de 40 quilómetros do 25 de Junho.

Aqui já há jardins construídos - havia mandioca e melancia plantadas quase por todo o lado -, há alpendres, latrinas e casas de banho, como descreveu Muamade Azir, 72 anos, natural da aldeia de Quilite, em Quissanga, de onde fugiu com a família, "que é quase uma comunidade", com 30 pessoas.

Antes de esta aldeia ser erguida, a vida era "anormal" e "sem espaço", mas a saudade de casa não é substituída, admite.

Contudo, as histórias de Muanacha e Muamade têm um elemento em comum: a ausência de soluções para sobreviver sem ajuda. "Temos muitas coisas em falta. Não temos esteiras, não temos cobridores, não temos dinheiros e não temos sabão", sustentou Muamade Azir.

O percurso de Muamade é um olhar para o que pode ser o futuro da família de Muanacha, bem como os mais de 23 mil deslocados de Quissanga que vivem no 25 de Junho ou muitos outros de uma província que contabiliza 700 mil pessoas obrigadas a sair das suas casas.

Apesar do trabalho constante das organizações não governamentais nestes campos, o número de pessoas deslocadas em Cabo Delgado não para de aumentar.

Para conseguir dar esta resposta até ao fim de 2021, o Programa Alimentar Mundial precisa de 82,4 milhões de dólares ou cerca de 10 milhões por mês (69,24 milhões de euros ou 8,4 milhões por mês).

As autoridades moçambicanas retomaram o controlo da vila de Palma, atacada a 24 de março por grupos rebeldes, provocando dezenas de mortos e feridos, num balanço ainda em curso.

Os grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2500 mortes e 700 mil deslocados.

Jornalista da Lusa

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