Tribunal só revela provas se jornalistas acusados pagarem

Um tribunal egípcio anunciou hoje que só cederá acesso às provas de acusação de três jornalistas da Al-Jazeera, detidos desde dezembro, se estes pagarem 170 mil dólares. No mesmo dia, advogados de defesa demitem-se alegando que a Al-Jazeera está a usar o processo para manchar a imagem do Egito, menosprezando os seus jornalistas detido.

Um tribunal egípcio disse hoje que os três jornalistas presos no Egito desde dezembro de 2013, sob acusação de conspirarem com a Irmandade Muçulmana para transmitir falsas imagens de tumultos civis no Egito após a queda do presidente Mohamed Morsi, têm de pagar 170 mil dólares (123 974 euros) para acederem a uma cópia das provas da acusação. Provas que, segundo a acusação, foram retiradas dos computadores dos jornalistas e mostram as notícias fabricadas pelos arguidos para lançar agitação no país. A sessão foi adiada para 22 de maio.

Quem são os jornalistas?

- Mohamed Fadel Fahmy, de dupla nacionalidade, egípcia e canadiana, já trabalhou como produtor na CNN e como assistente de reportagem no NY Times. Segundo o jornal New York Times, Fahmy bebe alcóol, chama-se a si mesmo de "liberal"e em junho participou numa marcha contra o então presidente Mohamed Morsi da Irmandade Muçulmana.

- Peter Greste, cidadão australiano que já trabalhou para a BBC. Não é muçulmano e havia apenas passado alguns dias no Egito, antes da sua detenção. Disse em tribunal que o seu passaporte mostra que nunca passou tempo algum em países onde a Irmandade Muçulmana é activa.

- Baher Mohamed, um egípcio com um vasto currículo em organizações noticiosas internacionais.

Os três jornalistas trabalham para a divisão de língua inglesa do canal noticioso sediado no Qatar, Al Jazeera, que o novo governo militar egípcio considera tendencioso em relação à oposição islamista.

A acusação ainda não divulgou publicamente provas das alegadas reportagens falsas, nem mostrou qualquer prova de que as reportagens tenham sido realmente feitas. O New York Times escreve hoje a propósito das alegadas provas: "Imagens de agitação nas ruas egípcias e universidades eram mais fáceis de encontrar do que fabricar, nas semanas anteriores à prisão dos jornalistas". De igual modo, não é conhecida nenhuma tentativa de relacionar efetivamente os acusados com a Irmandade Muçulmana.

Recorde-se que, a 10 de abril, a acusação não foi capaz de mostrar os vídeos que caraterizava como provas fundamentais, em vez disso, os vídeos exibidos em tribunal nessa data, retirados do computador de um dos jornalistas, continham videos de família e reportagens anteriores à sua estada no Egito. "Piada", foi como Fahmy caracterizou o julgamento nessa altura, dizendo que se tratava de "detenção arbitrária", segundo o New York Times.

A detenção dos jornalistas têm chamado a atenção da comunidade internacional, não só por serem jornalistas de reputação internacional, mas porque o caso foca o tratamento que milhares de outros egípcios têm recebido depois do golpe militar que depôs o presidente Morsi, entre eles vários universitários presos com os jornalistas e acusados da mesma conspiração para derrubar o novo governo, embora estes neguem qualquer ligação com os jornalistas.

Ao final do dia, a AFP reportava que, hoje, três advogados, Farag Fathy, Mohamed Farhat e Mokhless El-Salhy, de dois dos jornalistas detidos, Peter Greste e Baher Mohamed, retiraram-se do caso, acusando a Al-Jazeera de utilizar este processo para manchar a reputação do Egito. "A Al-Jazeera serve-se dos meus clientes. Tenho emails do canal de televisão que afirmam não se preocupar com eles, mas em insultar o Egito.", afirmou Fathy aos juizes, acusando o canal televisivo de "fabricar declarações que lhe atribui". O jornalista Peter Greste disse "ouvir falar pela primeira vez deste assunto".

Segundo a mesma fonte, um porta-voz da Al-Jazeera terá afirmado num comunicado que o advogado em causa "pôs a equipa numa posição insustentável", acrescentando: "Temos agora a melhor representação legal a trabalhar em harmonia e dedicados a tirar os nossos jornalistas da prisão".

Um clima de tensão entre o Qatar (onde está sedeada a Al-Jazeera) e o Egito tem-se sentido depois dos militares egípcios terem deposto o Presidente Morsi, da Irmandade Muçulmana, em julho de 2013. O Cairo acusa Doha de apoiar a Irmandade Muçulmana, particularmente através da Al-Jazeera, e Doha acusa o Cairo da repressão dos apoiantes do regime deposto de Morsi: 1400 mortos, 15 mil detenções e centenas de condenações à morte, diz a AFP.

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