"Vejo a Escócia independente nos próximos seis a oito anos"

Voz portuguesa na BBC durante três décadas, foi correspondente em Londres de vários media portugueses. Gilberto Ferraz destaca a vitória de Cameron e a renovada liderança de Sturgeon.

Ninguém esperava esta vitória tão clara dos Tories. Muito menos de chegarem sozinhos à maioria. Como explica que as sondagens estivessem totalmente erradas?

Sem dúvida! Recordo a famosa e histórica Noite dos Longos Punhais do primeiro-ministro Harold MacMillan, mas ao contrário, para o Labour, mas principalmente para os liberais-democratas. Em 1962, após o inesperado declínio na popularidade dos conservadores, MacMillan decidiu remodelar o governo, substituindo um terço dos ministros. Desta vez, o punhal perfurou quase mortalmente os Lib-Dem, e na Escócia, onde o Labour historicamente dominava, foi igualmente fulminado. Quanto às sondagens, os politólogos vão ter muito trabalho em tentar desvendar o mistério. Ou os sondados mentiram ou a elevada percentagem de indecisos influiu no resultado final.

Quais os desafios do próximo governo?

Antevejo três. O primeiro é a dimensão dos cortes orçamentais que recairão nas já debeladas assistência social e educação. O segundo é a incerteza, principalmente dos mercados, até 2017, ano do prometido referendo sobre a UE. E o terceiro, em face das promessas, as dificuldades que o governo enfrentará na redução da dívida pública.

Com um novo governo conservador, o referendo à UE vai avançar. A saída do Reino Unido é mesmo uma hipótese?

O referendo foi uma das principais promessas eleitorais. Por isso, terá de se realizar. Vejo a missão do primeiro-ministro facilitada em dois sentidos: primeiro, com a ameaçadora nuvem do UKIP dissipada em termos de deputados, pois era o único partido a favor da saída do Reino Unido; segundo, embora já não dependente de um parceiro de coligação, como os Lib-Dem, apoiantes da UE, Cameron mais facilitado se encontra em relação ao referendo. Se o ganhar, dependendo da questão que vai ser posta, a resposta poderá ser um "sim", no sentido de reformas. Porém, questiono uma hipotética saída. Lembro que o eleitorado britânico é pragmático e para um país forjado e liderado pelo comércio será este o aferidor final para evitar a saída da UE.

Ed Miliband só podia mesmo deixar a liderança do Labour?

Se a liderança de Miliband na influente franja partidária favorável a Tony Blair era contestada, esta sua derrota fragilizou-o ainda mais.

Que futuro para o partido trabalhista? Uma renovação?

Muito possivelmente, realizar-se-ão eleições de liderança partidária, em outubro ou novembro, com a provável escolha de um candidato da ala favorável a Blair.

O descalabro dos Lib-Dem deve-se em grande parte à sua participação na coligação. Nick Clegg mantém o lugar de deputado, mas já se demitiu da liderança. Era inevitável?

Com esta derrota, sem dúvida penalizado pela participação na coligação, e pelo facto de renunciar a promessas eleitorais, a liderança de Clegg ficou enfraquecida. E teve de se demitir. Porém, afastados os seus mais diretos adversários, o veterano Vince Cable e o jovem Danny Alexander, o partido está também mais órfão.

Com uma vitória esmagadora, Nicola Sturgeon vai ter tentações de fazer novo referendo à independência na Escócia?

Esta esmagadora vitória será, sem dúvida, a desejada garantia de um segundo e vitorioso referendo. Antecipo uma Escócia independente nos próximos seis a oito anos! A ironia está no facto de que o SNP tinha anunciado a não realização de outro referendo nesta geração, tudo graças à renovada e dinâmica liderança de Nicola Sturgeon, uma das surpresas destas eleições.

E o UKIP?

Essa é outra surpresa! Farage perdeu, cumpriu a promessa de se demitir. Resultado benéfico para Cameron, que se vê livre de um articulado e vociferante adversário.

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