9 de maio. Dia da Paz para uns, Dia da Vitória para outros

O Dia da Europa é assinalado num contexto de guerra e com mais sanções contra Moscovo. Na capital russa comemora-se a vitória sobre o nazismo com uma parada militar, demonstração de um músculo inexistente na invasão da Ucrânia.

Junto à cidade de Immanuel Kant, autor de A Paz Perpétua, cerca de 100 militares russos participaram, na quarta-feira, num exercício de simulação de ataque com mísseis nucleares. Onde conta a lenda que os habitantes acertavam o relógio pela passagem do filósofo iluminista alemão, o agora enclave russo de Kalininegrado contribui para a contagem decrescente do relógio do apocalipse, o metafórico indicador usado pelo Boletim dos Cientistas Atómicos. A antiga Conisberga alemã simboliza também o progresso da ciência. À época de Kant, o matemático Leonhard Euler resolveu o problema das sete pontes da cidade (concluindo que era impossível atravessá-las num só sentido e regressar ao ponto de partida), tendo criado a teoria dos grafos. O desfecho da Segunda Guerra Mundial, com a rendição da Alemanha nazi em 8 de maio de 1945 (no dia seguinte na União Soviética, devido à diferença horária) levou à anexação desta estratégica cidade portuária por Moscovo e de outros territórios circundantes pela Polónia. Os habitantes de Kalininegrado celebram o Dia da Vitória, enquanto os vizinhos polacos (e lituanos) comemoram o Dia da Europa.

A invasão da Ucrânia pela Rússia de Vladimir Putin veio dar novos tons a duas visões que se encontravam esbatidas pelo tempo.

O Dia da Europa reporta-se à data, em 1950, em que o ministro francês Robert Schuman proferiu a declaração na qual se propôs a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, o antepassado da União Europeia. O objetivo era não só económico mas sobretudo propunha uma visão de uma Europa em paz e em união, graças à "solidariedade de facto" trazida pela reconstrução em comum, a primeira etapa de uma "federação europeia indispensável à preservação da paz" e que, por conseguinte, torne o conflito entre França e Alemanha "não apenas impensável como também materialmente impossível". O Dia da Europa, não sendo feriado nos Estados-membros - à exceção do Luxemburgo e da Roménia (neste caso porque coincide com o Dia da Independência) -, é observado de forma discreta, com ações das instituições europeias.

Este ano, como não poderia deixar de ser, a guerra na Europa - que a construção europeia não conseguiu evitar, pela primeira vez, nos Balcãs, durante a desagregação da Jugoslávia - marca as cerimónias no fundo e na forma. "Este Dia da Europa será sobre a União do futuro, como a tornamos mais forte, mais resistente, mais próxima da sua população. Mas a resposta a todas estas perguntas não podemos dar sozinhos", disse a presidente da Comissão em Estrasburgo, ao apresentar as propostas sobre mais um pacote de sanções ao regime russo, que ainda não obteve o acordo de todos os Estados-membros. "O futuro da União Europeia também se escreve na Ucrânia", apontou Ursula von der Leyen. "As pessoas na Ucrânia e na nossa vizinhança olham para a Europa com um sentimento de pertença e de esperança. O projeto europeu precisa recapturar esse espírito, o senso de propósito e o entusiasmo da possibilidade. A Europa tem a ver com um sonho partilhado, valores partilhados e uma crença no futuro", afirmou, por sua vez, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, num discurso sobre o Dia da Europa.

O Dia da Vitória, além do simbolismo do triunfo sobre o regime nazi de Adolf Hitler, carrega o peso dos 27 milhões de mortos da União Soviética (na sua maioria russos, ucranianos e bielorrussos). É um feriado não só na Rússia mas também na generalidade dos antigos países da URSS, à exceção da Estónia, Lituânia e Letónia, que veem a data como a celebração do invasor (Riga, inclusive, aprovou uma lei que designa o dia de evocação das vítimas da guerra na Ucrânia, proibindo todas as festividades). E há ainda os casos da Moldávia e da Croácia, que, de forma pragmática, festejam ao mesmo tempo a Europa e a vitória. Já na Ucrânia, depois da anexação da Crimeia, a data passou a chamar-se Dia da Vitória sobre o Nazismo na Segunda Guerra Mundial, fórmula encontrada para se demarcar de um país agressor e da mitificação da Grande Guerra Pátria russa.

Se na União Europeia se trauteia o Hino à Alegria, de Beethoven, a Rússia herdou a composição criada sob concurso para comemorar o 30.º aniversário da data. Den Pobedy, do compositor David Tukhmanov, não falta no final das paradas militares, que, sob Putin, regressaram e cada vez com maior preponderância, numa manifestação a um tempo de inflamado patriotismo e nostalgia soviética. O regime soviético só começou a comemorar o Dia da Vitória com um desfile em 1965 e a data não era usada para mostrar armamento. Uma das iniciativas promovidas pelo Kremlin de há uma década para cá é o Regimento Imortal, uma marcha onde familiares de veteranos de guerra transportam os seus retratos em sua memória. Este ano, várias cidades anunciaram que, em complemento, combatentes da "operação especial militar" na Ucrânia e seus familiares irão fazer parte da marcha.

Na Praça Vermelha irão desfilar 11 mil soldados e 131 peças de equipamento militar, enquanto no ar sobrevoarão aviões supersónicos, bombardeiros nucleares e o Il-80 (conhecido também como o avião do apocalipse, por ser um centro de comando aéreo em caso de guerra nuclear). É a primeira vez desde 2010 que o Il-80 faz parte da parada, no que é visto como uma mensagem para o Ocidente, embora não tenham faltado ameaças mais explícitas por parte do regime russo sobre a hipótese de o conflito evoluir dramaticamente para o campo nuclear.

Cenários e "disparates"

No ano passado, Vladimir Putin aproveitou a ocasião para criticar o excecionalismo ocidental e queixou-se da ascensão do neonazismo e da russofobia, duas alegações por provar que usa como arma de arremesso contra a Ucrânia. Assim como escolheu o Dia da Defesa da Pátria, 23 de fevereiro, para anunciar a "operação militar especial", os analistas esperam que no Dia da Vitória o líder russo profira um anúncio especial.

Neste contexto, tem sido muita a especulação, de Moscovo a Lisboa, sobre o que o autocrata poderá anunciar. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, há muito tentou esvaziar o balão. "As nossas tropas não ajustarão artificialmente as suas operações a qualquer data, incluindo o Dia da Vitória", disse. Mais recentemente, o porta-voz do Kremlin declinou as sugestões, classificando-as de "disparates", mas é bom lembrar que o regime russo negou uma e outra vez que iria invadir a Ucrânia. Dmitri Peskov descreveu o 9 de maio como um dia sagrado. "O Dia da Vitória, para todos os russos, para quase todos os residentes do antigo território da União Soviética, é um dia sagrado, cheio de dor pelos sacrifícios que temos sofrido e de orgulho pelo nosso país e pela nossa vitória. E nada o ofusca."

Entre os cenários citados, alguns parecem longe da realidade, como o anúncio de uma "operação especial" na Moldávia, repetindo o guião de uma região russófona perseguida, neste caso a Transnístria, como alegou no Donbass. Também não parece muito provável o anúncio da realização de "referendos" nas regiões de Donetsk e Lugansk - que Moscovo reconheceu como repúblicas independentes - e de Kherson para estas serem anexadas pela Federação Russa, até porque nas últimas horas as forças ucranianas registaram avanços na região de Kherson.

Outros esperam que, independentemente do destino dos últimos combatentes ucranianos na siderurgia de Azovstal, Putin use Mariupol como um troféu. A escalada do conflito com uma declaração de guerra ou uma mobilização nacional é outra hipótese considerada. Em entrevista à Associated Press, Alexander Lukashenko, o aliado bielorrusso de Putin, esqueceu-se de que do seu território mísseis atingiram a Ucrânia e que soldados russos começaram a invasão, ao pedir o fim da "guerra" - sim, usou a palavra proibida -, e deixou uma frase que sintetiza uma mentalidade: "A Rússia, por definição, não pode perder esta guerra."

cesar.avo@dn.pt

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