Amazónia no centro de selva de desafios

Recuperação do poder do Brasil na chamada "diplomacia ambiental" é chave, segundo observadores e candidatos às eleições, para conter os estragos da política externa "alucinada" de Bolsonaro.

Ernesto Araújo, o ministro das Relações Exteriores original de Jair Bolsonaro, considerava Donald Trump "um ser divino" descido à terra "para salvar o Ocidente" e a globalização "uma ideologia anticristã" dominada "pelo marxismo cultural". O diplomata que comparou o isolamento social na pandemia a campos de concentração nazis e chamou o coronavírus de "comunavírus", defendeu ainda que "a esquerda sequestrou a causa ambiental e a perverteu", visando "transferir poder económico do Ocidente para a China". Com este ideário, o Brasil segundo observadores, tornou-se um pária internacional. "Então, que sejamos esse pária", respondia, orgulhosamente só, Araújo.

O futuro - próximo e distante - da diplomacia do Brasil não pode, portanto, ser discutido sem se levar em conta o tamanho do estrago provocado por Bolsonaro e Araújo, defendem ex-titulares da pasta das Relações Exteriores e demais observadores. Em conferência organizada pela Universidade Harvard e o MIT nos últimos meses, antigos ministros concluíram que o Brasil deve atuar no futuro "como uma força de moderação e equilíbrio no sistema internacional, no apoio à autodeterminação, à cooperação e à solução pacífica de controvérsias, e no reforço do sistema multilateral, considerado o mais benéfico para uma potência média e soberana como o Brasil costumava ser".

Celso Lafer, ministro da área de Fernando Collor de Mello e de Fernando Henrique Cardoso, Rubens Ricupero, ministro da Economia de Itamar Franco e especialista em Relações Internacionais, Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco e Lula da Silva e da Defesa de Dilma Rousseff, e Aloysio Nunes, ministro das Relações Exteriores de Michel Temer, concordaram que "a despeito de discordâncias pontuais e programáticas", a diplomacia do país "orientou-se ao longo de décadas - inclusive durante a ditadura militar - por critérios racionais e pragmáticos, em defesa de interesses nacionais e de acordo com as capacidades do Brasil, sem se deixar afundar por ilusões ideológicas e nem por uma vassalagem a outras potências - essa racionalidade, no bolsonarismo, acabou".

Para Lafer, "a política externa em curso não tem nenhuma relação com a realidade, e vem levando ao nosso isolamento no mundo. No lugar de afirmar a presença brasileira internacionalmente, combatemos inimigos imaginários". "A política externa de Bolsonaro é rejeitada por todos, é anticonsenso, é um cachorro morto que não se pode discutir racionalmente, é absolutamente alucinada", observou Ricupero.

"A reputação do Brasil está fortemente atacada, impondo uma enorme vergonha internacional. A vergonha vai sobreviver ao governo Bolsonaro por muitos anos", disse Amorim, conselheiro de Lula para as Relações Internacionais. "A situação só não é pior porque o Brasil tem uma diplomacia muito competente que contém estragos", defendeu Nunes.

Hussein Kalout, investigador da Universidade Harvard e ex-secretário de Assuntos Estratégicos do governo Temer, reforçou, ao jornal Valor Económico, "o isolamento do Brasil na América do Sul". "Além disso, temos mantido uma relação gélida com os principais países europeus e perdemos a capacidade de atuar de forma simultânea em múltiplos tabuleiros e, naquilo em que nos caracterizamos por uma certa envergadura, como a diplomacia ambiental, ficamos coxos na modulação das negociações internacionais", prosseguiu Kalout.

E o futuro? Para o investigador, "quem for eleito em outubro terá diante de si, no próximo ciclo presidencial, um sistema internacional mais competitivo e mais fragmentado". "Isso poderá ensejar mais oportunidades ou mais isolamento. Dependerá das escolhas. Temos que diversificar as nossas alternativas de comércio exterior, evitar a transposição de rivalidades geopolíticas para a América Latina, agir com muita maturidade à luz do risco de colapso do sistema multilateral e ter um projeto muito claro para a preservação e o desenvolvimento da Amazónia".

"O social-democrata SPD só voltou ao poder na Alemanha graças aos verdes. A coligação de esquerda Nupes, liderada pela França Insubmissa, também deve tudo aos ambientalistas, e nada aos decadentes socialistas. A última chance de Joe Biden de salvar o seu governo foi arrancada pelos ativistas que se jogaram no chão do Congresso para obrigar os senadores democratas a reabrirem as negociações por um pacote de investimento climático", lembra Mathias Alencastro, colunista do jornal Folha de S. Paulo.

"Essa mudança de paradigma tem tanto a ver com valores quanto com pragmatismo. O desafio do aquecimento global dá nova legitimidade à governança do Estado e amplia dramaticamente o horizonte da ação pública. Ele permite a criação de novas iniciativas industriais, científicas e sociais que eram tidas como inviáveis até há poucos anos". "Em todas as democracias ameaçadas pela ultra direita, a política climática tem tido um papel fundamental na refundação do Estado. Cabe ao eleitor exigir que o Brasil se torne uma infeliz exceção", conclui.

O PT, de Lula, identifica, através de Celso Amorim, três grandes mudanças geopolíticas que tornam o mundo bem diferente, segundo ele, do período em que esteve à frente da pasta, de 2003 a 2010. "Uma é a "centralidade" da questão climática, que se transformou em fator de sobrevivência da humanidade e condiciona uma série de posições na política externa, a segunda é a ascensão da China como maior economia do planeta, dependendo do indicador, e a terceira é uma guerra, demorada, no coração da Europa".

Uma das prioridades do Brasil, disse em entrevista ao jornal digital Poder360, deveria ser ajustar o acordo bilateral do Mercosul com a União Europeia. "Na primeira semana de governo, eu mandaria uma carta [para a União Europeia] dizendo: "Olha, queremos conversar para levar adiante, mas com reflexão". Sobre a entrada na OCDE, um dos desígnios de eventual segundo mandato de Bolsonaro, Amorim não está seguro. "Nenhum outro país dos Brics é da OCDE e não deixa de receber capitais, investimentos, por isso. A OCDE é um selo de qualidade, mas o Brasil já segue a maior parte das regras".

Ciro Gomes também ironizou os planos do Brasil de entrar na OCDE. "Às vezes parece-me, se não fosse tão grave, uma brincadeira de criança", afirmou ao Valor Económico. "O nosso interesse pragmático se daria, muito mais, num ambiente de Brics ampliado."

Já a candidatura de Bolsonaro insiste na OCDE. A ideia, sublinharam responsáveis pela área diplomática na campanha do presidente, "é culminar o segundo mandato de Bolsonaro, em 2026, com a adesão definitiva à OCDE".

dnot@dn.pt

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