"A cultura portuguesa faz parte da cultura luxemburguesa"

A ministra da Família e da Integração do Luxemburgo, Corinne Cahen, esteve em Lisboa a acompanhar o grão-duque Henrique, falando ao DN do impacto da imigração portuguesa no país e dos desafios do "viver em conjunto". Mas também dos refugiados ucranianos e do desafio económico que a guerra vai representar para todos.

Susana Salvador
A ministra Corinne Cahen durante a visita a Lisboa.© PAULO SPRANGER/ Global Imagens

Antes da visita a Portugal, o grão-duque Henrique disse ao jornal Contacto que o Luxemburgo "não seria o que é" sem a comunidade portuguesa. Podemos falar de um exemplo de integração?
Hoje, na realidade, já não falamos em integração, mas de viver em conjunto. Integração quer dizer que chegamos a qualquer parte e temos de nos integrar e o que nós queremos é que as pessoas sejam o que são e aprendam a viver em conjunto. Que as pessoas se tornem atores da sua própria integração, planifiquem o seu futuro juntas. E aí a nacionalidade não é importante. O que é importante é querer estar envolvido num clube de desporto, de música, numa associação, na política comunal... Penso que hoje é preciso parar de dizer :"Ele é português ou é luxemburguês." Podemos ser os dois. O coração pode estar em Portugal, mas também no Luxemburgo. Não se trata de escolher, é uma identidade que temos, uma riqueza que temos, é uma cultura que faz parte integral da do Luxemburgo. Podemos dizer que houve um sucesso na integração, mas prefiro falar do viver em conjunto. E ainda temos muito trabalho a fazer, nem tudo é perfeito.

É uma grande comunidade...
Mais de 94 mil, é a maior comunidade estrangeira no Luxemburgo.

Os primeiros chegaram nos anos 1960. Mas hoje é uma imigração diferente, mais qualificada. A imagem da comunidade mudou com o passar dos anos?
A cultura luxemburguesa não seria o que é hoje sem a cultura portuguesa. Como disse, os primeiros portugueses chegaram ao Luxemburgo muito cedo e por isso há dezenas de anos que vivemos juntos, que nos conhecemos. A cultura portuguesa faz parte da cultura luxemburguesa. Mas cada um tem a sua história, um pouco diferente, apesar de também ter coisas em comum - como por exemplo o facto de a bisavó do grão-duque ter vivido em Portugal, em Cascais, antes de ir para os EUA. Já vivemos muitas coisas. Mas claro que há diferenças. Vocês têm o sol, têm o mar, uma cultura do sul, e nós somos um pouco mais nórdicos, um pouco mais frios na nossa forma de ser, mas creio que nos damos bem. E aprendemos uns com os outros a crescer juntos para um futuro comum no Luxemburgo.

Falou no sol, no mar... É isso que atrai os luxemburgueses? São cada vez mais os que escolhem viver cá.
Há muitas coisas que atraem os luxemburgueses. Ouvimos na nossa visita que as startups são muito bem tratadas, que há muitas oportunidades económicas em Portugal, e foi isso também que procurámos com a nossa visita, aprofundar as relações económicas, porque não são muito profundas. Evidentemente também há muitos luxemburgueses que vêm como turistas a Portugal, descobrem Portugal, nós adoramos Portugal, e muitos entre nós têm uma avó ou um avô, um dos pais portugueses, uns primos cá, então as pessoas adoram vir. Fazemos parte dos turistas que voltam várias vezes.

Que oportunidades económicas existem em Portugal?
Tivemos um Fórum Económico para nos conhecermos melhor. 130 empresários luxemburgueses estiveram na visita, vieram para falar de negócios com as empresas portuguesas. A sala estava cheia, foi um grande sucesso, e é nesta área que precisamos de trabalhar melhor em conjunto. O primeiro-ministro português disse que em relação ao digital, tudo o que é startup, vocês têm muitas oportunidades de negócio e convidou o nosso primeiro-ministro a vir à cimeira da digitalização em novembro (o nosso primeiro-ministro é também o ministro da Digitalização). Penso que nessa área estamos parecidos, precisamos de fazer esforços enormes de modernização.

Falou que há ainda muito trabalho a fazer no viver em conjunto. Qual é o principal desafio?
Se falo dos portugueses, o que percebemos é que participam muito pouco. Por exemplo, fizemos um estudo sobre o racismo e constatámos que os portugueses são os que respondem menos. É uma mensagem que gostaria de deixar: é preciso participar mais. E quando falo de participação, falo também, por exemplo, na participação política. Vamos ter eleições comunais no próximo ano e precisamos que os estrangeiros se inscrevam nas listas eleitorais, porque a democracia só pode ser vivida quando é participada. E temos quase 50% dos habitantes no Luxemburgo que não têm a nacionalidade luxemburguesa. É um desafio, mas cada um vive numa comuna e cada um está preocupado com a política comunal, quer seja os caixotes do lixo, as escolas... Apelo à comunidade portuguesa, que é um pouco reticente, para que se inscreva nas listas eleitorais e vote, decida também quem será o próximo presidente da câmara e a política de futuro na sua comuna. Além disso, quando olhamos para o inquérito sobre o racismo, vemos que os portugueses se sentem discriminados por uma questão de língua.

Têm dificuldades em aprender?
Temos uma situação complicada, porque temos três línguas: o luxemburguês, o francês e o alemão. E dos portugueses que participaram no estudo, um terço diz que se sente discriminado se não fala o luxemburguês. E nessa área estamos a fazer um trabalho enorme, abrindo escolas europeias públicas. Até agora era preciso que os pais fossem funcionários europeus para aceder às escolas europeias, mas agora temos uma escola europeia pública. E aí pode-se escolher a primeira língua, a segunda, a terceira. E vamos ter também aulas de alfabetização em francês. Na escola luxemburguesa a alfabetização é em alemão e para as criança portuguesas é muito complicado, porque os pais não as podem ajudar, porque não falam alemão, mas vamos ter um projeto-piloto de alfabetização em francês.

Essa é então uma preocupação...
Sim, totalmente. Queremos que todas as crianças tenham as mesmas oportunidades de futuro. Pouco importa a nacionalidade, a religião, o estatuto social. Queremos que cada criança possa aceder ao diploma e à profissão que queira, por isso precisamos também de pôr os meios à disposição para que cada criança possa ter sucesso. Porque não pode ser por não falar alemão que a criança não é boa a biologia, porque a biologia não tem nada a ver com a língua, mas precisa da língua para aprender a biologia. Logo, fazemos grandes esforços, porque temos consciência de que a situação é muito complicada. Vemos isso por exemplo com os refugiados. Quando chegam a Portugal, vocês dizem-lhes para aprender o português. Quando chegam ao Luxemburgo, dizemos-lhes, bom, aprendam o luxemburguês porque é a nossa língua do coração, a nossa identidade. Mas se querem um trabalho aprendam francês... e os filhos têm de saber alemão para andar na escola.

Falou dos refugiados. Como é que o Luxemburgo olha para a guerra na Ucrânia, às portas da União Europeia, e de que forma estão a acolher os refugiados?
A guerra na Ucrânia assusta-nos a todos. É a primeira vez que conhecemos uma guerra assim. A Europa é um projeto de paz, por isso evidentemente preocupa-nos a todos. Mas vemos que em tempo de crise, somos muito solidários. Em tempo de crise, os países da UE arregaçam as mangas e isso é algo fantástico. E é nesse momento que o projeto europeu funciona. Quando temos um grave problema, os países reencontram-se. Mesmo se tivermos tido um grande problema antes, quando temos uma situação de crise, sabemos todos onde estamos no projeto europeu. No Luxemburgo, acolhemos 4000, 4500 ucranianos. Acho que em toda a UE temos em comum o facto de termos aprendido muitas coisas em 2015, quando havia o conflito sírio e chegaram muitos refugiados. Nós não começámos no zero. Temos estruturas. A Europa ajudou muito ao dar um estatuto para que estas pessoas possam trabalhar de imediato. Isso correu bem. Mais uma vez o desafio foram as escolas, integrar as crianças. Temos muitas pessoas privadas que albergam ucranianos, eu pessoalmente também tenho uma mãe e uma filha ucranianas que moram na minha casa. Estamos em coordenação com a Cruz Vermelha e a Caritas para fazer um levantamento e dizer às pessoas que esta ajuda não é de curta, mas longa duração. Não podemos dizer ao fim de 15 dias: "Bom, já fiz o que devia." O que vimos no conflito sírio é que as pessoas são muito, muito solidárias, mas é de curta duração. Há um momento em que toda a gente volta à sua rotina, que diz: "Bom, já dei o meu tempo, já fiz caridade." A mensagem que quero passar é que nós vamos tentar manter esta solidariedade durante um período de tempo maior. Não sabemos durante quanto tempo haverá necessidade, mas não podemos ficar chateados se no primeiro dia não formos precisos, porque teremos necessidade de todos, só é preciso organizar as coisas.

Não sabemos quanto tempo mais será preciso ajudar os ucranianos...
E não sabemos quantas pessoas vão querer ficar ou quantas vão querer regressar. Se as suas casas não estiverem já lá, se não tiverem mais parentes ou se tiverem trabalho no Luxemburgo então talvez não queiram voltar. Não podemos perguntar agora se querem ou não voltar. Depende de quanto tempo esta guerra durar e de como ficar o país.

Depois da crise causada pela covid, veio a guerra. Como é que o Luxemburgo, um dos países mais ricos do mundo, está a enfrentar a situação?
A covid foi bem gerida, os nossos números não foram maus. Obviamente que cada morte é uma morte a mais. Foi muito difícil, mas foi igual para todos. Em relação à economia, temos algo em comum com Portugal. Temos pouco desemprego. Então, a economia funciona bem. O governo ajudou enormemente as empresas, pagámos mais de mil milhões em subsídios de desemprego parcial, para que as pessoas continuassem empregadas, mesmo que as empresas não pudessem pagar. Investimos enormemente na economia para salvar as empresas e tentámos também ajudar as pessoas. Agora, obviamente, temos um buraco na caixa, mas quem não tem. Temos todos, porque gastámos imenso dinheiro. Em Portugal, como no Luxemburgo, temos um desemprego muito, muito baixo. Agora é preciso esperar. Agora há a guerra. E os próximos meses serão muito decisivos. Vão mostrar as repercussões da guerra, porque os preços estão a subir e é preciso ver se as empresas vão conseguir suportar o aumento dos preços da energia, do gás, etc.

O Luxemburgo está preparado?
Bom, Portugal está preparado, porque 60% da vossa energia vem de fontes renováveis. Vocês têm o mar e são um pouco mais independentes do gás que vem da Rússia. Nós estamos muito dependentes, nós compramos em conjunto com a Bélgica e os Países Baixos. Temos reservas, mas não sabemos o que vai acontecer nos próximos meses.

susana.f.salvador@dn.pt