Silvio Berlusconi: "Traga as raparigas, somos velhos mas com poder"

Media divulgam conversas entre o ex-primeiro-ministro italiano e um angariador de mulheres para as chamadas festas 'bunga-bunga'

Silvio Berlusconi acabou ontem de cumprir a sua pena de trabalho comunitário por fraude fiscal, num lar de idosos doentes de Alzheimer que durante os últimos dez meses visitou todas as sextas-feiras.

"O tempo passado com doentes, voluntários e assistentes sociais foi uma experiência comovente", declarou o ex-primeiro-ministro italiano de 78 anos.

Mas os problemas com a justiça do antigo homem forte da política italiana estão longe de terminar. Na próxima semana o tribunal examina a sua absolvição no Rubygate - caso em que era suspeito de ter tido sexo com a marroquina Karima El Mahroug, "Ruby", quando esta era ainda menor de idade.

E ontem os media italianos revelaram excertos de algumas conversas tidas em 2008 e 2009 entre Berlusconi e Gianpaolo Tarantini - acusado de incitar à prostituição e de arranjar mulheres para as chamadas festas 'bunga-bunga' em Arcore, a mansão do ex-chefe do governo nos arredores de Milão.

"Esta noite tenho duas raparigas: uma jornalista de desporto da Mediaset, napolitana, muito simpática e muito doce. E uma brasileira de 21 anos que chora ao telefone a dizer que me esqueci dela", diz o atual presidente do partido Força Itália, numa dessas conversas telefónicas.

Estas e outras conversas vêm à luz do dia numa altura em que a procuradoria de Bari investiga as festas eróticas que o ex-primeiro-ministro italiano promoveu naquele período nas suas residências com prostitutas ou com raparigas ansiosas por sucesso e fama fáceis - as chamadas "velinas".

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Linhas cinzentas

Era muito arrogante, mas era verdade, e como era verdade e era arrogante eu não me cansava de o dizer, quando na minha vida a arrogância e a verdade tinham um peso maior do que hoje. E o que era verdade é que já tinha ido mais vezes a Paris do que a Cascais e o que era arrogante era dizê-lo em todo o lado, junto de quem quer que fosse, mesmo quem nunca tivesse ido a Paris, ou a Cascais, e quisesse. Tenho vindo aqui mais vezes nos últimos tempos descobrir novos nomes, novas terras, pôr caras nas terras, de Bicesse, que em criança achava ser em Angola, a Pau Gordo, que não sabia que existia.

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Uma consequência inevitável da longevidade enquanto figura pública é a promoção automática a um escalão superior de figura pública: caso se aguentem algumas décadas em funções, deixam de ser tratadas como as outras figuras públicas e passam a ser tratadas como encarnações seculares de sábios religiosos - aqueles que costumavam ficar quinze anos seguidos sentados em posição de lótus a alimentar-se exclusivamente de bambu antes de explicarem o mundo em parábolas. A figura pública pode não desejar essa promoção, e pode até nem detectar a sua chegada. Os sinais acumulam-se lentamente. De um momento para o outro, frases suas começam a ser citadas em memes inspiradores no Facebook; há presidentes a espetar-lhes condecorações no peito, recebe convites mensais para debates em que se tenciona "pensar o país". E um dia, subitamente, a figura pública dá por si sentada à frente de uma câmera de televisão, enquanto Fátima Campos Ferreira lhe pergunta coisas como "Considera-se uma pessoa de emoções?" ou "Acredita em Deus?".

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Há muitos anos, recebi um original de ficção de uma autora estreante que pedia uma opinião absolutamente sincera sobre a sua obra. Designar por "obra" o que ainda não devia passar de um rascunho fez-me logo pensar em ego inflamado. Por isso decidi que, se a resposta fosse negativa, não entraria em detalhes, sob o risco de o castelo de cartas cair com demasiado estrondo. Comecei pela sinopse; mas, além de só prometer banalidades, tinha uma repetição escusada, uma imagem de gosto duvidoso, um parêntese que abria e não fechava e até um erro ortográfico que, mesmo com boa vontade, não podia ser gralha. O romance propriamente dito não era melhor, e recusei-o invocando a estrutura confusa, o final previsível, inconsistências várias e um certo desconhecimento da gramática.