Poder deixou de ser exercido pela força no Sudeste Asiático

O novo embaixador de Jacarta em Lisboa, na sua primeira entrevista aos media portugueses, analisa a evolução da situação política no seu país e na região da Ásia em que se integra a Indonésia

Está prevista a adesão de Timor-Leste à ASEAN em 2012. Esta adesão é importante para a normalização das relações Jacarta-Díli, para o reforço da organização e para a estabilidade regional?
A ASEAN foi criada em 1967 e pode dizer-se que em 1995/6 completámos a integração regional. A estabilidade foi alcançada nesse aspecto, tanto mais que países como a China, a Coreia do Sul, a Austrália e outros estão também representados junto da organização e mantemos um bom nível de diálogo. Para Jacarta, a ASEAN é o elemento essencial da nossa política externa e trabalhamos por todas as formas para que haja estabilidade e desenvolvimento entre os nossos vizinhos. Um processo que tem também contribuído para a crescente democratização entre os membros da ASEAN – e aqui devo referir o já longo e nem sempre fácil percurso feito pela Indonésia no reforço e aprofundamento da democracia. Quanto a Timor-Leste, Jacarta considera natural e desejável a sua integração e, nesse sentido, temos apoiado essa integração a nível diplomático, fornecendo informações e sugestões sobre a ASEAN e seu processo de funcionamento.Seguimos um procedimento já testado com sucesso na época da adesão do Laos, Vietname e Birmânia.

Esses países que mencionou estão longe de puderem ser considerados democracias...
A Carta da ASEAN encoraja a democratização dos Estados membros, de acordo com o seu nível de desenvolvimento. Por exemplo, no caso da Birmânia encorajamos a democratização, mas não achamos adequado a sua imposição pela força. E tem havido alguns passos nesse sentido. Por exemplo, estão a ser preparadas eleições. E este é o único caminho a seguir: a mudança de Governo através de eleições. De há muito a esta parte que a cultura política da região deixou de ser o exercício do poder pela força. E acreditamos que a prazo todos os Estados membros seguirão este caminho.

Como define o actual estado das relações entre Jacarta e Díli, agora que muitas das questões do passado estão ultrapassadas?
Timor-Leste é um Estado soberano e a Indonésia foi um dos primeiros países a reconhecer a sua independência. É também o nosso vizinho mais próximo e é de todo o nosso interesse que exista estabilidade e desenvolvimento em Timor-Leste e que as nossas relações sejam excelentes. O passado está para trás e a nossa cooperação com Díli está num bom nível, muito sólida. Há visitas frequentes de líderes timorenses a Jacarta. E quando há dificuldades, têm contado com a nossa colaboração. Há coisas muito simples, como problemas de electricidade em que puderam contar com a nossa ajuda técnica, ou o abastecimento em produtos alimentares, que são muito mais baratos adquiridos na Indonésia do que importados de outros lugares. Há também ajuda na formação a diplomatas, a quadros da Administração Pública e bolsas de estudo, por exemplo.

Isso a nível oficial, mas crê que as duas sociedades estão também a viver essa normalização?
Esse é o plano da reconciliação. E para nós é um facto a independência e soberania de Timor-Leste. Agora, penso que é também importante que haja mais diálogo e um maior nível de reconciliação na sociedade timorense. Devemos ter sempre presente que a estabilidade deste país é importante para a própria estabilidade da Indonésia. Por exemplo, quando houve os atentados de 2008 aos governantes em Díli, foi-nos pedido para fecharmos as fronteiras e nós fechámos. Mais tarde, quando a situação ficou normalizada, disseram-nos que as fronteiras podiam ser reabertas, e foi isso que fizemos. Isto serve para provar que somos interdependentes. E não devemos perder isto de vista. Há alguns aspectos de delimitação de fronteiras por estabelecer, mas a nossa relação é bastante forte.

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