Após troca de acusações de genocídio, trégua entre israelitas e palestinianos

Os diplomatas levaram as hostilidades para as Nações Unidas pouco antes de Telavive e Hamas chegarem a acordo.

Mais um dia de guerra entre os grupos islamistas Hamas e Jihad Islâmica e Israel, e mais aumentava a perceção de que a hipótese sobre um fim das hostilidades para breve era cada vez mais provável. Assim o indiciava a marcação da reunião do gabinete de segurança de Israel, ontem ao fim do dia, bem como o anúncio de várias fontes sob anonimato a garantirem um cessar-fogo para as próximas horas. A novidade estaria relacionada com a fórmula: especialistas israelitas adiantavam que o calar das armas poderia resultar de uma decisão unilateral de Israel por não se chegar a acordo sobre os termos da trégua com o Hamas, o grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza.

Até que a atitude aparentemente desafiadora do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu em relação ao presidente dos EUA Joe Biden, que na véspera lhe pedira uma "desescalada significativa", terminou: o gabinete de segurança, onde se reúne o chefe do governo com os ministros e elementos das forças de segurança, decidiu por unanimidade aceitar a "iniciativa egípcia de um cessar-fogo mútuo sem quaisquer condições, que entrará em vigor a uma hora que será determinada posteriormente".

Deflagrações de bombas e de rockets atingiram Gaza e território israelita pelo 11.º dia, e a milhares de quilómetros, em Nova Iorque, o ministro dos Negócios Estrangeiros palestiniano e o embaixador de Israel levaram o ambiente explosivo para a assembleia geral das Nações Unidas, aparentemente alheios aos desenvolvimentos diplomáticos noutras latitudes. Ali trocaram acusações recíprocas de "genocídio" durante um debate especial sobre o conflito israelo-palestiniano.

232 Os ataques do exército israelita a Gaza causaram 232 mortos, dos quais 65 crianças, e 120 mil deslocados.

As declarações de Riad al-Malki tiveram o condão de levar o embaixador Gilad Erdan a retirar-se momentaneamente. "O mundo inteiro permanece em silêncio e faz vista grossa ao genocídio de famílias palestinianas inteiras", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros palestiniano. "Como pode uma potência ocupante ter o direito de se defender quando um povo inteiro sob ocupação é privado dos mesmos direitos", questionou al-Malki a propósito de Telavive alegar o direito a defender-se. "Vamos parar com este massacre", concluiu.

60 Às críticas sobre a inviabilização na ONU de uma declaração a exigir o fim das hostilidades, os EUA disseram ter realizado mais de 60 iniciativas diplomáticas.

O embaixador israelita nos Estados Unidos e na ONU também usou a cartada do genocídio, mas acrescentou o programa nacional-socialista ao compará-lo com o do Hamas. "Tal como o dos nazis, está comprometido com o genocídio do povo judeu", e antes como agora, o mundo olha para a ameaça com indiferença. Erdan acusou ainda os defensores do Hamas de tentarem criar "uma falsa equivalência moral", quando Telavive "faz todos os esforços para evitar vítimas civis", em contraste com o Hamas, que "faz todos os esforços para aumentar o número de vítimas civis".

A este propósito o Jerusalem Post explicou a técnica do exército israelita em avisar os habitantes da área a bombardear com uma hora de antecedência, seja através de um telefonema, seja através do envio de um míssil sem munição. No entanto, a técnica nem sempre é utilizada. "O que nós fizemos para sermos bombardeados, sem nenhum alerta, sem que nos pedissem para nos retirarmos?", pergunta à AFP Mohamad al-Hadidi , que perdeu a mulher e quatro dos cinco filhos no sábado.

Inferno na Terra

"Se existe um inferno na Terra, são as vidas das crianças em Gaza", lamentou o secretário-geral da ONU, António Guterres, que antes do anúncio do cessar-fogo considerava "inaceitável" o "contínuo bombardeio aéreo e de artilharia pelas Forças de Defesa de Israel", bem como o "contínuo lançamento indiscriminado de foguetes pelo Hamas e outros grupos militantes em centros populacionais de Israel".

4070 Os islamistas lançaram até ontem 4070 rockets em direção a Israel, matando 12 pessoas. Só entre as 7.00 e as 18.00 de ontem foram 299, dos quais 42 caíram em Gaza.

Rockets do Hamas e da Jihad Islâmica mataram 12 pessoas em Israel, incluindo uma criança e cidadãos árabes, além de um indiano e dois trabalhadores tailandeses. Já os ataques israelitas a Gaza mataram 232 palestinianos, incluindo 65 crianças, feriram mais de 1900 pessoas e obrigaram à deslocação de 120 mil no sobrelotado território de 2 milhões de habitantes, segundo as autoridades da Faixa de Gaza.

Para alguns israelitas, o cessar-fogo acontece demasiado cedo. Numa análise do jornalista Amos Harel, publicada quinta-feira no Haaretz, Netanyahu tinha motivos válidos para continuar a ignorar os apelos internacionais, de Biden incluído. Em primeiro lugar porque a campanha militar contra o Hamas "produziu até à data resultados limitados, sem uma conclusão decisiva a favor de Israel", pelo que "fica a sensação de que, mais uma vez, Netanyahu não conseguiu cumprir integralmente a promessa que fez", sendo potencial alvo de críticas à direita e abrindo uma brecha para que o líder da oposição Yair Lapid consiga construir um governo de coligação até 2 de junho.

cesar.avo@dn.pt

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