Nova corrida aos mísseis na península coreana 

Pyongyang testa mísseis e Seul responde na mesma moeda. Chamada de atenção de Kim Jong-un é condenada por Washington, que no entanto diz querer voltar ao diálogo.

César Avó
A Coreia do Sul iniciou uma política de desenvolvimento de capacidades militares próprias.© EPA/MINISTÉRIO DA DEFESA DA COREIA DO SUL

As duas Coreias fizeram testes de mísseis com poucas horas de diferença, voltando a pôr a península no centro das atenções geopolíticas. Japão e Estados Unidos condenaram as ações de Pyongyang, enquanto o regime comunista respondeu pela irmã de Kim Jong-un às críticas do presidente sul-coreano.

As chefias militares sul-coreanas disseram que os mísseis balísticos do vizinho foram lançados do centro da Coreia do Norte e percorreram cerca de 800 quilómetros, informação complementada pela guarda costeira do Japão, ao afirmar que os mísseis aterraram nas águas entre o Japão e a península coreana.

1500 quilómetros. O míssil norte-coreano lançado na segunda-feira pode atingir o Japão ou instalações militares dos EUA naquele país. Peritos dizem que tem capacidade de ser invisível aos radares.

Os disparos de quarta-feira à tarde ocorreram dois dias após a Coreia do Norte ter testado um míssil desenvolvido recentemente, e descrito pelo regime como uma "arma estratégica de grande significado". Para os analistas isso quererá dizer que o míssil terá capacidade para transportar ogivas nucleares. Segundo os relatos norte-coreanos, o míssil voou cerca de 1500 quilómetros, o que coloca ao alcance as instalações militares japonesas e norte-americanas.

Horas depois do teste do Norte, a Coreia do Sul anunciou que o seu presidente, Moon Jae-in, tinha acabado de assistir ao teste do primeiro míssil balístico lançado por submarinos (SLBM na sigla inglesa), fazendo da Coreia do Sul o sétimo país do mundo a operar essa tecnologia, junto dos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Índia. A Coreia do Norte afirma ter desenvolvido um SLBM, mas os militares do Sul rejeitam essa alegação. Dizem que o Norte lançou mísseis balísticos de uma embarcação, e não de um submarino, segundo a agência sul-coreana Yonhap.

Além disso, Seul tem outras armas em desenvolvimento, caso de um míssil de cruzeiro supersónico, e um míssil de longo alcance a ser utilizado num novo avião a jato (KF-21 Boramae).

40 mil milhões. O Ministério da Defesa da Coreia do Sul propõe um orçamento de 40 mil milhões de euros para 2022, um aumento de 4,5% face a 2021.

Moon Jae-in disse que as novas capacidades militares são um dissuasor contra as "provocações" de Pyongyang, o que levou o Norte a responder à "calúnia". Disse Kim Yo Jong, a irmã do ditador: "Uma atitude ilógica de Seul que descreve o seu comportamento semelhante como uma ação legítima de apoio à paz, e o nosso como uma ameaça à paz."

O presidente sul-coreano Moon Jae-in à conversa com o capitão do submarino que lançou o míssil balístico.© EPA/CHEONG WA DAE

Com estes testes, Pyongyang retoma, seis meses depois, os testes de armamento. Em março interrompera uma pausa de um ano ao disparar dois mísseis balísticos de curto alcance para o mar, mantendo a tradição de testar os novos presidentes dos Estados Unidos com demonstrações de força.

Na terça-feira o enviado especial dos Estados Unidos à Coreia do Norte, Sung Kim, em visita a Tóquio, exortou os norte-coreanos a retomarem as conversações de desarmamento nuclear, abandonadas em 2019 depois de três encontros entre Donald Trump e Kim Jong-un, e disse que os Estados Unidos não tinham qualquer intenção "hostil" em relação a Pyongyang. Porém, mostrou não haver um milímetro de avanço ou recuo na linha de Washington, ao reiterar que os EUA não vão levantar as sanções previamente.

EUA oferecem diálogo

Na quarta-feira coube a um porta-voz do Departamento do Estado reagir aos mais recentes acontecimentos. À esperada condenação, porque o "lançamento constitui uma violação de múltiplas resoluções do Conselho de Segurança da ONU e representa uma ameaça para os vizinhos", juntou-se uma mensagem positiva: "Continuamos empenhados numa abordagem diplomática à República Popular Democrática da Coreia e apelamos para o seu empenhamento no diálogo."

Para Bong Young-shik, investigador do Instituto de Estudos Norte-Coreanos da Universidade Yonsei, em Seul, ouvido pela Voice of America, "a Coreia do Norte manifesta o seu descontentamento em relação à administração Biden, que se manteve numa política passiva em relação à Coreia do Norte, em nome de uma política cautelosa e colaborativa da Coreia do Norte".

Já o primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga qualificou o lançamento de mísseis norte-coreanos de "ultrajante" e uma ameaça à paz. O momento escolhido por Pyongyang para os testes coincidiu ainda com a visita do ministro dos Negócios Estrangeiros da China à Coreia do Sul. Sendo Pequim o seu grande aliado a iniciativa surpreendeu os observadores. Para o perito Lee Byong-chul, do Instituto de Estudos do Extremo Oriente, em Seul, o timing pareceu "expressar descontentamento com Pequim" por não estar a prestar assistência económica suficiente durante a pandemia, comentou ao New York Times.

cesar.avo@dn.pt