Suíça quer impor limites à imigração

Um ano depois do referendo em que 50,3% dos suíços votaram "Sim" à imposição de limites à imigração no país, o governo apresentou projeto lei, mas pretende dialogar ao mesmo tempo com a União Europeia para não violar os tratados bilaterais

O governo suíço apresentou hoje um projeto de lei para impor novos limites à imigração, um ano depois da consulta popular que foi forçada pelo partido de extrema-direita União Democrática do Centro (SVP) e se saldou na vitória do "Sim" sobre o "Não".

Porém, o executivo da Confederação Helvética está a dialogar com a União Europeia para assegurar que não há violação de tratados bilaterais, como por exemplo o que regula a livre circulação de pessoas.

"A UE espera que a Suíça cumpra as obrigações decorrentes desde acordo", declarou, citada pela Reuters, a porta-voz da Comissão Europeia Maja Kocijancic, referindo-se ao acordo sobre livre circulação assinado entre a Suíça e a UE, uma vez que os helvéticos não são membros da UE.

Num país em que, segundo dados de 2013, 24% da população é estrangeira, o governo tem três anos para transpor para a lei o resultado do referendo do ano passado. Atualmente, estima-se em 250 mil o número de emigrantes portugueses a viver na Suíça.

Entre as medidas previstas no projeto de lei apresentado estão a imposição de uma quota anual para o número de pessoas que podem mudar-se para a Suíça, precisou a presidente do país, Simonetta Sommaruga, citada pela Reuters. Não deu, porém, mais pormenores.

A mesma agência sublinha ainda que, no projeto de lei, é referida a ideia de que os empregadores tenham que dar preferência a trabalhadores de nacionalidade suíça e, só depois, podem contratar estrangeiros. Deverá haver, porém, algumas exceções em áreas onde seja mais difícil preencher as necessidades do mercado de trabalho, refere a Reuters.

O projeto de lei tem ainda que ser aprovado pelo Parlamento suíço.

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