PR do Afeganistão: 10 mil combatentes estrangeiros lutam ao lado dos talibãs

"São os estrangeiros que continuam a matar os afegãos", afirmou Ashraf Ghani, referindo mercenários e membros de grupos extremistas que terão entrado no país. Não espeficou, no entanto, se tal aconteceu antes ou depois da retirada das tropas americanas do território.

DN/Lusa
O presidente do Afganistão, Ashraf Ghani© EPA/Pete Marovich

O Presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, denunciou esta quarta-feira que cerca de 10 mil combatentes estrangeiros, incluindo mercenários e membros de grupos extremistas, entraram no país e estão a lutar ao lado dos talibãs.

Estes combatentes, segundo o chefe de Estado afegão, são membros de redes radicais, de movimentos terroristas transnacionais e de organizações criminosas.

"Estão totalmente mobilizados no apoio aos seus aliados talibãs" no Afeganistão, prosseguiu Ashraf Ghani, mencionando, de forma específica, grupos extremistas paquistaneses.

"São os estrangeiros que continuam a matar os afegãos. Pelo menos 10 mil membros desses grupos, assim como de outros, entraram no nosso país e deram a si próprios o direito de matar os nossos civis inocentes e de provocar distúrbios", acrescentou o governante afegão, durante uma reunião que contou com a presença de vários representantes, incluindo elementos internacionais.

Na mesma reunião, Ashraf Ghani referiu-se ao movimento talibã como "um dos movimentos insurgentes mais ricos do mundo", com ligações à produção e ao tráfico de droga.

"Por favor, compreendam que continua a ser uma guerra de redes criminosas e terroristas, e se perdermos essa dimensão e a reduzirmos a uma guerra entre afegãos, estaremos a perder o panorama geral", alertou o Presidente.

E reforçou: "Os talibãs e os aliados estão comprometidos com uma guerra total e estão determinados a impor-se aos afegãos".

Desde o início da retirada final das tropas estrangeiras (dos Estados Unidos e da NATO) do território afegão em maio último, e após quase 20 anos de permanência, os talibãs intensificaram as ofensivas em todo o país e conseguiram assumir o controlo de vastas áreas.

Cerca de 125 centros distritais em todo o país e várias passagens fronteiriças estão sob controlo talibã.

Para tentar conter o avanço dos talibãs, o Governo afegão está a trabalhar numa estratégia militar que, segundo Cabul, pretende recuperar território e, ao mesmo tempo, promover a estabilização do país.

"O objetivo da nossa estratégia militar é a estabilização, porque acreditamos firmemente que uma conquista militar não é a solução. Um acordo político é a solução duradoura", garantiu Ashraf Ghani.

"Aqueles que rejeitam a paz devem ser confrontados com uma plena determinação (...), o nosso país está determinado em defender as conquistas dos últimos 20 anos", frisou o governante, argumentando que os talibãs estão a lutar por um "poder monopolista", e não pelo Islão.

O negociador-chefe do Afeganistão, Abdullah Abdullah, que também é o presidente do Conselho Superior de Reconciliação Nacional, reconheceu, na mesma reunião, que o processo de paz "não está a avançar tão rápido" quanto Cabul desejava.

"No início da negociação tinha grandes esperanças", admitiu Abdullah Abdullah, afirmando, no entanto, que os talibãs não têm mostrado flexibilidade na mesa de negociações.

Também presente na reunião, Deborah Lyons, representante especial das Nações Unidas no Afeganistão, defendeu que as negociações de paz entre as autoridades afegãs e os talibãs "devem começar com seriedade e com sinceridade".

"Sem progressos na mesa de negociações, ao mesmo tempo que ocorrem violações dos direitos humanos, a comunidade internacional não verá os talibãs como um parceiro viável", afirmou a representante.

Ainda neste mesmo dia, o secretário de Estado norte-americano, ​​​​​​​Antohny Blinken, avisou, em declarações na Índia, que os talibãs não terão apoio internacional se continuarem a insistir na violência, tendo defendido a via das negociações de paz para terminar o conflito no Afeganistão.