As mulheres de Azov lembram-nos o falhanço internacional em Mariupol

Histórias de quem conseguiu deixar a cidade portuária e a fábrica de Azovstal, transformadas em símbolos da resistência ucraniana, e de quem em Zaporíjia esperava por notícias dos combatentes que continuam por lá. "A cada dia que passa a esperança e positividade deles está a apagar-se. Resta-nos um milagre."

No dia 3 de maio, 156 pessoas foram retiradas de Mariupol. Na verdade, de cidades e vilas ocupadas pelo exército russo na região da Zaporíjia e Donbass. Da metalúrgica Azovstal não terão vindo sequer 60 pessoas. "Escolhi vir porque tinha que escolher. Ou ficava com o meu marido lá ou salvava o meu filho Sviat de 6 meses. Ninguém imagina viver ali com um bebé. Nós vivemos lá dois meses", conta Anna, de 24 anos, acabada de chegar ao território ucraniano após 48 horas de viagem. Na prática a evacuação demorou três dias, pois só a saída da Azovstal demorou quase um dia. Anna está sorridente mas cansada. À saída do autocarro tinha o irmão à sua espera e uma amiga da universidade que ainda não conhecia o seu filho. A emoção foi colossal.

Neste mesmo local de reencontros, mulheres e crianças com familiares, amigos ou namorados dentro da Azovstal manifestavam-se com cartazes, bandeiras e cânticos. Pedem uma extração, semelhante à missão de Dunkirk, em que 330 mil soldados dos aliados foram salvos de praias no norte de França, cercadas por tropas alemãs, em plena II Guerra Mundial. Antes desta evacuação, sabia-se que estavam ainda em Azovstal cerca de 200 civis e 2000 militares. A operação parece extraordinariamente mais simples.

Saíram de Mariupol no dia 16 de março, no seu carro particular. "Já não tínhamos rede, soubemos por acaso que as pessoas estavam a sair. A minha casa já tinha sido destruída e estava na dos meus pais. Quando chegámos à nossa garagem para ir ao carro, já lá estavam os tanques russos. Estavam a bloquear-nos e não nos permitiam sair. Nós começámos a chorar e a implorar para nos deixarem sair porque tínhamos uma criança e ficámos sem casa. Eles pediram autorização a alguns superiores e depois deixaram-nos sair. Os soldados russos, quando nós passávamos pelos postos de controlo diziam-nos: "Vão... não se preocupem em Zaporíjia vai acontecer o mesmo". Finalmente quando chegámos ao posto de controlo ucraniano, passadas cinco horas, chorámos e abraçamos os soldados ucranianos", relembra Zhennya, a chorar agora também.

Nadya, de 18 anos, foi retirada da Azovstal no dia 3 maio. O seu nome significa "esperança" em ucraniano. "Éramos 30 pessoas no esconderijo. De modo geral estava tudo bem, porque connosco estavam os nossos militares. Tivemos sorte. Connosco não vieram nem doentes nem feridos, só os civis saudáveis. Eu vi uma mulher morrer à minha frente. Nesse momento deixei de ouvir e de ver, tinha pedras e pó nos meus olhos, porque a explosão aconteceu à minha frente. Um homem também ficou ferido", conta. "Fui para a Azovstal quando começaram a bombardear a cidade. Estávamos seguros lá até a um certo momento, depois começaram os ataques ao complexo industrial e nós já não conseguíamos sair."

Nadya explica que durante a evacuação estava um silêncio absoluto, mas que no exato momento em que saíram da cidade os disparos voltaram e os aviões recomeçaram a sobrevoar. "Do esconderijo fomos acompanhados pelos militares ucranianos, mas fora das fronteiras da fábrica por militares russos. Inicialmente, eles aproximavam-se, mas depois um militar foi ferido e tornou-se mais hostil porque deixaram de confiar", explica sobre a fuga da Azovstal, onde esteve dois meses.

Natalia, de 34 anos, tem o irmão de 26 anos a combater por Mariupol no batalhão de Azov. No dia da evacuação da Azovstal, veio ver se ele vinha, ou se alguém trazia notícias dele. Pergunto-lhe o que sabe do irmão. "As últimas mensagens são do seu colega a dizer que estava tudo bem. Mas nós sabemos que ele não está bem. Isto no final de abril. Neste momento os nossos comandantes estão a pedir a intervenção da comunidade internacional e do nosso governo para a retirada de todas as pessoas em segurança, civis, militares, e feridos. Hoje mesmo está a decorrer uma invasão da Azovstal. É agora que temos que retirar todas as pessoas, não quando forem cadáveres. As famílias dos militares não querem sair porque não os querem abandonar", relata Natália de um folêgo só, com os olhos rasos de água. E acrescenta: "Acho que o mundo todo tem agora provas que a relação entre o batalhão de Azov e o neonazismo é uma mentira russa. Em primeiro lugar eles estão a salvar mulheres e crianças. Em segundo, eles adoram o seu povo, o seu país, a sua nação, mas não querem invadir nem matar ninguém".

Sofiia tem 19 anos. Kiril é o seu namorado. É militar e está na Azovstal. "Grande parte das mulheres e namoradas não conseguiram falar com os seus homens por prolongados períodos de tempo, mas na sexta-feira, surgiu uma rara oportunidade de contactarem os familiares. Ele apareceu online e conseguiu escrever-me através da sua própria conta o que é raríssimo. A mensagem era "Eu estou vivo" . Eu perguntei se havia alguma esperança ("luz") neste processo todo. E ele respondeu que atualmente a melhor "luz" possível é o facto de eles estarem vivos", conta Sofiia com a voz a tremer. "Eu digo-lhe que é o meu herói e que eles vão conseguir ganhar e ultrapassar tudo e que isto tudo vai terminar em breve, que o amo muito e estou a sua espera em casa." Sofiia relembra que uma das suas mensagens, através de outro número, num tom de brincadeira dizia: "Quando voltar vou-me tornar num bêbado ou vou-me casar contigo!". Mas Sofiia teme que nenhuma das duas possa acontecer. "A cada dia que passa a esperança e positividade deles está a apagar-se. Resta-nos um milagre."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG