Brasil escolhe o presidente logo a seguir à telenovela 

O horário, as regras, o histórico, as audiências, os participantes e o moderador do debate na TV Globo de daqui a algumas horas para o qual Bolsonaro ainda não confirmou presença.

Daqui a algumas horas, cerca de 156 milhões de eleitores estarão sintonizados na TV Globo para acompanhar o último dos três debates televisivos da primeira volta das presidenciais do Brasil, marcadas para domingo. Jair Bolsonaro (PL), o candidato à reeleição cuja presença não está confirmada, Lula da Silva (PT), o líder das sondagens, Simone Tebet (MDB), Ciro Gomes (PDT), Padre Kelmon (PTB), Soraya Thronicke (União Brasil) e Felipe d"Avila (Novo) são os sete convidados, de 11 candidatos no total, como representantes dos partidos com, no mínimo, cinco parlamentares.

O debate começa às 22:30 de Brasília, 02:00 de Lisboa, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, logo depois da telenovela "Pantanal", a refilmagem de uma telenovela homónima de 1990 da extinta Rede Manchete, em plena penúltima semana de exibição e com audiências em torno de 20 milhões.

Haverá quatro blocos, dois com temas livres e com os candidatos a fazer perguntas uns aos outros e dois com temas determinados mas sorteados na hora pela produção do programa. As perguntas deverão ser feitas em 30 segundos, com mais um minuto de réplica. O candidato escolhido para responder terá que fazê-lo em três minutos, somando resposta e tréplica.

Ao final, os sete candidatos terão oportunidade de fazer as últimas considerações por 90 segundos. Por sorteio, foi definido que os dois últimos serão justamente os primeiros nas sondagens: Lula e Bolsonaro, por esta ordem. Se alguém faltar ao debate ficou acordado que o lugar do ausente permanecerá vazio e identificado com o seu nome. Aliás, o candidato faltoso poderá ser alvo de perguntas.

William Bonner, 58 anos, apresentador há 26 do Jornal Nacional, o noticiário televisivo mais influente do país, vai moderar o debate. Alvo de críticas de apoiantes de Bolsonaro nos últimos anos - chamam o canal de "Globolixo" - o jornalista já esteve também na mira de eleitores de Lula - cantavam o slogan "fora Globo, o povo não é bobo".

O programa é anunciado nos teasers da Globo como "decisivo". Mas os debates na TV são mesmo decisivos no Brasil? O DN falou com dois especialistas em política e um em televisão.

"As sondagens mostram que Lula tanto pode chegar aos 50% mais um voto, que lhe garantem a vitória, como pode ficar no "quase"", resume Thomas Traumann, colunista do jornal O Globo e da revista Veja. "Por isso o debate na Globo será decisivo para indicar qual a tendência dos 4% de brasileiros ainda indecisos, segundo pesquisa recente do instituto IPEC, eles são poucos mas em número suficiente para resolver a eleição a favor de Lula, caso ele tenha um desempenho superior, ou, caso contrário, prolongar a disputa até 30 de outubro".

Para o politólogo Alberto Carlos Almeida, autor de A Mão e a Luva, O Que Elege Um Presidente, "os debates não mudam nada" mas, paradoxalmente, "são importantes". "Eu já fiz um estudo sobre a importância dos debates, analisando as sondagens logo depois deles, e concluí que eles, embora sejam importantes como ritual eleitoral, não mudam nada".

"É que uma campanha eleitoral, como um casamento, tem rituais", continua Almeida. "Os rituais do casamento são a igreja, os trajes dos noivos, a troca de alianças e os votos de fidelidade, nos rituais de uma campanha eleitoral estão, entre outras coisas, os debates". Continuando a analogia, o politólogo lembra que "da mesma forma que a felicidade numa união matrimonial não depende daqueles rituais, a eleição de um presidente não depende do debate, é um ritual importante, porque as pessoas estão à espera dele, mas não decisivo".

Maurício Stycer, colunista de televisão no portal UOL e no jornal Folha de S. Paulo, concorda, analisando o histórico deste tipo de eventos televisivos. "Os debates são importantes, por serem vistos por muita gente, especialmente os da Globo, mas nem por isso são decisivos". "Este debate é em horário nobre, logo depois da novela Pantanal, que está na sua penúltima semana, e a audiência à hora do fim do episódio deve estar acima de 30 pontos [cerca de 21 milhões de telespetadores], no entanto, um debate é um evento longo e cansativo, de quase três horas, terá altos e baixos de audiência".

O debate na TV Bandeirantes, sem o Padre Kelmon, por não ter ainda a candidatura homologada, liderou as audiências a 28 de agosto. Mas o do SBT, transmitido ao fim da tarde de sábado, dia 24, sem Lula, ficou em terceiro, atrás dos concorrentes Globo e Record. Entretanto, segundo sondagem do instituto Ipespe, 55% dos interrogados vão assistir ao debate da Globo.

Sobre a eventual ausência de Bolsonaro, que pode promover uma live nas redes sociais em simultâneo, Stycer diz que o atual presidente, inevitavelmente, perderá na batalha das audiências. "Um ponto de audiência na televisão são 700 mil pessoas, ou seja, prevê-se os tais 21 milhões de telespetadores, infinitamente muito mais gente do que qualquer live do presidente até hoje".

Dito isso, nem sempre a presença em debates garantiu a vitória em eleições. "Por exemplo, Collor de Mello e Lula ganharam em 1989 e em 2006 sem irem a nenhum debate de primeira volta; o Fernando Henrique Cardoso ganhou, logo à primeira em 1998, sem ir a nenhum debate; e o Bolsonaro, em 2018, só foi a dois na primeira e a nenhum na segunda, alegando questões médicas, e ganhou".

O primeiro debate na redemocratização ocorreu a 17 de julho de 1989, sem dois dos principais candidatos, Collor, futuro vencedor, e Ulysses Guimarães, mas com Lula, segundo mais votado, e outros oito. Na ocasião, Paulo Maluf, de direita, chamou Leonel Brizola, de esquerda, de "desequilibrado". Na resposta, Brizola apelidou Maluf de "filhote da ditadura".

Na segunda volta, Collor e Lula enfrentaram-se num debate famoso pela manipulação, a favor do primeiro e contra o segundo, do resumo no Jornal Nacional, da Globo, conforme alegaram o PT e artistas da emissora favoráveis ao então sindicalista logo na altura. Em 2015, a Globo admitiu o erro e fez mea-culpa.

Em 2006, os candidatos chamaram-se de "mentiroso" e "leviano" num dos debates mais ferozes da história - eram Lula e Geraldo Alckmin, hoje candidatos a presidente e vice na mesma lista.

dnot@dn.pt

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