Brexit e confinamento explicam tumultos na Irlanda do Norte

Há muito que a província britânica não vivia dias seguidos de violência em tão larga escala. Líderes apelam para a calma.

Tumultos "numa escala inaudita há anos na Irlanda do Norte", como dizem as autoridades, causaram ferimentos em 55 agentes da polícia, um fotojornalista e um motorista de autocarro, e levaram à detenção de uma dezena de pessoas, algumas menores de idade. Ao fim de dez dias de violência, a operação mais espetacular ocorreu na quarta-feira, quando um autocarro foi tomado em Belfast e deixado na estrada antes de ser incendiado. Políticos de todos os quadrantes da província britânica, assim como os líderes da República da Irlanda, Reino Unido e Estados Unidos, apelaram para o fim da violência.

Décadas de violência sectária e cerca de 3500 mortos continuam a pesar na sociedade, apesar do acordo de paz assinado em 1998, pelo que não é invulgar acontecerem tumultos. Desta vez, porém, a escala e a duração aparentam tratar-se de algo mais grave.

"O facto de ser violência sectária e de haver grandes grupos de ambos os lados é algo que não vimos durante vários anos", disse aos jornalistas Jonathan Roberts, da polícia da Irlanda do Norte (PSNI). Roberts disse que adolescentes com apenas 13 anos são suspeitos de envolvimento na sequência do incentivo por parte de adultos, e o grande volume de explosivos utilizados sugere "um nível de planeamento prévio", pelo que a PSNI está a investigar se os grupos paramilitares da Irlanda do Norte estão envolvidos na onda de violência.

Funeral e fronteira

O que desencadeou a desordem iniciada no fim de março e que tem as forças policiais como principal alvo? Ao que conta a The Economist, são dois os motivos. O primeiro foi a decisão de um procurador em não acusar os líderes políticos presentes no funeral de um membro do Exército Republicano Irlandês (IRA) que decorreu em junho passado e que reuniu umas duas mil pessoas, direção do Sinn Féin incluída, quando as restrições causadas pela pandemia impediam o ajuntamento de mais de dez pessoas nas cerimónias fúnebres. O procurador justificou a falta de qualidade da legislação para poder avançar com o processo, soube-se no dia 30 de março.

A segunda questão está relacionada de forma direta com o Brexit. O acordo do governo de Boris Johnson com a União Europeia criou uma fronteira no mar da Irlanda, cujos efeitos começaram a ser sentidos desde janeiro. Esta foi a solução que todas as partes viram como a mais satisfatória - os conservadores britânicos e os unionistas irlandeses rejeitaram esta proposta quando Theresa May era a residente do número 10 de Downing Street -, uma vez que uma fronteira física entre a República e a província britânica foi um cenário a evitar a todo o custo.

Desta forma, e na prática, a Irlanda do Norte mantém-se na esfera do mercado único e da união aduaneira, com os bens chegados da Grã-Bretanha a serem objeto de inspeção. O chamado protocolo sobre a Irlanda e Irlanda do Norte tem levado a perturbações na distribuição de bens e alimentos na província, com algumas empresas britânicas a recusarem enviar mercadorias através do mar da Irlanda, ou excluindo os irlandeses do Norte de encomendar determinados artigos online. "Não há dúvida de que o Brexit e o acionamento do protocolo prejudicaram significativamente o equilíbrio de poder", comentou Duncan Morrow, professor de ciências políticas na Universidade do Ulster, à AFP. "Isto tem estado a fermentar há meses."

Sendo certo que a violência teve início entre os unionistas, que querem o fim do protocolo, os republicanos ou nacionalistas irlandeses responderam na mesma moeda na quarta-feira, com o arremesso de cocktails molotov e outros engenhos explosivos. "Continua a ser muito difícil ver onde isto vai desembocar, exceto o aumento da frustração e da raiva", diz Morrow.

É neste cenário de tensão que o executivo da Irlanda do Norte, composto por unionistas, nacionalistas e moderados, emitiu uma declaração a condenar a violência. "Embora as nossas posições políticas sejam bastante diferentes em muitas questões, estamos todos unidos no nosso apoio à lei e à ordem", declarou o governo de Stormont. Boris Johnson e o seu homólogo irlandês Micheal Martin, após uma conversa ao telefone, "apelaram para a calma" e disseram que a "violência é inaceitável", no que foram secundados pela Casa Branca.

Altos e baixos

Acordo de Sexta-Feira Santa

Em abril de 1998, os partidos políticos da Irlanda do Norte e os governos britânico e irlandês assinam o também chamado Acordo de Belfast, que prevê a pacificação e a desmilitarização do norte da ilha, mas também a autonomia das instituições. O acordo é aprovado pelos eleitores da República da Irlanda e da Irlanda do Norte, pondo fim a dezenas de anos de violência em larga escala que deixaram milhares de mortos e que opuseram católicos e republicanos de um lado, e protestantes e unionistas do outro.

Fim da operação militar

Apesar de se registarem tumultos com alguma regularidade em Belfast e de o Real IRA continuar ativo, o governo britânico dá por encerrada a operação militar em 2007, meses depois de o líder unionista e o do Sinn Féin se terem encontrado pela primeira vez e acordado um governo com partilha de poder.

Jornalista assassinada

Prova de que a sociedade não está pacificada, a jornalista Lyra McKee, de 29 anos, foi alvejada mortalmente em abril de 2019 durante um ataque, atribuído ao Real IRA, a agentes da polícia.

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