Testemunho de ex-assessora de Trump sobre assalto ao Capitólio é "obituário político"

"Bombástico", devastador". É como alguns analistas estão a classificar a descrição dos factos feitos por Cassidy Hutchinson.

DN
Cassidy Hutchinson.© EPA/MICHAEL REYNOLDS

O testemunho sob juramento da ex-assessora da Casa Branca Cassidy Hutchinson, em Washington, está a ser caracterizado por analistas e comentadores políticos como "bombástico", devastador" e um "obituário político" para Donald Trump.

A possibilidade de que o Departamento de Justiça venha a expandir a investigação criminal ao 6 de janeiro a Donald Trump tem agora mais fundamento, consideraram vários especialistas legais.

"Ainda há muita incerteza sobre a questão de intenção criminal quando se trata de um presidente, mas o que aconteceu mudou a minha linha de fundo", disse ao New York Times Alan Rozenshtein, ex-oficial do Departamento de Justiça. "Deixei de achar que era pouco provável Trump ser acusado e passei a achar que é agora mais provável".

O analista legal Renato Mariotti disse ao jornal que "isto realmente fez avançar a bola", enquanto o ex procurador-geral de Trump, Bill Barr, considerou que a audiência "definitivamente deu muito que mastigar aos investigadores".

Hutchinson testemunhou na sexta audiência da comissão parlamentar que investiga o assalto ao Capitólio, marcada de forma inesperada com menos de 24 horas de antecedência.

A ex-assessora do chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows, fez revelações minuciosas sobre as ações do presidente Donald Trump no dia da insurreição, alegando que ele sabia que os manifestantes estavam armados, teve uma altercação física com o condutor do carro presidencial porque queria ir para o Capitólio, e esteve horas sem se pronunciar porque não achava que devia condenar a violência.

No Washington Post, o ex-advogado sénior do Departamento de Justiça David Laufman disse que o testemunho de Hutchinson "conteve pedaços credíveis de informação" que podem suportar a investigação criminal do Departamento de Justiça.

"Esta testemunha ofereceu testemunho credível sob juramento, atribuindo ao presidente conhecimento antecipado da violência iminente", afirmou Laufman. "O que está por saber é se o departamento vai concluir que consegue provar, para lá da dúvida razoável, que Trump participou numa conspiração", advertiu. "Porque a fasquia que permite satisfazer esse standard é extraordinariamente elevada para os procuradores e líderes do departamento".

O ex-procurador federal Chuck Rosenberg disse na emissão da MSNBC que um dos aspetos marcantes do testemunho foi a informação de que o chefe de gabinete disse a Trump que os manifestantes levavam todo o tipo de armas, armaduras corporais e capacetes.

"O presidente compreendeu que eles não estavam lá para o atacar. A questão em aberto é, então, quem é que ele achava que eles queriam atacar?", questionou Rosenberg. "Porque foi ele que os exortou a irem para o Capitólio, sabendo as armas que levavam consigo".

Além das ramificações legais, as reações estão a debruçar-se sobre as consequências políticas.

"O que aconteceu pode significar que a comissão parlamentar do 6 de janeiro escreveu o obituário político de Donald Trump", disse o jornalista Bob Woodward, que em 1973 revelou o escândalo Watergate que levou à demissão de Richard Nixon.

"É esse nível de devastador", considerou o jornalista, que falava na CNN. "O retrato que foi apresentado do presidente a saltar do banco de trás para tentar agarrar o volante", continuou, é algo que os republicanos não vão querer apoiar.

Do lado de aliados e ex-funcionários ligados a Trump, o testemunho foi visto como "bombástico", "impressionante" e "chocante".

"Isto pinta um retrato de Trump completamente desequilibrado e a perder o controlo", disse um ex-conselheiro do presidente à CNN. "Pela primeira vez desde que as audiências começaram, ninguém está a desvalorizar isto".