Trump tinha material 'top secret' em casa. Buscas galvanizam republicanos

Procurador-geral pediu ao juiz para tornar público o mandado que levou os agentes do FBI a Mar-a-Lago, com o ex-presidente a "encorajar" que isso fosse feito, reiterando que buscas foram "injustificadas". Terão sido levadas 20 caixas com informação, incluindo material secreto.

Susana Salvador
Trump no dia em que foi ouvido pela procuradora de Nova Iorque.© STRINGER / AFP

O FBI encontrou documentos marcados como "top secret" durante as buscas de segunda-feira à casa do ex-presidente Donald Trump, tendo levado um total de 20 caixas de informação de Mar-a-Lago. A informação foi avançada pelo The Wall Street Journal, com base na lista de material que acompanha o mandado de busca que se esperava fosse tornado público esta sexta-feira. Trump reagiu de imediato, alegando que tudo já estava desclassificado. Em guerra contra o FBI e o Departamento de Justiça, que acusa de ser politizado e empreender uma "caça às bruxas", Trump conseguiu galvanizar os republicanos e mudar a narrativa negativa dos últimos meses.

O ex-presidente reagiu de imediato na sua rede social, a Truth Social. "Em primeiro lugar, estava tudo desclassificado. Em segundo, não tinham que "apreender" nada", escreveu, alegando que podiam ter tido acesso a tudo "sem fazer política ou forçar a entrada em Mar-a-Lago". Só tinham que pedir, alegou, apesar de, por lei, todo o material ter que ser entregue aos Arquivos Nacionais, que tinham pedido no início do ano para que devolvesse todo o material. Trump questionou ainda o que foi feito dos 33 milhões de documentos que o seu antecessor, Barack Obama, teria levado para Chicago, com os Arquivos a responder que está na posse de todos, como prevê a lei.

Além dos documentos classificados, havia material referente ao perdão de Roger Stone, um aliado de Trump condenado por obstrução de Justiça, e um dossier sobre o presidente francês, Emmanuel Macron. Não há referência a material sobre armas nucleares, que o The Washington Post dizia ter levado a emitir o mandado - Trump tinha dito que isso era "uma farsa".

De acordo com o The New York Times, os agentes executaram o mandado para investigar potenciais crimes relacionados com a violação da Lei de Espionagem, que proíbe a retenção sem autorização de informações de segurança nacional que podem prejudicar os EUA ou ajudar os adversários; uma lei federal que criminaliza a destruição ou ocultação de documentos para obstruir uma investigação governamental; e outra lei que se prende com a remoção ilegal de material governamental.

Segundo o The Wall Street Journal, o mandado dava aos agentes margem de manobra para procurar material que estaria a ser armazenado indevidamente em Mar-a-Lago, incluindo acesso ao escritório do ex-presidente e "todas as zonas de armazenamento e todos os quartos ou áreas" que pudessem ser usados para guardar documentos. Trump queixou-se que os agentes "reviraram os armários da primeira-dama e vasculharam as suas roupas e itens pessoais".

Impacto das buscas

"Durante um bom período, parecia que o movimento de Trump estava a perder mais terreno do que a ganhar", disse o vice-governador da Georgia, Geoff Duncan, um dos republicanos que tem defendido que o partido deve virar a página ao ex-presidente. Mas agora, acrescentou à agência AP, Trump está a beneficiar de "ventos favoráveis incrivelmente rápidos".

As audiências públicas da comissão da Câmara dos Representantes que investiga a invasão do Congresso pareciam estar a prejudicar o ex-presidente. Isto porque o inquérito aponta para que os eventos de 6 de janeiro de 2021 tenham sido planeados, instigados por Trump, e não fruto do momento.

Para se perceber o poder que o ex-presidente ainda tem entre os apoiantes basta ver o que aconteceu após as buscas. Na quinta-feira, um homem armado foi morto depois de tentar entrar nos escritórios do FBI em Cincinnati, no Ohio, com os media norte-americanos a revelar que teria lançado um "apelo às armas". Ricky Schiffer, de 42 anos, escreveu na Truth Social que queria "guerra" e convidava os "patriotas" a matar agentes federais, por causa das buscas a Mar-a-Lago.

Para recuperar o controlo da narrativa após as audiências públicas, o ex-presidente estaria a pensar lançar já este verão a candidatura às eleições de 2024, muito antes do esperado. Segundo a Reuters, os conselheiros de Joe Biden estão também a pressionar o presidente para que anuncie que é candidato à reeleição - eventualmente após as intercalares de novembro.

Apesar de estar a cair nas sondagens, Trump ainda é o candidato favorito para 49% dos eleitores republicanos. Além disso, vários dos candidatos que tem apoiado para as eleições intercalares de novembro estão a sair-se bem nas primárias republicanas: no total, desde maio, cerca de 180 ganharam e menos de 20 perderam.

As buscas na casa de Trump, inéditas para qualquer ex-presidente, serviram para este galvanizar os republicanos. Além dos seus eternos apoiantes, vários nomes dentro do partido - inclusive eventuais adversários nas primárias republicanas para 2024 - vieram criticar a operação do FBI e a politização do Departamento de Justiça. O líder da minoria na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, ameaçou o procurador-geral, Merrick Garland, com uma investigação no Congresso, assim que os republicanos recuperarem a maioria. Contudo, esse apoio poderia mudar caso se confirmasse que Trump teria em Mar-a-Lago informações confidenciais sobre armas nucleares.

"Pagar para ver"

Quebrando o silêncio três dias depois das buscas, Garland revelou que ele próprio aprovou a decisão de pedir o mandado de busca à casa de Trump. Sem revelar as razões por detrás de tal decisão, condenou os "ataques infundados" ao FBI e ao Departamento de Justiça. Além disso, indicou que "obrigações éticas" impediam-no de dar mais detalhes, tendo contudo pedido a um juiz da Florida para tornar público o mandado. Isto porque Trump já tinha tornado públicas as buscas e havia "interesse público substancial nesta matéria".

Para alguns analistas, Garland estava a "pagar para ver", depois do bluff de Trump, que tem reiterado que as buscas foram politicamente motivadas. Desta forma, deixava nas mãos do ex-presidente a decisão de aprovar ou bloquear a sua divulgação. Trump disse na Truth Social que não só não se opunha à divulgação do documento, como "encorajava", reiterando que as buscas foram "antiamericanas, injustificadas e desnecessárias".

A parte potencialmente mais comprometedora do mandado, o documento que inclui as provas para a existência de "causa provável" para ordenar a busca, não será contudo revelado.

susana.f.salvador@dn.pt