Stuart Holland: "A hegemonia alemã é perigosa para a Grécia e para a Europa"

Próximo de Yanis Varoufakis e antigo conselheiro de Jaques Delors e António Guterres, Stuart Holland, professor da Universidade de Coimbra, mostra-se firme contra a "arrogância alemã".

O que se pode esperar do seminário "Syriza versus Europa? Desafios institucionais e de liderança na União Europeia", que vai dirigir - hoje e nos próximos sábados (dias 14 e 21) - na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra?

Uma explicação da relação entre Syriza e União Europeia (UE) e também uma análise do que correu mal com o projeto europeu e como ele pode ser corrigido. A recuperação da Grécia - e de Portugal - depende da recuperação da economia europeia, que é totalmente exequível sem a revisão dos tratados, sem novas instituições e sem transferências fiscais das economias mais fortes para as mais fracas.

Um dos tópicos será o progresso e regressão da zona euro. De quem é a culpa pelo atual risco de desagregação do projeto europeu?

De uma Alemanha arrogante que até aqui tem sido "apaziguada" por outros Estados membros, que não conseguiram explorar o conceito de "cooperação reforçada", para promover uma recuperação económica sem a unanimidade de todos os Estados. Esse procedimento foi usado pela Alemanha para criar uma taxa sobre transações financeiras para "cercar" David Cameron. Outros Estados poderiam usá-lo no Conselho Europeu para "cercar" a Alemanha.

Porque é que diz que a "obsessão" alemã com a dívida vem da ascensão do III Reich, de Adolf Hitler?

A palavra alemã para dívida ('schuld') é a mesma do que para a culpa. O filósofo Friedrich Nietzsche argumentou na sua 'Genealogia da Moral' que os fortes credores alemães não só desejam ser reembolsados pelos credores fracos como também puni-los pela sua "dívida-culpa". Há uma leitura errada da história entre as duas guerras, pois o que permitiu a ascensão de Hitler não foi a inflação, mas a deflação. Heinrich Brüning, chanceler da Alemanha de 1930 a 1932, respondeu à crise de 1929 apertando o crédito e congelando aumentos salariais, através de uma política de austeridade que agravou a queda da procura internacional e causou um aumento dramático do desemprego. A austeridade era tal que foi fatal para a democracia na Alemanha, como o é para a Europa agora. Ele perdeu o apoio público e do Reichstag e recorreu à governação por decreto. No espaço de três anos, o apoio a Hitler e ao partido nazi subiu de menos de 3% em 1929 para perto de 44% em 1933, quando o presidente, [Paul von] Hindenburg, o convidou para formar um governo.

E, na atualidade, quais são os perigos de uma hegemonia alemã?

Essa hegemonia já é uma realidade, e muito perigosa não só para a Grécia, mas para o resto da Europa. Antigos chanceleres, como Konrad Adenauer, Willy Brandt ou Helmut Kohl, queriam "prender" a Alemanha numa Europa democrática. Angela Merkel e Wolfgang Schäuble "prenderam" a Europa numa Alemanha que manda, através da 'troika' por "diktat".

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