"A Ciência tem sido melhor do que a Política" na resposta à covid, disse Barroso a Hillary

Ex-presidente da Comissão Europeia e atual líder da Aliança das Vacinas foi o convidado da ex-secretária de Estado dos EUA.

A desigualdade na vacinação contra a covid-19 e a resposta do mundo ao desafio da primeira pandemia "verdadeiramente global" foram dois dos temas abordados pela antiga secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, na sua conversa com o ex-presidente da Comissão Europeia e antigo primeiro-ministro português, José Manuel Durão Barroso. "A Ciência tem sido melhor que a Política" na resposta à covid-19, disse o atual líder da Gavi, Aliança das Vacinas. Durão Barroso lembrou que a Ciência conseguiu uma vacina em tempo recorde, enquanto a maior parte dos governos, mesmo dos países mais desenvolvidos, não estavam preparados para a pandemia e que "na próxima vez, os políticos não terão desculpa".

Convidado do último dia da Cimeira dos Desafios Globais de Hillary Clinton, organizada pela Universidade de Swansea (País de Gales), o ex-primeiro-ministro falou do seu trabalho na Gavi, uma organização criada há 20 anos para permitir a imunização de crianças em todo o mundo (mas principalmente nos países mais pobres de África). "Pelo menos 15 milhões de mortes foram evitadas graças ao trabalho da Gavi", defendeu.

Esta Aliança das Vacinas é uma das organizações, junto com a Organização Mundial de Saúde e a Coligação para Inovações em Preparação para Epidemias, por detrás do mecanismo Covax. Hillary Clinton lembrou que este começou a ser pensado ainda antes de se saber se haveria uma vacina, que houve um "salto de fé" em acreditar que era possível. "A ideia era usar o poder combinado dos membros para comprar vacinas de forma massiva, a preços mais baixos, para as distribuir" pelos países que não as podiam comprar, explicou Barroso. "Este era o conceito, mas tenho que reconhecer, nem tudo está a correr suavemente", admitiu, falando do problema da desigualdade na distribuição. As restrições às exportações, o facto de os países mais ricos terem açambarcado as vacinas ou a falta de transparência das farmacêuticas na distribuição criaram o problema.

Durão Barroso lembrou que, até ao momento, apenas 4,2% da população nos países mais pobres tiveram acesso a pelo menos uma dose da vacina, contra mais de 72,2% nos países desenvolvidos. O problema de falta de vacinas parece contudo estar resolvido. "Acreditamos que até ao final do ano, teremos mais de 12 mil milhões de doses de vacinas contra a covid-19. Haverá doses suficientes, mas foi preciso tempo", afirmou o presidente da Gavi, explicando que o dinheiro não foi até agora um problema - agradecendo os donativos dos EUA, da União Europeia ou do Japão, entre outros. "A determinada altura tínhamos dinheiro, mas não tínhamos vacinas", recordou. Para fazer face ao financiamento do próximo ano, já está a ser pensada uma nova conferência de dadores no primeiro trimestre de 2022.

Questionado por Hillary Clinton em relação à meta estabelecida pelo presidente norte-americano, Joe Biden, de ter até novembro do próximo ano 70% da população mundial vacinada, Durão Barroso disse ver essa meta como uma "aspiração". Apesar de dizer que apoia essa ambição, o ex-primeiro-ministro português lembrou contudo que "tão importante como garantir que todos sejam vacinados, é garantir que isso é feito rapidamente, uma vez que os efeitos da vacina vão esmorecendo com o tempo" e isso faz com que a pandemia continue. "Não é só uma questão de equidade, mas também de eficácia", referiu, indicando que a maioria dos especialistas diz que a covid-19 se tornará endémica.

Em relação ao futuro, Barroso disse que por mais divergências que possa haver no mundo, e citou a tensão entre EUA e China, há questões em que tem que haver colaboração. "Quando analisamos os riscos aos países vemos a proliferação nuclear, o terrorismo, as alterações climáticas, mas as pandemias não tiveram a prioridade que merecem", alertou, defendendo que tem que haver maior preparação para futuras pandemias, através de um protocolo de cooperação e de garantir que há financiamento preparado para um novo Covax, mas também é importante dar prioridade à resiliência em saúde.

susana.f.salvador@dn.pt

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