"Gulag", "deportações" e um alerta contra a "solução final"

"Capturados e raptados", diz Kiev. Ucranianos com "vontade de escapar", assegura Moscovo. Zelensky pede ajuda para impedir "solução final". China garante que não dará apoio militar a Putin.

A suspeita, que para Inna Sovsun, deputada ucraniana, é uma certeza, está concentrada nesta frase: "o Gulag foi restaurado". Várias fontes oficiais ucranianas, desde os autarcas de Mariupol ao parlamento de Kiev, denunciam que "milhares de residentes da cidade", na maior parte mulheres e crianças, estão a ser capturados e levados à força para lugares remotos na Rússia".

Lyudmyla Denisova , comissária do parlamento ucraniano para os direitos humanos, garante que os "capturados" são levados para "campos de seleção", lugares onde soldados russos "verificam telemóveis" retirando a todos os "passaportes e documentos de identificação".

"Os nossos cidadãos são obrigados a assinar documentos que os obrigam a ir residir numa determinada cidade [russa]. Não podem abandonar essas localidades, pelo menos durante dois anos, e são obrigados a ir trabalhar num lugar que o documento especifica", afirma ainda Lyudmyla Denisova.

Após esta "inspeção" são transportados para a cidade russa de Taganrog, na costa do mar de Azov, e daí "enviados por comboio para várias cidades economicamente deprimidas na Rússia".

Pyotr Andryuschenko, da autarquia da Mariupol, citado pelo New York Times, assegura que entre 4000 a 4500 habitantes da cidade já foram "levados para Taganrog".

Vadym Boichenko, presidente da câmara, falou em "raptos" e estabeleceu uma comparação com o que os nazis fizeram durante a Segunda Guerra Mundial.

O governador da região de Donetsk, Pavlo Kirilenko, que faz a mesma acusação de milhares de "deportações forçadas", afirma que se "desconhece o que lhes estará a acontecer no outro lado da fronteira".

A Reuters, que falou com um casal de "refugiados" em Taganrog relata que os soldados russos deram "10 minutos a este casal de idosos para arrumar alguns pertences e sair de casa".

Linda Thomas-Greenfield, embaixadora dos Estados Unidos na ONU, disse ser "inconcebível que a Rússia obrigue cidadãos ucranianos a entrar na Rússia e os coloque no que serão basicamente campos de concentração ou de prisioneiros".

Mas depois das palavras duras e das comparações com outros tempos europeus, deixou a frase que aligeirou a acusação: "Isso é algo que precisamos verificar".

As autoridades de Moscovo nada disseram sobre estas acusações. A declaração mais recente, da semana passada, é do ministro da Defesa russo que garantia haver "centenas de ucranianos com vontade de escapar para a Rússia".

A imprensa russa, que sustenta que as tropas ucranianas estão a usar os civis "como escudos humanos" em Mariupol, relata que 500 refugiados chegaram a Yaroslavl (cidade a 1.400 km de Taganrog) e que um grupo, que não quantifica, segue de comboio para Ryazan (1000 km a norte).

Todas estas alegações, as ucranianas e russas, carecem de confirmação de fontes independentes. Ao final da noite deste domingo, a Rússia deu um prazo para a rendição de Mariupol, nas primeiras horas desta segunda-feira.

Acordo à vista?

O ministro turco dos Negócios Estrangeiros garante que mais de metade do caminho negocial está "quase" percorrido. Mevlut Çavusoglu acredita num cessar-fogo justificando que as duas partes "quase concordam" em quatro das seis questões em discussão.

"Há convergência nas posições dos dois lados sobre questões importantes e críticas. Vemos, em particular, que eles quase concordam nos primeiros quatro pontos. Algumas questões precisam de ser decididas ao nível da liderança", disse Çavusoglu, numa entrevista ao jornal turco Hurriyet, não especificando os pontos em que há "quase um acordo".

Os seis pontos, segundo Brahim Kalin, porta-voz do presidente da Turquia são: "a neutralidade da Ucrânia que impediria a adesão do país à NATO, o desarmamento e as garantias mútuas de segurança, o processo a que a Rússia chama "desnazificação", a remoção de obstáculos à utilização generalizada do russo na Ucrânia, o estatuto do Donbass e o estatuto da Crimeia".

O ministro turco dos Negócios Estrangeiros considera que "se as partes não se desviarem das suas posições atuais, podemos dizer que temos esperança de um cessar-fogo. Existem canais abertos entre os líderes".

Em entrevista à CNN, Zelensky disse estar "pronto para negociações com Putin. Desde os últimos dois anos que estou pronto e acho que sem negociações a guerra não será interrompida", mas deixou claro que não assumirá "nenhum compromisso que afete a integridade territorial e a soberania" da Ucrânia. Ou seja, aparentemente não reconhecerá a independência dos territórios da região do Donbass e a soberania russa sobre a Crimeia - dois seis dos pontos que o MNE turco diz estarem em negociação.

O presidente ucraniano salienta que, perante o avanço do exército russo em território ucraniano para "exterminar" a população, devem ser esgotadas todas as possibilidades de diálogo, porém não evitou um aviso: "se essas tentativas falharem, isso significará que o conflito na Ucrânia é uma terceira guerra mundial".

Horas mais tarde, numa declaração ao parlamento israelita, Zelensky lembrou a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto para pedir a Israel que escolha um lado e evite a "solução final" da Rússia sobre o seu país.

"Escutem o que diz o Kremlin. São as mesmas palavras, a mesma terminologia que os nazis usaram contra vós. É uma tragédia (...) é hora de Israel fazer a sua escolha (...) a indiferença mata", afirmou.

Ontem, para além de ter prolongado a lei marcial por 30 dias a partir de 26 de março, Zelensky assinou várias leis relacionadas com a guerra, incluindo um decreto sobre o reconhecimento dos territórios ocupados pela Rússia.

"A lei estipula que a decisão de reconhecer os territórios temporariamente ocupados será tomada pelo Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia promulgada por decretos do Presidente da Ucrânia, o que constituirá uma oportunidade para responder rapidamente às mudanças na situação militar do país", explica a nota do parlamento que foi divulgada.

A decisão mais polémica, pelo menos a que provocou mais reações, foi a suspensão de vários partidos políticos "ligados" à Rússia com a alegação de que "o tempo de guerra mostra muito bem a pequenez das ambições pessoais daqueles que tentam colocar as suas próprias ambições, o seu próprio partido ou carreira acima dos interesses do Estado, dos interesses do povo (...) Qualquer atividade de políticos com o objetivo de dividir ou colaborar [com a Rússia] não terá sucesso. Mas terá uma resposta".

Um dos partidos suspenso, Nashi (Nosso), é liderado por Yevheniy Murayev que foi apontado pelas autoridades britânicas, ainda antes da invasão, como o político que Moscovo pretendia instalar no poder depois de derrubar Zelensky.

A Plataforma da Oposição - Pela Vida é liderada por Viktor Medvedchuk, cuja filha é afilhada do presidente russo.

A reação russa foi quase imediata. Vyacheslav Volodin, líder da câmara baixa do parlamento (a Duma), acusou Zelensky, de "dividir a sociedade" ao suspender a atividade de 11 partidos pró-Moscovo.

Londres insiste e pressiona Pequim

Boris Johnson pediu, mais uma vez, à China e a outros países, para não se posicionarem ao lado da Rússia e condenarem a invasão da Ucrânia.

Em entrevista ao The Sunday Times, o primeiro-ministro britânico acredita que "começam a surgir dúvidas" em Pequim e que "à medida que o tempo passa e o número de atrocidades russas aumenta acho que se torna cada vez mais difícil e politicamente inconveniente para as pessoas, ativa ou passivamente, tolerar a invasão de Putin".

No sábado, Boris Johnson disse que chegou a hora da China "escolher entre a liberdade e a opressão".

Em entrevista à CBS, o embaixador chinês nos Estados Unidos respondeu publicamente aos avisos de Joe Biden de que haveria "consequências" - que não detalhou - se Pequim desse apoio material à Rússia.

"Há desinformação de que a China está a fornecer assistência militar à Rússia. Nós rejeitamo-la (...) a China envia comida, medicamentos, sacos-cama e leite em pó", disse Qin Gang.

Questionado sobre se o presidente chinês pediu a Putin para pôr fim à invasão, disse que, "no segundo dia da operação militar da Rússia", Xi Jinping apelou a Putin que "considerasse retomar as negociações de paz".

Condenar? "Uma condenação não resolve o problema. Eu ficaria surpreendido se a Rússia recuasse por causa das condenações", explicou o diplomata.

artur.cassiano@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG