Alvo de sanções do Ocidente, Rússia e China mostram união

Chefes da diplomacia de Moscovo e Pequim denunciam o bullying de Washington e Bruxelas e querem cimeira dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

"A interferência nos assuntos internos soberanos de uma nação sob a desculpa de "promover a democracia" é inaceitável", disseram os chefes da diplomacia da Rússia, Sergei Lavrov, e da China, Wang Yi, num comunicado conjunto no final de um encontro na cidade chinesa de Guilin. É a resposta a uma só voz depois de novas sanções dos EUA e da União Europeia (UE) - no caso de Moscovo pelo envenenamento do opositor Alexei Navalny, no de Pequim pelas violações dos direitos humanos da minoria uigur.

Denunciando o bullying de Washington e Bruxelas e uma "turbulência política global", russos e chineses pediram uma cimeira dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Na opinião da China e da Rússia, "a forma de abordar os assuntos internacionais deveria basear-se em princípios reconhecidos pela legislação internacional", que consideram essenciais para o desenvolvimento da sociedade. "Tomámos nota das intenções de natureza destrutiva dos EUA, dependendo de alianças político-militares dos tempos da Guerra Fria e criando novas alianças fechadas no mesmo espírito, para minar uma arquitetura internacional legal centrada na ONU", disse Lavrov. Os dois países defenderam um "multilateralismo aberto, igualitário e não ideológico".

O encontro entre Lavrov e Wang Yi surgiu dias depois de uma cimeira entre China e EUA em Anchorage, no Alasca, onde ficaram patentes as diferenças entre as duas superpotências. Do lado americano, o secretário de Estado Antony Blinken deixou claro que as ações da China "ameaçam a ordem baseada em regras que mantêm a estabilidade global" - falando da repressão aos uigures em Xinjiang, da situação em Hong Kong ou as ameaças a Taiwan, mas também dos ciberataques ou a coação económica a países aliados. Do lado chinês, o diplomata Yang Jiechi lembrou que os EUA não são um exemplo de democracia, citando o movimento Black Lives Matter.

Como se esse frente a frente não tivesse sido suficiente, os EUA, numa ação concertada com a UE, o Canadá e o Reino Unido, impuseram sanções contra vários indivíduos chineses, por causa da repressão dos uigures (minoria muçulmana que o Ocidente acusa Pequim de perseguir), com Blinken a falar mesmo em "genocídio". No caso da UE, as sanções agora impostas à China são as primeiras desde o embargo de venda de armas, após a repressão na praça de Tiananmen em 1989. Pequim respondeu a Bruxelas com a proibição de entrada a dez europeus, incluindo cinco eurodeputados, e quatro instituições.

"Ponto baixo"

Entretanto, as relações entre Ocidente e a Rússia não estão melhores. Depois das sanções impostas no início do mês tanto por Washington como por Bruxelas em resposta ao envenenamento de Navalny (os russos rejeitam qualquer responsabilidade ou sequer a hipótese de investigar o caso), o presidente norte-americano, Joe Biden, irritou ainda mais o homólogo russo, Vladimir Putin, ao apelidá-lo de "assassino".

Do lado europeu, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, responsabilizou Moscovo pelo "ponto baixo" das relações, falando em "desacordos em muitas áreas" num telefonema com Putin. Lavrov, na China, acusou os europeus de serem responsáveis por romper as relações, ao destruir todos os mecanismos que estavam criados há anos, dizendo que Moscovo já não tem relações com Bruxelas, apenas com alguns países da União Europeia.

Como prova da aposta nas relações transatlânticas, Michel convidou Biden para participar, por videoconferência, na cimeira europeia desta quinta-feira. "Convidei o presidente dos EUA para se juntar à nossa reunião para partilhar os seus pontos de vista sobre a nossa cooperação futura", escreveu o presidente do Conselho no Twitter. "É tempo de reconstruir a nossa aliança transatlântica", acrescentou. Uma relação que teve que se adaptar à ideia de "America First", isto é, "América primeiro", durante a presidência de Donald Trump.

Choques

Covid-19: A China insiste que apesar de ter sido em Wuhan que foram detetados os primeiros casos do novo coronavírus, isso não significa que a covid-19 tenha ali tido origem. Mas os entraves que colocou à investigação não ajudaram. Agora, a questão são as vacinas. Os países ocidentais "tentam apresentar Rússia e China como oportunistas no que chamam de diplomacia das vacinas. E não é verdade", disse o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, com Moscovo a considerar lento o processo de aprovação da Sputnik V dentro da União Europeia. O seu homólogo chinês acrescentou: "Mais do que dizer que a China deseja fazer uma espécie de diplomacia das vacinas, seria melhor dizer que a China deseja fazer uma ação humanitária."

Uigures: A China alega que os uigures e membros de outras minorias muçulmanas em Xinjiang participaram voluntariamente em programas de emprego e de desradicalização, rejeitando as conclusões de relatórios ocidentais de que mais de um milhão foram presos em campos de reeducação onde são forçados a rejeitar a sua cultura. A questão dos uigures foi o ponto de viragem para a União Europeia, que concertada com os EUA, o Reino Unido e o Canadá, impuseram sanções a vários indivíduos. Pequim retaliou na mesma moeda. A situação já estava contudo tensa por causa da repressão política em Hong Kong ou das ameaças contra Taiwan.

Navalny: As sanções à Rússia prendem-se com o envenenamento do opositor Alexei Navalny, com os países ocidentais a apontarem o dedo aos russos. Estes rejeitam e nem sequer aceitam investigar. Entretanto, Navalny foi condenado a dois anos e meio de prisão e cumpre pena numa colónia penal. Bruxelas e Washington também têm condenado a repressão dos protestos a favor de Navalny. A situação tem vindo a deteriorar-se desde a guerra na Ucrânia e a anexação da Crimeia.

Ciberataques: As guerras não se combatem só nas frentes de batalha, os ciberataques decorrem a toda a hora. Tanto China como Rússia têm sido acusadas de ataques contra alvos ocidentais - no caso dos russos com o alegado objetivo de interferir em vários atos eleitorais, nomeadamente nas presidenciais dos EUA.

susana.f.salvador@dn.pt

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