Em defesa da vaquita. "Não podemos deixar de fazer o que estamos a fazer, porque seria dar a vitória ao narcotráfico"

Até final de 2021, o mais pequeno e esquivo mamífero marinho do mundo deverá ser considerado extinto. As redes de pesca ilegais e a "cocaína do mar" estão a condenar esta toninha, com cerca de um metro e meio de comprimento, pertencente à família das baleias e golfinhos, ao desaparecimento. México tem de aumentar a proteção.

Ana Daniela Soares
Sempre que vêm à superfície para respirar, as vaquinhas são apanhadas nas redes e acabam por se afogar. Os pescadores ganham bastante dinheiro com esta pesca e a marinha mexicana não tem grandes poderes para os confrontar.

O mar de Cortez, no México, é considerado um dos locais mais ricos em diversidade animal, mas estas águas estão a tornar-se mais silenciosas por causa do desaparecimento de algumas espécies de peixe, como o totoaba/vaquita. Calcula-se que restem apenas 10 indivíduos desta espécie de toninha por causa das redes de pesca ilegais que tentam apanhar o totoaba, um peixe cujo único valor comercial reside na bexiga natatória, um órgão preenchido com um gás que permite ao peixe flutuar. Em 1975, a pesca do totoaba foi proibida, em parte porque se extinguiu comercialmente.

Para Lorenzo Rojas-Bracho, da Comissão Nacional para o Conhecimento e Uso da Biodiversidade do México, é muito difícil falar no totoaba. "O problema que temos agora está centrado na bexiga natatória do peixe, que é utilizada na medicina tradicional chinesa, e as comunidades embarcaram na pesca deste peixe para satisfazerem os pedidos dos chineses que emigraram para a Baja Califórnia", explica o biólogo marinho. Um negócio que vale milhões de euros, construído a partir de uma teia complexa que envolve pescadores, cartéis de droga e corrupção. Um ecossistema inteiro em risco por causa de uma crença. "É igual comer a bexiga natatória ou roer as unhas", afirma Lorenzo Rojas-Bracho, "a medicina tradicional chinesa acredita que pode tratar 21 doenças, acreditam que se trata de um tónico que ajuda a tratar a pele, a recuperar depois do parto, a evitar hemorragias, mas não faz absolutamente nada."

A vaquita alimenta-se de cerca de 22 espécies de peixe e lulas, mas não come totoaba. E quando são analisados os conteúdos dos estômagos dos totoabas e das vaquitas, verifica-se que não comem o mesmo alimento.

Se a vaquita tem alimento à disposição, vive em zonas com pouca poluição e se reproduz bem, então porque está em vias de extinção?

Começámos a conversar com o biólogo marinho Lorenzo Rojas- -Bracho em 2019. Desde essa altura que a situação desta toninha se tem vindo a degradar rapidamente. Em 2018, a estimativa apontava para seis a 19 animais, o mais provável era que fossem apenas nove. Em 2021 contam-se 10 indivíduos, sendo que três são crias. Numa população tão pequena, todos os animais são importantes e uma perda é mais um passo enorme no sentido da extinção.

O problema reside no diâmetro da cabeça deste pequeno boto, que é do mesmo tamanho do emaranhado das redes utilizadas para apanhar o totoaba. Esta toninha, como todos os mamíferos marinhos, tem de vir à superfície para respirar, e ao ficar presa nas redes acaba por se afogar.

A rede que é utilizada para apanhar o totoaba é ilegal, proibida. "Desde 1992 que não deveria existir", explica Rojas-Bracho, "mas a pesca da totoaba nunca acabou. Sempre houve pesca ilegal, porque os chineses pagavam". Não se percebe muito bem o que fez disparar a procura deste peixe na China continental e em Hong Kong. "Em 2011, 2012, começámos a receber chamadas de amigos pescadores que nos diziam que algo de grave estava a acontecer, porque pescadores muito jovens estavam a ganhar muito dinheiro. Chegavam aos mercados com notas de 100 dólares e compravam pick-ups caras. Os pescadores mais velhos, alguns dos quais tinham andado na pesca do totoaba, também se lançaram ao mar", conta o biólogo marinho.

Atualmente também os cartéis de droga estão envolvidos no negócio, traficando a bexiga natatória do peixe para o mercado asiático e financiando a compra destas redes, que podem custar três mil dólares. "Há muito dinheiro envolvido", como nos explica Lorenzo Rojas-Bracho, "o preço mais alto que registei por um quilo de bexigas natatórias foi 10 mil dólares (cerca de 9 mil euros). Isto foi o que um pescador nos contou que tinham pago a um amigo dele. Os preços andam pelos 8 mil, 8500 dólares. É mais do que ganha um pescador ou até eu! Não ganho 10 mil dólares por mês, muito menos num dia. Há quem ganhe 116 mil dólares (cerca de 100 mil euros) num só dia de pesca".

No mercado asiático pode valer 100 mil dólares por quilo, por isso também é conhecida como a "cocaína do mar". "A bexiga natatória do totoaba vale mais do que a cocaína, mais do que a marijuana, mais do que o ouro. Só as anfetaminas têm o mesmo valor. Com a desvantagem de que se fores apanhado com bexiga de totoaba não é considerado um delito maior. Neste caso nem sequer é delito. Pagas 20 mil pesos (cerca de 900 euros) de multa, o que é nada quando ganhas tanto dinheiro, e sais da prisão. Se te apanham com cocaína, podem matar-te ou levar-te para a cadeia", acrescenta o biólogo, que já recebeu ameaças de morte de vários cartéis, incluindo o de Sinaloa, que em 2020 foi distinguido com o Inspiration Award, atribuído pela BBC a pessoas inspiradoras e desconhecidas que tentam melhorar o nosso planeta.

As autoridades nada fazem!

A vigilância das águas onde vive a vaquita e o totoaba é feita pela armada do México, que não é uma força policial. "Um almirante muito importante disse-me "se disparo contra um narcotraficante, a sociedade aplaude e todos ficam contentes. Se disparo contra um pescador, por mais ilegais que sejam a"", conta-nos Rojas-Bracho. O que já aconteceu. Um pescador que foi funcionário da Procuradoria Federal da Proteção do Ambiente criou uma célula de pescadores de totoaba. As autoridades apanharam-nos em flagrante e, acidentalmente, foi disparada uma bala por um elemento da armada, que acertou no pé de um pescador. "Foi um escândalo!", afirma o biólogo. "Uma senadora defendeu o pobre pescador, que não era um pobre pescador, era um tipo corrupto que já era corrupto enquanto funcionário do governo e por isso foi expulso. E apesar de tudo isto, quem teve problemas foi a armada", e acrescenta. "Há tanto dinheiro que a corrupção é brutal. Segundo os pescadores, são pagos 500 pesos (cerca de 21 euros) diários aos funcionários que vigiam a pesca do camarão, mil pesos (cerca de 42 euros) diários quando é a temporada do totoaba. Saem cerca de 200 "pangas" (embarcações de pesca), os vigilantes ganham 200 mil pesos (cerca de 9 mil euros) num dia."

Como se percebe, este é um problema com uma forte dimensão social. Quando perguntamos a Lorenzo Rojas-Bracho se as pessoas foram envolvidas nos vários projetos de conservação, a resposta é assertiva. "O México e a América Latina em geral foram os países que começaram a aplicar as ciências sociais nas ciências da conservação. No Alto Golfo da Califórnia foi criada a Reserva da Biosfera, e isso foi feito com a comunidade. Realizaram-se reuniões, discutiu-se." E acrescenta: "Desde que estou a trabalhar com as vaquitas que se fazem reuniões com as comunidades. Quando foi criada a área de refúgio, fizemos 23 reuniões, uma reunião por mês em dois anos. Auscultamos as comunidades. As quantias de dinheiro pagas aos pescadores para os compensar por não saírem para o mar foram muito mais elevadas que o preço para sair a pescar. Mas os pescadores não aceitaram mudar as suas artes de pesca para artes de pesca alternativas, e por isso o acordo nunca avançou." Com a procura do totoaba a aumentar e a população de vaquitas a diminuir, o governo decide proibir a pesca. "Negociou-se com os pescadores, com os líderes pesqueiros, mas, como a corrupção grassa no nosso país, muitos destes líderes ficaram com o dinheiro, não o dividiram. Planeou-se mal", admite Lorenzo Rojas-Bracho, que acrescentou que "o governo criou um mecanismo perverso cujo resultado é exatamente o contrário do que se pretende. Nós aconselhámos que se pagasse aos pescadores para serem vigilantes, para desenvolverem artes de pesca alternativas, alternativas socioeconómicas. O pior nesta vida é ter dinheiro e ócio ao mesmo tempo. O que fizeram com esse dinheiro? Compraram redes para pescar totoaba".

A criação de totoaba em aquacultura poderia ser uma forma de resolver o problema. Em 2019 existiam 17 unidades no país, mas para Lorenzo Rojas-Bracho apenas se criou mais um problema. "Querem criar um mercado para exportar, mas se não se controla a pesca ilegal, não se pode arriscar que haja lavagem de dinheiro desta atividade ilegal, como aconteceu com muitas outras espécies selvagens. Isso já aconteceu com os elefantes, por exemplo", explica o biólogo marinho.

Já se tentou capturar as vaquitas que restam com o objetivo de as reproduzir e devolver ao mundo selvagem, mas isso não resultou, pois alguns animais aguentam-se em cativeiro e outros não. "No caso da vaquita, sabíamos muito pouco", confessa Lorenzo Rojas- Bracho, "fomos capturá-las, não como medida de conservação, mas numa tentativa de ganhar tempo para limparmos o golfo de redes e implementar redes alternativas para os pescadores". E acrescenta: "As autoridades pesqueiras no México são muito primitivas, acreditam que a conservação se faz em formol. Ao não termos apoio destas autoridades, não se desenvolveram as redes alternativas. A vaquita sofre de cardiomiopatia quando capturada, o que leva à morte pouco depois, por isso a reprodução em cativeiro é impossível."

Neste momento a única forma de salvar a vaquita e o totoaba é retirar as redes de pesca, tarefa que se tornou mais difícil a partir do momento em que o governo mexicano resolveu revogar a proibição de pesca na denominada área de refúgio da vaquita. Para Thomas Jefferson, perito em mamíferos marinhos, consultor científico da American Cetacean Society e diretor da organização Viva a Vaquita, "o governo mexicano tenta mostrar esta decisão como positiva mas não o é. Já não fazem de conta que estão a proteger a espécie". A Sea Shepherd, uma organização sem fins lucrativos que deslocou, nos últimos anos, várias embarcações para a região com o objetivo de retirar redes do mar e dissuadir a pesca ilegal, chegou até a protagonizar um documentário sobre o tema, produzido pelo ator Leonardo DiCaprio, já emitido no canal National Geographic, e afirma continuar comprometida com a proteção da vaquita, mas nada tem a dizer sobre esta decisão do governo mexicano.

Ainda há esperança?

"Nunca perdemos a esperança!", afirma Lorenzo Rojas-Bracho, "não podemos deixar de fazer o que estamos a fazer, porque seria dar a vitória à corrupção, ao narcotráfico, ao crime organizado. Não podemos desistir. Os animais que avistamos são saudáveis e têm crias. Vemo-las! Elas estão aí! A população de elefantes-marinhos que temos no México diminuiu, estima-se que tenha chegado a apenas 30 animais, mas agora temos 130 mil. A vaquita tem muitos recursos. Se deixarmos de a matar, pode reproduzir-se e voltar a povoar o Alto Golfo. Geneticamente, está adaptada a uma população pequena. As vaquitas têm uma baixa variabilidade genética, mas cremos que também conseguirá sobreviver. Há outros exemplos de outras espécies que não tiveram problemas de endogamia. Vamos continuar a lutar até à última vaquita!"

dnot@dn.pt