Acessos a Istambul bloqueados para impedir marcha pelo Dia da Mulher

Os acessos ao centro da cidade foram bloqueados e transportes públicos foram cancelados cinco horas antes da marcha pelas mulheres.

As autoridades de Istambul bloquearam esta segunda-feira os acessos ao centro da cidade horas antes da prevista marcha pelo Dia da Mulher, enquanto o Governo anunciava uma comissão parlamentar para acompanhar as violências cometidas sobre mulheres.

"Nos últimos três anos iniciámos desta forma o dia 8. Para evitar que as mulheres compareçam na marcha feminista, bloquearam as ruas há algumas horas, e com os transportes públicos cancelados", recordou Meriç Eyuboglu, advogada de uma plataforma feminista, em declarações ao diário Bianet.

As suas declarações publicadas na página digital do jornal, são uma reação ao comunicado emitido esta manhã pela governação da província de Istambul anunciando o encerramento de todas as ruas adjacentes ao centro de Istambul a partir das 8.00 horas locais (5.00 em Lisboa), cinco horas antes da marcha prevista, apesar de a concentração não ter sido proibida.

Em 2020 as forças de segurança dispersaram com gás lacrimogéneo a concentração e detiveram 34 mulheres.

Agora, e apesar das restrições em todas as províncias pela pandemia de covid-19, as autoridades permitiram concentrações feministas em todo o país.

No passado sábado a polícia interveio numa breve concentração das plataformas feministas de Istambul e oito mulheres foram detidas, e retirou símbolos e cartazes aos manifestantes.

O protesto de hoje decorre sob o lema "Trabalho seguro, vida sem violência, luta coletiva", e reivindica novas leis para prevenir e impedir a violência contra as mulheres.

Segundo a plataforma "Kadin cinayetlerini durduracagiz" ("Vamos acabar com o feminicídio", numa tradução livre para a língua portuguesa), em 2020 foram assassinadas na Turquia 300 mulheres, e outras 68 no corrente ano, de acordo o último balanço.

Em Ancara, o governo turco anunciou que vai criar uma comissão parlamentar para melhor combater as violências às mulheres, anunciou hoje o Presidente Recep Tayyip Erdogan, alguns dias após uma violenta agressão que chocou o país. "Vamos criar uma nova comissão parlamentar (...). Não podemos deixar que [as mulheres] sejam vítimas de violências", referiu num discurso em Ancara.

Este anúncio emitido no Dia Internacional da Mulher surge após a violenta agressão no sábado a uma mulher pelo seu ex-marido em Samsun, no norte da Turquia, em plena rua e na presença da filha.

Num vídeo difundido nas redes sociais, um homem pontapeia a mulher que se encontra por terra, enquanto a rapariga de cinco anos chora ao lado. O agressor foi manietado por transeuntes e entregue à polícia, enquanto a vítima foi hospitalizada mas sem correr perigo de vida.

"Na noite de ontem falei com o nosso ministro da Justiça. Vamos seguir este caso até ao fim", prometeu Erdogan.

Apesar de o chefe de Estado turco condenar com frequência as violências contra as mulheres, as associações locais consideram que o Governo não adota suficientes medidas para pôr termo ao sentimento de impunidade dos agressores.

Erdogan disse por diversas vezes pretender retirar a Turquia da Convenção de Istambul, um tratado do Conselho da Europa que fixa as normas juridicamente vinculativas e destinadas a prevenir a violência sexista, apesar de numerosas agressões.

Para as militantes dos direitos das mulheres, uma retirada da Convenção da Istambul enfraqueceria a luta contra a violência doméstica.

Acusam ainda as autoridades de não aplicarem com a necessária firmeza as leis votadas após a ratificação do tratado de 2012, e que segundo estas organizações explica o aumento do número de feminicídios nos últimos anos.

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