"As sanções prometidas à Rússia não amedrontaram os seus dirigentes"

Entrevista ao major-general Carlos Branco, militar com vasta experiência em teatros de guerra, como a antiga Jugoslávia ou o Afeganistão, tendo neste último país sido porta-voz do comandante da força da NATO.

É só a dissuasão nuclear que impede uma guerra da NATO com a Rússia por causa da Ucrânia?
Deveria impedir, mas há quem acredite ser possível uma guerra convencional com a Rússia, mantendo-a apenas no quadro regional, sem recorrer ao patamar nuclear. Este raciocínio aplica-se também à China. Não deixa de ser estranho esta convicção, uma vez que a doutrina russa sobre essa matéria é clara. Em caso da impossibilidade de conter convencionalmente um inimigo, a Rússia recorrerá ao patamar nuclear tático. Uma vez nesta situação, é um passo para o patamar nuclear estratégico.

A resposta ocidental em termos de sanções arrisca ser tão dura que não faz a Rússia moderar-se, mas antes radicalizar-se?
Parece claro que as prometidas sanções à Rússia não amedrontaram os seus dirigentes. Estavam cientes do que ia ser a reação do Ocidente. O presidente Biden havia alertado, que iria transformar a Rússia num Estado pária. Tudo aquilo a que assistimos vai nesse sentido. A deriva é extremamente perigosa. Boicotar a RT e a Spunik,ou despedir o maestro Valery Sergiev são indicadores dos caminhos perigosos que aí vêm. Veremos qual será a resiliência da sociedade russa para resistir a este impacto, assim como a da atual elite dirigente. A meu ver não se trata de radicalização. Os EUA e a Europa não ouviram durante trinta anos as preces russas sobre o alargamento da NATO. Mais recentemente aderiram à Aliança o Montenegro e a Macedónia do Norte. Fizeram ouvidos de mercador às propostas russas de dezembro de 2021 sobre a não adesão da Ucrânia à NATO. Independentemente das anacrónicas considerações históricas feitas por Putin sobre o povo ucraniano, a situação na Ucrânia tornou-se insustentável para a Rússia. O Ocidente pisou a linha vermelha. Fingiu não perceber que a aliança da Ucrânia com a potência hostil era um problema existencial e securitário inultrapassável para a Rússia. A teimosia em não se considerarem as preocupações de segurança da Rússia conduziria à guerra. Não se sabia quando. Começamos agora a pagar o preço dessa arrogância.

A tensão deu nova vida à NATO, mas acabou também com a ideia de um pilar europeu de defesa não dependente dos Estados Unidos?
Concordo. Reforçou a viabilidade da NATO, com base na defesa coletiva. A Rússia veio substituir a União Soviética. Com estes desenvolvimentos, o ambicionado projeto de autonomia estratégica da União Europeia (UE) ficou seriamente abalado. Esta guerra veio agravar o papel de subalternidade da UE relativamente aos EUA. Esvaiu-se o sonho de a transformar num polo de poder autónomo com capacidade para participar na construção de uma ordem securitária, um pares inter pares dos restantes atores maiores da cena internacional, com capacidade para se defender e/ou deter agressões militares. Esta nova correlação de forças será espelhada no próximo conceito estratégico da NATO a ser aprovado este ano, na Cimeira de Madrid

A China pode ter uma palavra a dizer nesta crise internacional que ameaça também a economia mundial e logo a sua prosperidade?
Esta crise é, por enquanto, regional, tendo, naturalmente, repercussões globais. Uma Europa mais pobre e mais dependente dos EUA, com menor autonomia estratégica, poderá retirar fulgor ao projeto chinês de "uma Faixa, uma Rota".

Crê que haverá em termos globais um forte reforço dos orçamentos de defesa?
Na Europa seguramente. Não necessariamente no resto do mundo, uma vez tratar-se primariamente de uma crise europeia. O caso mais óbvio é o da Alemanha. O chanceler Scholtz anunciou um fundo especial de 100 mil milhões de Euros para reforçar a defesa alemã. Deixou de haver desculpas para os países europeus se furtarem a respeitar os 2% do PIB para a defesa. O grande beneficiado destes desenlaces será a indústria militar americana.

Como militar experiente, conhecedor de guerras como as da Jugoslávia ou do Afeganistão, como descreve estes primeiros dias de conflito no terreno?
Acima de tudo prevalece a falta de informação. O nevoeiro é intenso. Não se sabe exatamente até onde quer chegar Moscovo com esta operação militar. Sem se compreender isto, é difícil avaliar os desenvolvimentos no terreno. Tem sido atribuída à resistência oferecida pelas forças ucranianas a lentidão do avanço russo. Há, contudo, outras explicações para essa lentidão. Ao contrário do que aconteceu no Iraque com os americanos, os russos pretendem apoderar-se da Ucrânia intacta. Com o menor dano possível. Por isso, não se têm verificado grandes batalhas. Em vez disso, temos assistido apequenas escaramuças. Quando encontram resistência, as tropas russas procuram circundar o oponente. O que tem sido interpretado por analistas ocidentais como uma fraqueza. Até mesmo como falta de criatividade tática. A estratégia russa parece assentar em cercar as cidades e assim obter a sua capitulação. Isso é visível em Kiev, cidade que não estará ainda completamente cercada no presente momento (2 de março), onde os alimentos já são racionados e não há autorização para distribuir mais de 10 litros de combustível. As linhas de abastecimentos encontram-se interrompidas. Simultaneamente, são abertos corredores humanitários para permitir a saída de civis. A possibilidade de uma entrada em força, com preparação prévia de artilharia seria absolutamente inaceitável, e um erro grave.

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