Morreu o jornalista Max Stahl, que filmou o massacre de Santa Cruz

Estava na Austrália e lutava contra doença prolongada.

DN/Lusa
Max Stahl em 2019© Jorge Amaral/Global Imagens

O jornalista britânico e timorense Max Stahl, que filmou o massacre de Santa Cruz, em Díli, em novembro de 1991, morreu esta quarta-feira num hospital da cidade australiana de Brisbane, vítima de doença prolongada, confirmou à Lusa fonte familiar.

Condecorado com o Colar da Ordem da Liberdade, o mais alto galardão que pode ser dado a um cidadão pelo Estado timorense, Max Stahl viu-lhe atribuída a nacionalidade timorense.

Christopher Wenner, que começou a ser conhecido como Max Stahl, iniciou a sua ligação a Timor-Leste a 30 de agosto de 1991 quando, "disfarçado de turista", entrou no território para filmar um documentário para uma televisão independente inglesa.

Entrevistou vários líderes da resistência e, depois de sair por causa do visto, acabou por regressar, entrando por terra, acabando, a 12 de novembro desse ano por filmar o massacre de Santa Cruz.

Max Stahl estava na Austrália há algum tempo, para onde teve que viajar para tratamentos médicos.

Ingrid Brucens, mulher de Max Stahl e que estava com os três filhos do jornalista em Brisbane, anunciou a morte aos amigos.

"O rei está morto. Com imensa tristeza, escrevo para informar que Max faleceu esta manhã por volta das 04h30", escreveu em mensagens a amigos

Quase 30 anos após o massacre

Max Stahl morreu praticamente 30 anos depois de recolher as imagens do massacre, no cemitério de Santa Cruz, em Díli, Timor-Leste, que contribuiriam para mudar para sempre o percurso da luta pela independência do país.

Por coincidência, faleceu no mesmo dia em que morreu, em 1991, Sebastião Gomes, o jovem que foi a enterrar em Santa Cruz e cuja morte suscitou o protesto que acabaria por terminar no agora conhecido Massacre de Santa Cruz.

Mais de duas mil pessoas tinham-se dirigido a Santa Cruz para prestar homenagem a Sebastião Gomes, morto por elementos ligados às forças indonésias no bairro de Motael.

A ação dos militares indonésios foi filmada por Max Stahl e a atenção internacional sobre Timor-Leste mudou para sempre.

No cemitério, os militares indonésios abriram fogo sobre a multidão e provocaram a morte de 74 pessoas no local. Nos dias seguintes, mais de 120 jovens morreram no hospital ou em resultado da perseguição das forças ocupantes.

A maioria dos corpos nunca foram recuperados.

Timor lamenta morte do jornalista

A notícia da morte de Max Stahl, hoje num hospital em Brisbane, tornou-se rapidamente o assunto mais comentado nas redes sociais em Timor-Leste, suscitando condolências de vários responsáveis e de personalidades ligadas à causa da luta pela independência.

Em declarações à Lusa, o ex-Presidente da República timorense, José Ramos-Horta, considerou a morte de Max Stahl é uma "grande perda" para Timor-Leste e para o mundo, e que vai causar "profunda consternação e dor" em toda a população timorense.

"Que grande perda para todos nós, para Timor-Leste, para o mundo. Alguém como o Max, de um grande coração, de uma grande dedicação e amor a Timor-Leste (...), ser levado para outro mundo", afirmou à Lusa.

O Governo timorense manifestou "profundo pesar" pela morte do jornalista e documentalista Max Stahl, saudando o seu "importante contributo para a autodeterminação do povo timorense".

Em comunicado, o Governo destaca em particular as filmagens que efetuou há cerca de 30 anos do massacre de 12 de novembro de 1991 no cemitério de Santa Cruz em Díli, que "permitiram chamar a atenção para a situação que o país vivia, e colocar Timor-Leste no topo da agenda internacional".

"O seu profissionalismo e a sua extrema coragem deram um impulso fundamental à frente diplomática, catapultando Timor-Leste para as primeiras páginas dos meios de comunicação mundiais, depois de vários anos em que a situação timorense permanecia adormecida para a comunidade internacional", referiu o Governo.

O ex-Presidente de Timor-Leste Xanana Gusmão também lamentou a morte do jornalista, lembrando que o seu trabalho "mudou o destino da nação".

Numa carta enviada à viúva, na qualidade de negociador principal para a delimitação das fronteiras marítimas de Timor-Leste, Xanana Gusmão sublinhou o facto de as filmagens de Stahl do massacre de Santa Cruz terem "exposto a repressão e brutalidade da ocupação indonésia", bem como todo o trabalho de arquivo sobre a História do país efetuado posteriormente, considerando-o um legado para a nação timorense.

"Poucas pessoas conseguiram dar um contributo tão significativo para a nação", salientou, afirmando que o jornalista e documentalista era "amado pelos timorenses" e que o país "está de luto".

Milhares de horas de vídeo

Nascido a 06 de dezembro de 1954 no Reino Unido e cidadão timorense desde 2019, o jornalista e documentalista Christopher Wenner, mais conhecido como Max Stahl, começou a sua ligação ao país em 1991 quando conseguiu entrar em Timor-Leste pela primeira vez.

A 12 de novembro, escondido entre as campas do cemitério de Santa Cruz, filma um dos muitos massacres ocorridos durante a ocupação indonésia do país, com as imagens a correrem mundo e a mudar para sempre a história do país.

Condecorado com o Colar da Ordem de Timor-Leste, a mais alta condecoração dada a cidadãos estrangeiros no país, com o Prémio Rory Peck e vários outros galardões, Max Stahl deixa como legado um dos principais arquivos de imagens dos últimos anos da ocupação indonésia do país e do período imediatamente antes e depois do referendo de independência.

O Centro Audiovisual Max Stahl em Timor-Lete (CAMSTL) contém milhares de horas de vídeo incluindo entrevistas alargadas com os principais atores da luta timorense pela independência.

O arquivo foi considerado pela UNESCO como Registo da Memória do Mundo e tem vindo a ser objeto de um trabalho de preservação e divulgação, para fins de ensino e investigação acerca da história de Timor, no âmbito de protocolo de cooperação estabelecido entre a Universidade de Coimbra, a Universidade Nacional de Timor-Leste e o CAMSTL.

Descendente de uma família de diplomatas, repórter de guerra -- chegou a ser ferido nos Balcãs -- Max estudou literatura na Universidade de Oxford e era um poliglota, dominando várias línguas, incluindo as duas oficiais de Timor-Leste, o português e o tétum.

Começou a sua carreira a escrever para o teatro e para programas infantis de televisão e encontrou a sua vocação de repórter de guerra quando vivia com a família -- o pai era embaixador -- em El Salvador, de onde enviou reportagens durante a guerra civil entre 1979 e 1992.

Entre outros conflitos acompanhou os da Geórgia, da ex-Jugoslávia e, a partir de 30 de agosto 1991, de Timor-Leste, onde chegou, como 'turista' a convite de quadros da resistência.

Ao longo da sua longa ligação a Timor-Leste, onde vivia até ter recentemente que viajar para a Austrália para tratamento médico, entrevistou algum dos líderes históricos da resistência como Nino Konis Santa, David Alex e outros.

Seria Santa Cruz, e o massacre de 12 de novembro de 1991 que tornaria o nome de Max Stahl conhecido internacionalmente, com as imagens a serem das primeiras a atestar a barbárie da ocupação indonésia.

Em Portugal as imagens acabaram por ter um impacto especial, tanto pela dureza da violência como pelo facto dos sobreviventes se terem reunido na pequena capela de Santa Cruz a rezar, em português, enquanto se ouviam as balas dos militares e policias indonésios.

O referendo de 1999 levou Max Stahl a regressar a Timor-Leste, onde acompanhou quer a violência antes do referendo quer depois do anúncio da vitória da independência tendo acompanhado famílias em fuga para as montanhas.