Venezuela: Torre David, do mito à realidade

Arranha-céus inacabado e um dos prédios mais altos de toda a América Latina, a Torre David, em Caracas, é o maior gueto em altura do mundo. Tem má fama. Muitos dizem que injustamente. Governo de Nicolás Maduro quer que quem mora lá saia

Perguntar a alguém em Caracas como se pode visitar a Torre David tem inevitavelmente a mesma reação: expressões de repulsa e palavras carregadas de medo descrevem o horror, o crime, a droga, mortes, sequestros, violações, crianças atiradas pelas janelas, prostituição. "Estão doidos? Querem ir à Torre David?"... A fama da Torre David já vem de longe. Conhecido como o maior gueto em altura do mundo, é um arranha-céus inacabado, um dos prédios mais altos de toda a América Latina, o terceiro mais alto de Caracas, depois das torres do Parque Central. Mete medo. E mete medo porque lhe faltam janelas, paredes, corrimões, a altura assusta, e propagou-se a ideia de que tudo o que há de mau está na Torre David.

Como todos os mitos, o da torre tem as suas origens, porque aquilo que se diz tem um fundo de verdade. Terá acontecido ao longo do tempo um pouco de tudo do que se fala. Mas daí a afirmar-se que a Torre David é, ainda hoje, um ponto "extremamente perigoso" de Caracas, carregado de delinquência e criminosos, vai uma grande distância. Quem viu o terceiro episódio da terceira temporada da série Homeland ficou com essa ideia muito vincada sobre a Torre David. Brody, a personagem principal, esteve aprisionado num dos andares da torre, onde se via de tudo o que era delinquência, droga, armas, prostituição... Na verdade, o episódio, que se chama "David Tower", não foi filmado em Caracas, mas sim numa torre semelhante na Costa Rica, embora as imagens do prédio a partir do exterior sejam mesmo da Torre David. O que levanta a dúvida: terão os produtores da série considerado que aquele prédio era assim tão perigoso que era melhor nem tentar filmar lá? Provavelmente...

A verdade é que a fama de local perigoso está bem presente entre os residentes de Caracas. Mesmo a menos de 300 metros da torre, junto à missão católica de Caracas, dois jovens dizem conhecer pessoas que moram no edifício, mas quando se questiona se é possível ceder o contacto para facilitar uma visita ao edifício, logo respondem com nervosismo: "Nem pensar! É muito perigoso, tem lá bandidos. Não! Não façam isso, até porque vocês são estrangeiros, podem fazer-vos mal..." O mito está bem arraigado nas mentes de todos os habitantes de Caracas. Não houve uma única pessoa questionada, incluindo agentes da autoridade, que tivesse admitido ser possível uma visita à torre pela equipa de reportagem da Lusa. Uma única.

Uma vez lá dentro, o mito cai. Nada do que se diz da torre se confirma. Não se vê uma arma, não se vê bandidos, drogas, prostitutas, nada disso. Pelo contrário. Apenas se observam cidadãos vulgares. Um jovem de calças de ganga e polo verde sobe as escadas vagarosamente, com uma bilha de gás nas costas. Uma rapariga morena, talvez uns 15 anos, retém-se numa escada a ajustar cuidadosamente as bainhas das suas calças brancas, justinhas ao corpo. Um casal sai de mãos dadas, descendo a escadaria em passo acelerado. Crianças jogam futebol num pequeno campo improvisado no rés-do-chão. Uma menina de calças cor-de-rosa encosta-se a uma parede a apanhar sol, com o seu cãozito tranquilo aos pés.

A Torre David é, atualmente, um prédio inacabado onde habitam cerca de 300 famílias, pouco mais de mil pessoas, num regime organizado, onde não só não acontece nada do que se diz como até pode ser visto como um modelo de organização quase perfeito. Os "condóminos" do prédio, que atualmente só ocupam apartamentos improvisados até ao 13.º piso, pagam à cooperativa 250 bolívares (um euro no mercado de câmbios paralelo) por mês e com isso têm direito a água canalizada, eletricidade, limpeza dos espaços comuns e até segurança. A água e luz são pagas às companhias respetivas. Já houve puxadas que eram um roubo à companhia, hoje nada disso acontece, está tudo legal, segundo dizem à Lusa os responsáveis da cooperativa. Na fase de maior ocupação, até final de 2014, chegaram a habitar o prédio cerca de 1200 famílias, mais de cinco mil pessoas.

Modelo de organização exemplar

Está montado um sistema organizado com coordenadores em cada piso, que são responsáveis pelo cumprimento das boas regras de convivência no edifício. Elvis Marchan, o presidente da Cooperativa Habitacional Caciques de Venezuela, que gere a torre, diz que está tudo tão organizado que "devia ser considerado um modelo para outras estruturas de habitação". Mais. Hoje sente-se alguma tristeza entre os moradores do prédio, porque sabem que até final do ano vão ter de sair dali. Todos eles ganharam afetividade ao edifício, embora todos reconheçam que "nunca" foi deles, que é propriedade do Estado. É um prédio com uma fama terrível, mas é ali que têm o seu espaço, o seu conforto, as suas coisas. E, fundamentalmente, estão no centro da cidade. Todos eles sabem que jamais voltarão a viver numa zona tão central da cidade.

Alfredo Zambrano é um dos moradores do arranha-céus. Estudou Audiovisual, é técnico de cinema e televisão e trabalha (e vive) na torre há mais de cinco anos. "Vim com a intenção de fazer um documentário para mostrar a realidade do que se vive na torre, porque há um mito que está entranhado na sociedade: que se vende droga, que há casas de prostituição, que se violam mulheres, que as atiram dos pisos. Era algo que me inquietava, porque eu era vizinho, morava muito perto, ouvia falar em tudo isto e não acreditava." Como documentarista, Alfredo quis mostrar a realidade. "Fiz o trabalho de perguntar, perguntar, perguntar."

E um dia entrou na torre, e foi uma tremenda surpresa. "Nada era como se dizia, pelo contrário." Não viu droga nem nunca ouviu falar de roubos. "Há uma regra: se roubas no edifício, és expulso." Ficou espantado. Equipas para tratar de tudo, limpeza, segurança, água, luz, esgotos. "Ninguém falava disto lá fora. Ninguém. Morava aqui perto e nunca ninguém disse que havia famílias que se organizavam, com os seus filhos, famílias boas, umas humildes e outras de níveis mais ou menos, havia advogados, bombeiros, agentes da Guarda Nacional, quem trabalhe com deputados. Há pessoas de todos os níveis..." explica Zambrano. Alfredo não sabe explicar porque é que se criou este mito, tão exagerado, embora saiba que houve casos ao longo do tempo que ganharam uma propagação enorme na sociedade venezuelana.

Quando lhe perguntamos se é verdade que houve casos de sequestro na torre. "Houve um caso. Foi muito badalado, porque envolveu helicópteros e centenas de polícias, e mortos. Mas foi logo no início da ocupação." Prostituição? Talvez um ou outro caso, mas as famílias boas do prédio rapidamente trataram de expulsar essas pessoas. O mito das crianças que caem dos pisos altos também tem um fundo de verdade. "Sim, caiu uma vez uma criança. Uma menina de 3 anos. A mãe foi trabalhar e pediu a uma vizinha para ficar a tomar conta da menina. Ela estava a brincar, encostou-se a uma janela mal fixada e caiu, julgo que do piso 13... teve morte imediata. Mas foi o único caso de queda de crianças de que tenho conhecimento."

Caiu também um rapaz, mais recentemente, mas estava com problemas familiares, "ficou a sensação de que se terá suicidado". E há também o caso de um carro que caiu de um piso alto da torre de estacionamento (tem 13 pisos), morreu uma pessoa, sobreviveram duas, "foi um milagre, o carro ficou desfeito". Quanto aos gangues armados, que supostamente tinham ali refúgio, tão bem retratados na série Homeland, Alfredo garante que isso só terá acontecido nos primeiros tempos. Ou seja, ao mito de a torre ser um antro de crime e mortes, ele responde com um número: "No total, terão morrido no prédio apenas cinco pessoas desde 2007." Alfredo Zambrano lembra que nas ruas de Caracas se matam pessoas para roubar um par de sapatos, parece esquisito achar-se que o mal está todo na torre. O documentarista tem vários filmes disponíveis no YouTube sobre a torre. Mas ainda não terminou o seu projeto principal: um documentário de sete horas. O futuro apresenta-se inquietante para os residentes, porque apesar de irem morar para uma casa que vai ser sua propriedade, foi nesta torre que viveram uma parte importante das suas vidas.

Muitos chegaram ali sem nada. Sem casa, sem emprego. E foi ali que começaram tudo de novo, a partir do zero. "Temos casos de jovens licenciados, outros com bacharelato, chegaram aqui sem nada", diz orgulhoso Elvis Marchan, o presidente da cooperativa. No 1.º piso está uma das poucas lojas que resistem no prédio. Anni, convida-nos a entrar, abrindo a porta de grades de ferro. Vende guloseimas, águas e outros produtos de mercearia. Também faz costura. Mostra-nos a máquina. Queixa-se do negócio, "já não é o que era", são menos os moradores, menos os clientes. Em tempos existiram várias lojas, oficinas, cabeleireiros, padarias, tascas, mercearias. Quem não quisesse sair do edifício tinha praticamente tudo lá dentro. O número de famílias e a dificuldade de subir e descer escadas tornou-se uma oportunidade de negócio, que alguns aproveitaram.

Atingindo os pisos mais altos, assusta ver escadas sem vedações, pisos inteiros sem paredes. Imaginar que um cidadão poderia cruzar-se naquelas escadas com assassinos, delinquentes, é assustador. Alfredo explica que muita coisa melhorou. Muitas vedações foram feitas, paredes, todas as casas têm portas, as tubagens da água e esgotos tiveram que ser reparadas, houve muito trabalho, mas muito ficou por fazer. Apesar do imenso trabalho na torre, há duas coisas que nunca conseguiram: acabar com a má fama e instalar um elevador.

Quem mora até ao 11.º piso pode utilizar a rampa da torre de estacionamento. Havia serviço de táxi entre o rés-do-chão e o piso mais alto, mas desde a saída do grupo maior de famílias em 2014 deixou de ser rentável e já não se faz o serviço de mototáxi. "Se perguntar às pessoas o que lhes falta, dirão que é só o elevador", explica Elvis.

Agora já só existem moradores até ao 13.º piso, mas viveram muitas famílias vários anos até ao 28.º piso. "Foi muito complicado". No 12.º piso há alguma agitação, jovens que descem, outros que sobem com sacos pesados. Trabalham numa fábrica de moldes para a indústria pasteleira. Já foram mais, hoje são cerca de 20 pessoas. O que vai acontecer à fábrica quando forem para as suas casas cedidas pelo governo? Alfredo já fez uma exposição a um membro do governo.

Grupo Lena constrói bairro

O que sabem os moradores da torre é que daqui a uns seis meses vão ter de sair, de vez. O que ficou acordado entre a cooperativa de moradores da torre e o governo de Nicolás Maduro é que logo que termine o ano escolar começam as mudanças. Vai ser-lhes apresentada uma nova casa em diferentes bairros, construídos e financiados pelo governo, no âmbito do projeto Gran Misión Vivienda Venezuela, imagem de marca do poder socialista chavista.

Algumas dezenas destas 300 famílias irão para Ocumare del Tuy, bairro a 60 km de Caracas, que está a ser construído pelo grupo empresarial de Leiria, Lena, onde já se encontram desde novembro umas largas dezenas de famílias oriundas do arranha-céus de Caracas.

A origem do nome e o futuro

A Torre David tinha como nome original Centro Financiero Confinanzas, começou a ser erigido em 1990, tendo sido interrompida a construção em 1994 com a crise financeira na Venezuela. O principal investidor deste projeto chamava-se David Brillembourg, que morreu em 1993. Logo após a crise bancária, o governo tomou posse do prédio e mandou vedar os acessos. Na verdade trata-se de um complexo de seis torres, e a mais alta, com 45 andares, 190 metros de altura, é a mais imponente.

Com a crise habitacional gerada em 2007, deu-se a primeira ocupação da torre, no mês de outubro. Aos poucos os residentes foram fazendo puxadas de eletricidade, adaptando sistemas de armazenamento de água, e instalaram tubagens de esgotos que estão ligadas ao sistema municipal de recolha de resíduos. Individualmente, cada família adquiriu tijolos e placas de gesso e foram construindo os seus apartamentos nos pisos abandonados. No auge de ocupação da torre, em 2013, viviam cerca de 1200 famílias, representando cinco mil pessoas, ocupando todos os pisos até ao 28.º.

Foi em julho de 2014 que o governo de Maduro decidiu avançar com a operação Zamora 2014 para convencer os moradores a abandonar o prédio e a beneficiar de uma casa nova oferecida no âmbito da Gran Misión Vivienda. Funcionários do Estado visitaram as famílias, uma a uma, tentaram perceber para onde preferiam ir, apresentaram as possibilidades de bairros que estavam a ser construídos, e as pessoas escolheram.

Sobre o futuro da torre há muita especulação, fala-se de um projeto cultural. Um jornal de Caracas noticiou que há um grupo financeiro chinês interessado em reabilitar o prédio e dar-lhe o uso inicialmente previsto. Diz-se que o prédio pode vir a ser reconstruído no âmbito de um plano mais amplo que pode envolver também o centro comercial Sambyl, um edifício comercial que também foi ocupado antes de terminado.

O presidente da Venezuela já disse publicamente que o seu governo ainda não decidiu o que vai fazer com o edifício, mas que estavam em consideração pelo menos três opções: a simples demolição, a recuperação para um centro financeiro ou a reabilitação para construção de habitação. Com a atual crise na Venezuela, não será de excluir a possibilidade de ocorrer um novo movimento de pobres a querer ocupar a Torre David, mas os responsáveis da cooperativa garantem que isso não acontecerá. "Já não entra mais ninguém", afirma Alfredo Zambrano.

* correspondente em Caracas.

Exclusivo Lusa/DN

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