Putin rejeita conversações porque EUA não reconhecem anexações

Só o norte-coreano Kim Jong-un reconheceu a intenção de Moscovo anexar as regiões ucranianas, mas para o Kremlin a posição de Washington é que "complica" a hipótese negocial.

César Avó
Líder russo, em telefonema com Olaf Scholz, disse que o apoio do Ocidente a Kiev é uma "política destrutiva".© Mikhail METZEL / SPUTNIK / AFP

A visita de Estado do presidente francês aos Estados Unidos trouxe dois momentos fora do guião. Sem mostrar arrependimento - "os Estados Unidos não fazem qualquer pedido de desculpas" - , Joe Biden fez uma concessão a Emmanuel Macron e comprometeu-se a que legislação recém-aprovada para estimular as indústrias "verdes" seja revista, uma vez que os incentivos fiscais estão condicionados à produção doméstica.

Também na conferência de imprensa de ambos os líderes, o norte-americano disse estar disponível a reunir-se com Vladimir Putin, desde que este mostre interesse em acabar com a guerra na Ucrânia. Num caso como noutro, todavia, as boas intenções de Biden podem não passar daí. O democrata Ron Wyden, senador responsável pela comissão das Finanças e um dos responsáveis pela legislação debaixo de fogo francês, disse logo que não está interessado em remexer na lei. E o Kremlin rejeitou de forma liminar o cenário proposto pelo presidente dos Estados Unidos.

A presidência russa alegou dois motivos para as conversações entre Putin e Biden não se realizarem. Em primeiro lugar, porque o norte-americano afirmou: "Há uma forma de esta guerra acabar de forma racional: Putin retirar da Ucrânia". Para o porta-voz Dmitri Peskov, "evidentemente" que Moscovo não vai aceitar esta condição.

O segundo motivo prende-se também com os territórios ocupados e os que a Rússia pretende capturar. Peskov disse que o líder russo estava disponível para conversações com o objetivo de assegurar os interesses da Rússia, mas acrescentou que a posição de Washington "complica" quaisquer possíveis conversações. "Os Estados Unidos não reconhecem novos territórios como parte da Federação Russa", disse Peskov, referindo-se às regiões ucranianas que o Kremlin afirma ter anexado.

A posição é a mesma de quase todo o mundo, exceto a Coreia do Norte, em resultado de pretensos referendos em quatro regiões parcialmente ocupadas da Ucrânia. "Isso complica a procura de bases para a realização de discussões mútuas", afirmou o porta-voz, que lembrou as tentativas "infrutíferas" de conversações com a NATO, a OSCE e os Estados Unidos, sob iniciativa de Putin, antes da invasão de 24 de fevereiro. Conclusão do Kremlin: "A operação militar especial continua."

A rejeição das conversações com Washington sucedeu no mesmo dia em que Putin tentou convencer o chanceler Olaf Scholz das suas ações e criticou a Alemanha e o Ocidente pela "política destrutiva" ao fornecerem armas e formação às tropas ucranianas. Segundo Putin, a "política destrutiva" significa que o apoio financeiro e militar do Ocidente "leva ao facto de Kiev ter descartado a ideia de quaisquer negociações". A Ucrânia tem dito que só há negociações depois de uma retirada das tropas russas.

Um dia depois de o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, ter defendido os ataques às infraestruturas de energia da Ucrânia, tendo alegado que as centrais elétricas ajudam a "matar russos", foi a vez de Putin justificar a estratégia, mas agora com o argumento de que é uma resposta "inevitável" depois das "provocações" da Ucrânia, leia-se o ataque à ponte de Kerch, que liga a Rússia à península da Crimeia. Do outro lado da linha, Scholz pediu a Putin para retirar as tropas da Ucrânia para que então surja "uma solução diplomática o quanto antes".

Noutro tipo de guerra, as representações diplomáticas ucranianas continuam a receber pacotes suspeitos. Depois de um pacote armadilhado ter deflagrado na embaixada da Ucrânia em Madrid e cinco outros terem sido neutralizados em Espanha (um dos quais com o primeiro-ministro Pedro Sánchez como destinatário), agora a mesma embaixada recebeu um sobrescrito com sangue e olhos de animais. Situação análoga verificou-se nas embaixadas em Budapeste, Haia, Praga, Roma e Varsóvia, e nos consulados em Brno, Cracóvia e Nápoles, no que o chefe da diplomacia ucraniano, Dmytro Kuleba, apelidou de "bem orquestrada campanha de terror e intimidação".

Diretor da AIEA esperançoso

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, mostrou-se confiante num acordo próximo com Moscovo e Kiev para a criação de uma zona de segurança à volta da central nuclear de Zaporíjia, em Enerhodar.

Em entrevista ao La Repubblica, o argentino mostrou-se disposto a reunir com os líderes da Ucrânia e da Rússia, que ocupou a central em março para "chegar a uma solução o mais depressa possível", tendo apontado para o final do ano. "O nosso objetivo é evitar um acidente nuclear, e não criar uma situação que favoreça um dos lados", afirmou ainda ao jornal italiano.

cesar.avo@dn.pt