Cuomo recusa sair mas o cerco aperta

São já seis as mulheres que acusam o governador de Nova Iorque de as ter assediado sexualmente. Pressões de democratas para que se demita crescem e já se fala de impeachment.

Com 59 parlamentares democratas da assembleia do Estado de Nova Iorque a juntarem-se aos republicanos que exigem a sua demissão e o speaker, o também democrata Carl Hestie, a anunciar esta quinta-feira que autorizara o comité judiciário a iniciar uma investigação de impeachment, o caso de Andrew Cuomo, o governador do Estado de Nova Iorque cujo terceiro mandato termina em 2022, começa a ficar muito bicudo.

Heastie disse isso mesmo: "As alegações feitas contra o governador são sérias. O comité vai poder entrevistar testemunhas, requerer documentos e avaliar a prova." E aconselha o governador a refletir sobre se pode corresponder às necessidades dos seus constituintes. A líder do Senado do estado, a democrata Andrea Stewart-Cousins, vai mais longe: diz que Cuomo deve demitir-se "pelo bem do estado".

Um impeachment segundo as regras da assembleia do estado implica uma maioria simples na câmara baixa e dois terços na alta - e a última vez que aconteceu foi em 1913.

Ainda assim, o político de 63 anos, que ainda recentemente era apontado pelo presidente Joe Biden como "padrão-ouro" pela sua atuação na crise pandémica (chegou mesmo a publicar um livro, American Crisis, apresentando-se como "o homem que enfrentou e derrotou a pandemia"), veio esta sexta-feira certificar que não tenciona demitir-se. "Não fiz aquilo de que sou acusado", asseverou, pedindo que se espere por "mais factos".

Sucede que quanto mais o tempo passa mais acusações aparecem. A última - número seis - surgiu esta quarta-feira: um jornal local, o Times Union, publicou um relato de uma funcionária que alega que Cuomo lhe enfiou uma mão por baixo da blusa e a agarrou "agressivamente" na sua residência privada. Foi a gota de água que levou 59 membros democratas da assembleia estatal a juntarem-se a dezenas de republicanos que clamam pela demissão.

Esta crise também americana começou em dezembro, quando Lindsey Boylan, candidata democrata a Manhattan, publicou vários tuites acusando Cuomo de a ter assediado sexualmente. Nessa altura não aceitou falar com os media, mas no final de fevereiro escreveu um texto detalhando as acusações: o governador, para quem trabalhava, ter-lhe-ia em 2017 dito, em tom jocoso, que deviam "strip poker" (ou seja, a jogar poker em que os jogadores se vão despindo à medida que perdem) num avião de serviço. Em 2028 chegaria mesmo a dar-lhe um beijo forçado nos lábios, quando estavam sós no gabinete dele.

Cuomo tinha negado tudo desde o início. Mas o New York Times falou em fevereiro com três pessoas que trabalharam no gabinete ao mesmo tempo que Boylan e que, sob condição de anonimato, admitiram que, embora não pudessem corroborar as alegações dela, o governador fala por vezes observações inapropriadas e comentava a aparência das pessoas.

E depois começaram a aparecer mais mulheres narrando o mesmo tipo de episódios. Por exemplo Charlotte Bennett, de 25 anos, também ex-funcionária do gabinete do governador. Tendo abandonado o cargo em novembro, alega que Cuomo lhe fez perguntas sobre a sua vida sexual e se já tinha tido sexo com homens mais velhos. Reportou a situação ao chefe de gabinete, que a transferiu para outro trabalho. Cuomo negou, mais uma vez: "Nunca lhe fiz avanços."

A terceira foi Anna Ruch, de 33 anos, que disse ter conhecido Cuomo num casamento. Enquanto falava com ele, conta, o governador pôs a mão no fundo das costas nuas. Quando ela lhe retirou a mão, ele chamou-lhe agressiva e perguntou se a podia beijar, agarrando-lhe na cara. Uma outra pessoa amiga de Ruch corrobora a narrativa.

A 6 de março, mais dois casos foram revelados pelos media - e esta quarta-feira, 10 de março, outro.

A procuradora geral do estado de Nova Iorque, a democrata Letitia James, está já a preparar-se para iniciar a investigação do caso, tendo contratado dois juristas, um ex-procurador do estado e um especialista em Direito do trabalho.

O gabinete de Cuomo diz que ele vai cooperar "voluntária e absolutamente" com a investigação.

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