Baguete francesa e rum cubano recebem estatuto de património cultural imaterial da UNESCO

A inscrição do rum cubano e da baguete francesa na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO representa um apelo aos respetivos governos para que cuidem e mantenham vivo este património ancestral.

A baguete francesa - "250 gramas de magia e perfeição", nas palavras do presidente Emmanuel Macron, e um dos símbolos permanentes de França - recebeu o estatuto de património da UNESCO esta quarta-feira. Também o rum cubano recebeu essa distinção durante um encontro em Rabat, Marrocos. A entrada nesta lista representa um apelo aos respetivos governos para que cuidem e mantenham vivo este património.

Os palitos de pão, com o seu exterior crocante e interior macio, têm permanecido uma parte essencial da vida francesa muito depois de outros estereótipos como boinas e cordões de alho caírem no esquecimento.

A agência da ONU concedeu o "estatuto de património cultural imaterial" à tradição de fazer a baguete e ao estilo de vida que a rodeia.

Mais de seis mil milhões de baguetes são feitas ​​todos os anos em França, de acordo com a Federação Nacional de Padarias Francesas - mas o estatuto da UNESCO vem num momento desafiador para a indústria.

A França tem vindo a perder cerca de 400 padarias artesanais por ano desde 1970, de 55.000 (uma para cada 790 habitantes) para 35.000 hoje (uma para cada 2.000).

O declínio deve-se à expansão das padarias industriais e supermercados de fora da cidade nas áreas rurais, enquanto os urbanos optam cada vez mais por outro tipo de pães e trocam as suas baguetes de presunto por hambúrgueres.

Ainda assim, continua a ser comum ver pessoas com alguns destes pães debaixo do braço, a mastigar ritualmente a ponta quente ao sair da padaria, ou "boulangerie".

Existem concursos nacionais, durante os quais as baguetes candidatas são cortadas ao meio para permitir que os juízes avaliem a regularidade da textura de favo de mel e a cor do interior, que deve ser creme.

Mas, apesar de ser um elemento aparentemente imortal na vida francesa, a baguete só ganhou oficialmente esse nome em 1920, quando uma nova lei especificou o seu peso mínimo (80 gramas) e comprimento máximo (40 centímetros).

"Inicialmente, a baguete era considerada um produto de luxo. A classe trabalhadora comia pães rústicos que se conservavam melhor", disse Loic Bienassis, do Instituto Europeu de História e Culturas da Alimentação, que ajudou a preparar o dossiê da UNESCO.

"Aí o consumo generalizou-se e o interior foi conquistado pelas baguetes nas décadas de 1960 e 1970", disse.

A sua história anterior é bastante incerta. Alguns dizem que pães longos já eram comuns no século 18; outros que foi necessária a introdução de fornos a vapor pelo padeiro austríaco August Zang na década de 1830 para que a sua encarnação moderna tomasse forma.

Um conto popular é que Napoleão ordenou que o pão fosse feito em palitos finos que pudessem ser mais facilmente carregados pelos soldados. Outro liga as baguetes à construção do metro de Paris no final do século 19 e à ideia de que as baguetes eram mais fáceis de rasgar e dividir, evitando discussões entre os trabalhadores e a necessidade de facas.

A França apresentou o seu pedido à UNESCO no início de 2021, com baguetes escolhidas sob os telhados de zinco de Paris e um festival de vinhos em Arbois.

"É um reconhecimento para a comunidade de padeiros artesanais e chefs de confeitaria", disse Dominique Anract, presidente da federação de padarias em comunicado. "A baguete é farinha, água, sal e fermento - e o savoir-faire do artesão."

Esta inscrição "celebra também toda uma cultura: um ritual quotidiano, um elemento que estrutura as refeições, um sinónimo de troca e convivência", reagiu a diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay.

Durante mais de 155 anos, oito gerações de mestres acumularam conhecimentos sobre a preparação do rum cubano, para transmiti-los oralmente e na prática diária aos seus aprendizes.

Este rum leve, com teor alcoólico de 40%, é obtido a partir do melaço de cana e é envelhecido em barris de madeira antes do consumo.

A geração que atualmente guarda esse conhecimento é composta por três primeiros mestres, sete mestres e quatro aspirantes. Esse seleto grupo é o repositório, guardião e transmissor do conhecimento originado com o boom agroindustrial açucareiro do século XIX.

"Para nós, mais do que orgulho, é o verdadeiro reconhecimento da tradição do rum cubano", disse por telefone à AFP o mestre Asbel Morales, 54 anos, ao saber da notícia.

O domínio masculino que prevaleceu por décadas neste mundo mudou com a presença de duas mestras e três outras aspirantes.

Cuba desenvolveu uma escola para mestres do rum concentrada no "Movimento dos Mestres do Rum Cubano", que participou da elaboração do dossiê apresentado à UNESCO.

Esta semana, a UNESCO registou outras duas tradições ancestrais latino-americanas.

Uma é o conhecimento ancestral dos indígenas colombianos que habitam o sistema montanhoso da Sierra Nevada de Santa Marta, um vasto território que vai do nível do mar até 5.770 metros de altitude no norte da Colômbia.

Esta região é habitada pelos povos autóctones Kogui, Arhuaco, Wiwa e Kankuamo, detentores de um conjunto de conhecimentos e tradições que é uma herança "transmitida aos nossos descendentes", explicou a UNESCO.

A cerâmica preta fabricada nos povoados chilenos de Quinchamalí e Santa Cruz de Cuca, cuja matéria-prima corre o risco de desaparecer devido à exploração florestal, também foi reconhecida pelo órgão da ONU.

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