África do Sul despede-se do "cruzado pela liberdade" num funeral simples

Conforme a vontade expressa por Desmond Tutu, o ato não contou com os habituais "elementos cerimoniais" das Forças Armadas sul-africanas característicos dos funerais de Estado, limitando-se à apresentação da bandeira nacional à viúva do arcebispo.

A África do Sul despediu-se este sábado do arcebispo emérito Desmond Tutu, que morreu no domingo, com um funeral simples, com o Presidente sul-africano a salientar o seu papel para a liberdade e a paz no país.

Desmond Tutu foi um "cruzado pela liberdade, pela justiça e pela paz", considerou Cyril Ramaphosa, no funeral oficial e que incluiu uma missa de réquiem celebrada na Catedral Anglicana de São Jorge, na Cidade do Cabo, onde o arcebispo morreu aos 90 anos.

"Madiba (nome do clã de Nelson Mandela) foi o pai da nossa democracia, o arcebispo Tutu seu pai espiritual", declarou o chefe de Estado, antes de entregar a bandeira nacional à viúva do falecido.

Cumprindo a vontade de Desmond Tutu, que tinha pedido um funeral simples, a cerimónia apenas contou com o discurso do Presidente da África do Sul, com o Primaz da Igreja Anglicana e Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, a enfatizar que o Nobel da Paz "trouxe a luz" quando as pessoas "estavam no escuro".

Algumas das leituras da missa foram feitas por outras figuras proeminentes ou próximas de Tutu, como a ex-presidente irlandesa Mary Robinson, a ativista moçambicana Graça Machel - viúva de Nelson Mandela - ou a ministra das Infraestruturas Patricia de Lille.

O corpo do líder religioso esteve em câmara ardente nesta cidade da África do Sul desde quinta-feira, depois de as autoridades terem antecipado o ato, previsto inicialmente para sexta-feira, na expectativa de que um grande número de pessoas pretendesse homenagear o arcebispo naquela que foi a sua catedral, a Catedral de São Jorge.

Conforme a vontade expressa por Desmond Tutu, o ato de hoje não contou com os habituais "elementos cerimoniais" das Forças Armadas sul-africanas característicos dos funerais de Estado, limitando-se à apresentação da bandeira nacional à viúva do arcebispo, Nomalizo Leah Tutu.

Ainda de acordo com os desejos de Desmond Tutu, as suas cinzas serão colocadas na catedral, um símbolo da democracia no país conhecido como a "catedral do povo" durante o regime racista do 'apartheid', que governou desde 1948 até ao início dos anos 90 na África do Sul.

Prémio Nobel da Paz em 1984 pela sua luta contra a brutal opressão do 'apartheid', Desmond Tutu é considerado uma das figuras-chave da história contemporânea da África do Sul.

A sua carreira foi marcada por uma constante defesa dos direitos humanos, algo que o levou a distanciar-se em numerosas ocasiões da hierarquia eclesiástica para defender abertamente posições como os direitos dos homossexuais ou a eutanásia.

Nos últimos anos, afastou-se da vida pública devido à sua idade avançada e aos problemas de saúde de que sofria, incluindo um cancro da próstata.

Após o fim do 'apartheid' em 1994, quando a África do Sul se tornou uma democracia, Tutu presidiu à Comissão Verdade e Reconciliação, instituição que documentou as atrocidades durante o regime de segregação racial e procurou promover a reconciliação nacional.

Tutu ganhou ainda enorme visibilidade enquanto um dos líderes religiosos mais proeminentes do mundo na defesa dos direitos LGBTQ (Lésbicas, 'Gays', Bissexuais, Transsexuais e 'Queer').

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