Brasil. Moro, o candidato presidencial, já "morreu"

Cientistas políticos não têm dúvidas sobre o fim da carreira política do ex-ministro de Bolsonaro depois de ter sido julgado "parcial" nos casos envolvendo Lula.

Ocaminho para uma segunda volta presidencial entre Jair Bolsonaro e Lula da Silva em 2022 está cada vez mais claro e desanuviado: Sérgio Moro, o candidato mais forte de uma eventual terceira via, é caso encerrado na política nacional brasileira, acreditam os analistas, depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter considerado o ex-ministro do atual presidente "parcial" no julgamento do chefe de Estado de 2003 a 2010.

"A situação de Sérgio Moro é calamitosa", resume o cientista político Alberto Carlos Almeida, ao DN. "Ele não faz parte do mundo político, que o odeia, eu diria que 80% dos deputados ou senadores não querem ver Moro na frente, ele perdeu a imprensa, já não tem a imprensa que sempre teve do seu lado, e ele perdeu discurso, porque o único discurso que tinha, de lutador imparcial contra a corrupção, perdeu-o ao ser considerado parcial."

"Acresce que ele hoje trabalha numa firma americana e o principal papel dele é ser lobista de empresas como a Odebrecht ou a OAS [investigadas e condenadas por corrupção na operação Lava-Jato], então ele não tem a menor condição de ser candidato a presidente do Brasil." "No máximo", conclui Almeida, "a um cargo no Paraná", o estado de nascimento do antigo juiz e ex-ministro.

"Já não tem clima", acrescenta Vinícius Vieira, professor, entre outras, da Fundação Getúlio Vargas. "Ele tem até rejeição maior do que Lula ou Bolsonaro, pelo que a sua candidatura como terceira via fica inviabilizada, ele fica numa situação de quase morte política, uma morte provocada, em parte, por ele mesmo, ao entrar no atual governo".

Vieira traça um cenário ao DN: "Imaginemos que ele tivesse continuado como juiz: dir-se-ia hoje injustiçado pelo Supremo Tribunal Federal, abandonaria a carreira de juiz e poderia candidatar-se como grande polo contra Lula, como o principal nome da direita."
Três dos cinco juízes do STF que compõem a Segunda Turma do tribunal deram razão à tese da defesa de Lula de que o outrora juiz da Lava-Jato agiu com parcialidade no julgamento do antigo presidente.

Mas a imagem de Moro já não estava boa. "Moro já sofria desgaste desde que aderiu ao governo Bolsonaro, até porque o voto de muita gente em Bolsonaro foi um voto de nariz tapado, porque se sabia que se tratava de alguém expulso do exército mas que, na avaliação um tanto ou quanto bizarra desses eleitores, representava uma melhor alternativa ao PT."

De facto, segundo uma sondagem do Instituto Datafolha de dias antes da decisão do STF, 45% dos brasileiros consideravam que Moro foi "bom" ou "ótimo" como juiz principal da Lava-Jato. Em três avaliações de 2016 esse número variou de 65% a 62%. Já a rejeição dobrou: de 11% e 13% em 2016 para 27%.

Neste intervalo, além de se manter na mira dos apoiantes de Lula, o ex-magistrado rompeu com Bolsonaro. "A adesão dele a esse governo, um governo que já nasceu eivado de contradições para os brasileiros mais centristas, levou a que esses brasileiros mais centristas já deixassem de o apoiar", continua Vieira, que aponta mais dois problemas.

"Por outro lado, encontrar um partido político que o abrigasse, tendo em conta que a sua atuação foi exatamente contra a classe política, já seria problemático e, segundo as sondagens, o eleitorado de Moro - empresários, brancos, da região sul - compete muito com o eleitorado de Bolsonaro."

A terceira via

Sobra à "terceira via" as alternativas já faladas: João Doria, o governador de São Paulo, Luciano Huck, apresentador da TV Globo, Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, ou Ciro Gomes, terceiro mais votado em 2018 e que se situa um pouco mais à esquerda no mapa político.

"Qualquer nome centrista ou de centro-direita terá dificuldades, seja também Huck, Doria ou outro, todos têm rejeição, até mais alta do que Lula e Bolsonaro, pelo que caminhamos para uma eleição entre o centro-esquerda, o PT, e a ultradireita, uma direita muito conservadora e que namora com aspetos da extrema-direita europeia dos anos 20 do século passado."

Atores políticos também se pronunciaram. Janaína Paschoal (PSL), subscritora do impeachment de Dilma Rousseff e potencial apoiante de Moro em 2022, acha-o vítima. "Ele precisa sair da toga do juiz e começar a tratar de outros temas, manifestar-se como pré-candidato. (...) Quando ele se manifestar como potencial candidato, vai ficar mais claro que estes movimentos todos têm o instituto de miná-lo para 2022", disse à rádio Jovem Pan.

Para Fernando Haddad (PT), que perdeu a eleição presidencial em 2022, pelo contrário, "o herói foi desmascarado e o falso Messias [Bolsonaro] será o próximo".

dnot@dn.pt

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