Combates atingem "máxima intensidade" no leste da Ucrânia

Avanço russo no Donbass, onde se registaram ataques em 40 localidades, leva Kremlin a instar Kiev para reconhecer situação de facto.

César Avó
Socorrista presta auxílio a feridos em Kharkiv, cidade que voltou a ser atacada pelos russos.© AFP

Kiev declarou que os combates na região leste do país atingiram o seu nível mais feroz, à medida que as forças russas se adentram na região industrial. O Kremlin apela para o poder ucraniano "reconhecer a situação de facto" no terreno e que aceda às suas exigências, enquanto em paralelo Ancara estará a servir de mediador entre os beligerantes para que a Rússia levante o bloqueio aos navios com cereais.

"Os combates atingiram a sua intensidade máxima", disse a vice-ministra da Defesa ucraniana, Ganna Malyar. "As forças inimigas estão a invadir as posições das nossas tropas simultaneamente em várias direções. Temos uma fase extremamente difícil e longa de combates pela frente", tendo ainda acrescentado que perante este cenário, as perdas humanas são "inevitáveis". As tropas russas estão a iniciar o cercar de centros urbanos estratégicos, casos de Severodonetsk e Lysychansk, que se encontram na rota para o centro administrativo no leste da Ucrânia, Kramatorsk. "A situação continua difícil e mostra sinais de agravamento", disse Malyar.

O Pentágono disse que a Rússia perdeu mais de mil tanques, mas "mantém muita capacidade de combate".

As forças russas atacaram com bombas e mísseis mais de 40 localidades na região do Donbass, ameaçando fechar a última rota de fuga principal para os civis que tentam escapar da sua ofensiva, disse por sua vez o exército ucraniano. "Os ocupantes atacaram mais de 40 localidades na região de Donetsk e Lugansk, destruindo ou danificando 47 locais civis, incluindo 38 casas e uma escola. Como resultado deste bombardeamento, cinco civis morreram e 12 ficaram feridos", disse o Estado-Maior das forças armadas ucranianas.

A segunda maior cidade da Ucrânia, Kharkiv, assim como os seus arredores, foi libertada de tropas russas há menos de duas semanas, mas voltou a ser alvo dos invasores. Um bombardeamento atingiu o centro da cidade e causou sete mortos e 17 feridos. "Entre os feridos encontra-se um rapaz de nove anos", disse o governador da região, Oleg Sinegubov, que pediu à população para procurar abrigos antiaéreos.

Washington disse que a Rússia já perdeu mais de mil tanques, 350 peças de artilharia, 50 helicópteros e 30 aviões (Kiev diz que são 1315 tanques, 617 peças de artilharia, 206 aviões e 170 helicópteros), porém, Moscovo "mantém muita capacidade de combate". Na guerra informativa, o Ministério da Defesa da Rússia disse que aviões seus atingiram a estação ferroviária de Pokrovsk (Donetsk) quando chegavam reforços ucranianos. O porta-voz, Konashenkov. disse também que os militares russos destruíram o centro de informações eletrónicas em Dniprovske, na região de Mykolaiv, matando 11 soldados ucranianos e 15 peritos estrangeiros.

Perante o avanço russo, o presidente Vladimir Putin disse que a tentativa ocidental de isolar o seu país irá falhar. Por sua vez, o porta-voz do Kremlin afirmou esperar que Kiev reconheça a situação existente e aceite as exigências russas. Para Dmitri Peskov, "Moscovo espera a aceitação das suas exigências e a compreensão da situação real que existe de facto".

A diplomacia não está em ponto morto. Segundo um funcionário turco, Ancara está a negociar a passagem de navios com cereais, atualmente bloqueados pela Rússia, via Turquia. O general norte-americano Christopher Cavoli revelou no Congresso que a Alemanha está a fazer uma "ponte ferroviária" para transportar o trigo para fora da Ucrânia.

cesar.avo@dn.pt