Biden avisa que Rússia pode invadir Ucrânia no próximo mês

O presidente dos EUA avisou o seu homólogo ucraniano para a possibilidade de estar iminente uma invasão por parte da Rússia. Moscovo nega. "Não queremos guerras. Mas não permitiremos que os nossos interesses sejam grosseiramente violados, ignorados", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros russo.

DN/Lusa/AFP
O presidente dos EUA, Joe Biden, alertou o seu homólogo ucranino, Volodymyr Zelensky , para uma iminente invasão por parte da Rússia© JIM WATSON / AFP

A invasão da Ucrânia pela Rússia pode estar "iminente", afirmou, na quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos numa conversa telefónica com o seu homólogo ucraniano. Joe Biden avisou Volodymyr Zelensky de que a Rússia pode invadir a Ucrânia já no próximo mês de fevereiro, considerando esta uma "possibilidade distinta".

O alerta do presidente norte-americano foi revelado pela Casa Branca, que desmentiu as informações dadas por um funcionário sénior da Ucrânia à CNN, dando conta que o telefonema entre os dois chefes de Estado "não correu bem". Em causa, disse, estiveram as diferentes posições sobre o nível de risco da ameaça russa. Washington fala em "falsidades".

De acordo com a fonte ucraniana citada pela estação de televisão, Zelensky disse não ser certo de que irá ocorrer uma invasão, reafirmando, no entanto, que a ameaça da Rússia continua "perigosa, mas ambígua". ​​​​​​

A Casa Branca desvaloriza estas informações. "O presidente Biden disse que há uma possibilidade distinta de que os russos possam invadir a Ucrânia em fevereiro. Ele disse isso publicamente e estamos a alertar sobre isto há meses. Relatos de algo mais ou diferente do que isto são completamente falsos", assegurou à CNN a porta-voz do Conselho Nacional de Segurança (NSC, na sigla inglesa), Emily Horne.

Alguns especialistas militares sugerem que a Rússia pode estar à espera que o solo na Ucrânia congele para poder avançar no território com equipamento pesado.

Refira-se que os EUA colocaram cerca de 8.500 militares em alerta máximo, prontos para serem mobilizados pela NATO, caso seja necessário, tendo em conta o aumento dos receios de uma invasão da Ucrânia pela Rússia.

"O que está em causa é tranquilizar os nossos aliados da NATO", disse o porta-voz do Pentágono, John Kirby.

Na conversa telefónica de uma hora e 20 minutos com o presidente da Ucrânia, Joe Biden "reafirmou a prontidão dos EUA, juntamente com os seus aliados e parceiros, para responder de forma decisiva" caso a Rússia opte pela invasão, refere um comunicado da Casa Branca. O presidente norte-americano afirmou ainda que está "a considerar ajuda económica adicional" para a Ucrânia.

Já do lado ucraniano, Zelensky fez saber que os dois chefes de Estado abordaram "os recentes esforços diplomáticos" para diminuir a tensão, tendo os dois concordado "em ações conjuntas para o futuro".

"Se depender da Rússia, não haverá guerra. Mas não permitiremos que os nossos interesses sejam grosseiramente violados, ignorados"

O alerta de Biden sobre a possibilidade de estar iminente uma invasão ocorre quando dezenas de milhares de soldados russos estão concentrados na fronteira ucraniana. A Rússia, no entanto, recusa que esteja a planear uma invasão, mas associa uma diminuição da tensão a tratados que garantam que a NATO não se expandirá para países do antigo bloco soviético.

Já esta sexta-feira, Moscovo fez saber que quer resolver a crise sobre a Ucrânia pela via diplomática sem recurso à guerra, mas não permitirá que os seus interesses sejam violados ou ignorados, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros russo.

"Se depender da Rússia, não haverá guerra. Não queremos guerras. Mas não permitiremos que os nossos interesses sejam grosseiramente violados, ignorados", disse Sergei Lavrov, numa entrevista transmitida por várias estações de rádio e televisão russas.

"Há muitas décadas que escolhemos o caminho da diplomacia. Temos de trabalhar com todos, esse é o nosso princípio", disse, citado pelas agências de notícias AFP e a espanhola EFE

A Ucrânia e os países ocidentais acusaram a Rússia de ter enviado pelo menos 100 mil tropas para a fronteira ucraniana, nos últimos meses, com a intenção de invadir de novo o país vizinho, depois de ter anexado a península ucraniana da Crimeia, em 2014.

A Rússia negou essa intenção, mas disse sentir-se ameaçada pela expansão de 20 anos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) ao Leste europeu e pelo apoio ocidental à Ucrânia.

Moscovo exigiu o fim da política de expansão da NATO, incluindo para a Ucrânia e a Geórgia, a cessação de toda a cooperação militar ocidental com as antigas repúblicas soviéticas e a retirada das tropas e armamento dos aliados para as posições anteriores a 1997.

Os Estados Unidos e a NATO rejeitaram formalmente, na quarta-feira, as principais exigências de Moscovo, mas propuseram a via da diplomacia para lidar com a crise.

Em particular, abriram a porta a negociações sobre os limites recíprocos da instalação dos mísseis de curto e médio alcance das duas potências nucleares rivais na Europa, e sobre exercícios militares nas proximidades das fronteiras do campo adversário.

Lavrov considerou que as respostas dos Estados Unidos às exigências da Rússia sobre garantias de segurança são "bastante confusas".

Admitiu que encontrou "sementes de racionalidade" em "assuntos de importância secundária", como a questão das instalações de mísseis de curto e médio alcance, e disse que o debate sobre esta questão tem sido rejeitado pelos Estados Unidos.

"Agora, propõem-se abordar a questão", disse.

Gasoduto Nord Stream 2 em risco no caso de uma invasão

Quanto à ameaça de novas sanções dos Estados Unidos, incluindo contra a liderança russa e a desconexão do país dos sistemas financeiros internacionais, Lavrov disse que "seria equivalente à rutura das relações".

Ainda na quinta-feira, os EUA e a Alemanha avisaram a Rússia que o importante gasoduto Nord Stream 2 está em jogo caso haja uma invasão da Ucrânia.

O destino deste polémico gasoduto russo-alemão, nunca bem-visto por Washington, mas concluído com a bênção de Berlim, irá estar certamente no centro da visita do chanceler alemão, Olaf Scholz, a Washington, no dia 7 de fevereiro, onde se vai encontrar com o presidente Joe Biden.

"Estamos a trabalhar num forte pacote de sanções" com aliados ocidentais, cobrindo vários aspetos "incluindo o Nord Stream 2", declarou a ministra alemã dos Negócios Estrangeiros, Annalena Baerbock, no parlamento.

O gasoduto Nord Stream 2, que a Alemanha construiu apesar das críticas dos Estados Unidos e dos países do Leste Europeu, mais do que dobrará o fornecimento de gás natural russo para a economia alemã.

Em Washington, Victoria Nuland, a terceira na hierarquia do Departamento de Estado, afirmou estar confiante de que uma invasão impediria a Alemanha de ativar o projeto multibilionário, que foi concluído em setembro, mas ainda requer testes e aprovação de uma entidade reguladora.

"Se a Rússia invadir a Ucrânia, de uma forma ou de outra, o Nord Stream 2 não seguirá em frente", garantiu Nuland aos jornalistas.

EUA pedem reunião do Conselho de Segurança da ONU. Macron conversa com Putin por telefone

Numa tentativa de intensificar a ofensiva diplomática, os EUA solicitaram uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a Ucrânia, naquela que será a primeira vez que o órgão discutirá oficialmente a crise daquele país do leste europeu.

"Não é hora de esperar para ver. A atenção total do Conselho agora é necessária e esperamos uma discussão direta e útil na segunda-feira", disse a representante dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Linda Thomas-Greenfield, citada em comunicado.

De acordo com a diplomata, o encontro acontecerá "após semanas de consultas estreitas com a Ucrânia e parceiros do Conselho de Segurança" e servirá para discutir o "comportamento ameaçador da Rússia".

Os presidentes russo, Vladimir Putin, e francês, Emmanuel Macron, deverão realizar esta sexta-feira conversações, por telefone, sobre a crise ucraniana.

Macron deverá propor a Putin um caminho para desanuviar as tensões entre a Rússia e os países ocidentais, segundo a AFP. A França exerce, atualmente, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia.