Boris nas mãos do partido. "Estou triste por deixar o melhor emprego do mundo"

Numa declaração aos britânicos, Boris Johnson apresentou a demissão após a saída de dezenas de membros do seu executivo. Está agora nas mãos do partido o tempo que vai manter-se em funções como primeiro-ministro.

"É clara a vontade do Partido Conservador parlamentar de que deve haver um novo líder do partido e, portanto, um novo primeiro-ministro", afirmou esta quinta-feira Boris Johnson, de 58 anos. Apresentou, assim, a demissão que surge após a saída de dezenas de membros do seu executivo e as renúncias de vários elementos do partido.

Numa declaração ao país, o (ainda) primeiro-ministro explicou que se manteve em funções por considerar que era o seu dever e obrigação para com os cidadãos britânicos. Acrescentou que concordou que o processo para escolher o seu sucessor na liderança do Partido Conservador "deve começar agora". "O prazo será anunciado na próxima semana", disse. Está, portanto, nas mãos do partido o tempo que Boris Johnson vai continuar a desempenhar as funções de primeiro-ministro.

"Nomeei um governo para servir, como eu farei, até que seja eleito um novo líder", esclareceu o (ainda) chefe do governo.

Em Downing Street, Boris Johnson disse estar "triste" por deixar "o melhor emprego do mundo", e agradeceu aos "milhões" de eleitores que votaram no Partido Conservador, em 2019, pelo "mandato incrível". Além de destacar o apoio que recebeu da família.

"A razão pela qual insisti em continuar a cumprir o mandato não foi apenas por querer fazê-lo, mas porque senti que era o meu trabalho, o meu dever, a minha obrigação para convosco, para continuar a fazer o que prometemos em 2019", afirmou.

Destacou o facto de estar "imensamente orgulhoso" das conquistas do governo que liderou, dando como exemplo o que foi feito no âmbito do Brexit, da pandemia de covid-19 e ainda o facto do Reino Unido "liderar o Ocidente" na condenação à agressão de Putin na Ucrânia.

Com o desenrolar dos últimos desenvolvimentos, que precipitaram a demissão, Boris Johnson admitiu que vai ser "doloroso" não estar envolvido no desenvolvimento de projetos pensados pelo seu governo.

Boris Johnson estava cada vez mais isolado no número 10 de Downing Street, depois de nas últimas horas sucederem-se as demissões, ao todo ultrapassam as 50, de ministros e secretários de Estado, bem como de elementos do Partido Conservador.

Antes da declaração ao país, a BBC antecipava a demissão. Citava um porta-voz do gabinete do chefe do governo indicando que Boris Johnson "concordou" retirar-se até que fosse escolhido um novo líder do Partido Conservador, estando prevista para outubro a realização de um congresso do partido.

A demissão de Johnson é uma "boa notícia", considera o líder do principal partido da oposição (Partido Trabalhista). Keir Starmer defende, no entanto, que apenas mudar o líder do Partido Conservador não é suficiente. É preciso uma "mudança de governo", sublinha.

Os últimos desenvolvimentos reforçaram a fragilidade da situação do primeiro-ministro, cada vez mais isolado. Apenas 36 horas depois de ter sido nomeada como a nova responsável pela pasta da Educação, Michelle Donelan decidiu apresentar a renúncia ao cargo. Já o novo ministro das Finanças, Nadhim Zahawi, apelou a Boris Johnson para sair.

O recém-nomeado ministro disse que aceitou substituir Rishi Sunak na pasta das Finanças por ​​"lealdade" ao país e não a um homem, mas aconselhou, na quarta-feira, Boris Johnson de que só havia um caminho: sair "agora". Apesar de ter tido a esperança que ele "ouvisse um velho amigo de 30 anos", o primeiro-ministro não seguiu a recomendação. "O país merece um governo que não seja apenas estável, mas que atue com integridade", referiu.

Na carta de demissão, Michelle Donelan, recém-nomeada ministra da Educação, relata que "implorou" a Boris Johnson para que "fizesse a coisa certa" e que renunciasse a bem do país e do partido. "Não vejo como pode continuar no cargo", lê-se na missiva, referindo que o chefe do governo deixou os ministros numa "situação impossível".

O ministro britânico para a Irlanda do Norte, Brandon Lewis, também faz parte da lista de demissões. Renunciou ao cargo esta quinta-feira em protesto contra a continuidade do primeiro-ministro, Boris Johnson.

Brandon Lewis disse que "lamenta profundamente" deixar o executivo, frisando que "de um governo se espera honestidade, integridade e respeito mútuo".

Na terça-feira, recorde-se, dois nomes de peso decidiram bater com a porta. Os agora ex-ministros da Saúde britânico, Sajid Javid, e das Finanças, Rishi Sunak, apresentaram a demissão, dizendo já não poder confiar no primeiro-ministro, Boris Johnson.

Questionado na quarta-feira sobre se o Executivo iria sofrer com a falta de ministros e outros membros que se demitiram, Johnson respondeu que "há uma riqueza de talentos" na bancada parlamentar, de mais de 300 deputados.

Festas em Downing Street e escândalo sexual no caminho até à demissão

Esta crise política no Reino Unido foi causada pela admissão de Johnson de que cometeu um "erro" ao nomear Chris Pincher para o Governo em fevereiro como responsável pela disciplina parlamentar.

Pincher demitiu-se na semana passada após ter sido acusado de ter apalpado dois homens, uma polémica designada como o caso "Pinchergate".

Na terça-feira, depois de alegar o contrário, Downing Street reconheceu que o primeiro-ministro tinha sido informado já em 2019 de antigas acusações contra Pincher, mas que teria esquecido o assunto.

Horas depois, no final do dia, os ministros da Saúde, Sajid Javid, e das Finanças, Rishi Sunak, anunciaram a demissão com poucos minutos de intervalo, cansados dos repetidos escândalos que abalam o Governo há meses, seguidos por outros membros menos graduados da equipa governativa.

Consideravelmente enfraquecido pelo escândalo das "festas" em Downing Street durante a pandemia de covid-19 e uma série de escândalos sexuais no Partido Conservador, Boris Johnson sobreviveu a uma moção de censura interna no início de junho.

Com Lusa

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