"Percebe-se bem agora porque é que ainda temos a NATO"

Apesar da aposta no Pacífico, os EUA não podem deixar de olhar também para o Atlântico, explica Daniel Hamilton, ex-vice-secretário de Estado adjunto para a Europa na administração Clinton.

Perante a ascensão da China, a nova atitude da Rússia e a ameaça do terror islamita, a velha parceria entre a América e a Europa recomenda-se mais do que nunca?

Sem dúvida. Estamos perante inúmeros desafios ao Ocidente. A leste, o Sr. Putin decidiu que para consolidar o poder em casa precisa de desestabilizar os países fronteiriços. E começa já a infiltrar-se na própria União Europeia, não apenas na Ucrânia. No Médio Oriente, temos Estados a dissolverem-se, como a Líbia, a Síria, o Iraque e o Iémen. E grupos armados determinados a controlar territórios sem olhar às fronteiras existentes e procurando até mudar essas fronteiras. Assim, tanto a leste com a sudeste da Europa, temos desafios aos valores com que pensamos que se deve funcionar. Estão a desafiar esses valores, e pela força, e isso é mau para a Europa.

A parceria transatlântica resume-se à NATO, ou é mais do que isso? Tem que ver com os tais valores?

A NATO é ainda muito importante, como temos visto. E percebe-se bem agora porque é que ainda temos a NATO. Mas a parceria transatlântica é muito mais do que uma aliança militar. A parceria entre os Estados Unidos e a Europa é verdadeiramente densa e extensa. Manifesta-se na nossa vida todos os dias. E ainda funcionará melhor com o acordo de parceria transatlântica de comércio e investimento [TTIP, na sigla em inglês]. Penso que é algo que irá reposicionar os Estados Unidos e a União Europeia na economia mundial. E irá ajudar a criar emprego e novas oportunidades em ambos os lados do Atlântico. Assim, será uma segunda âncora a somar à NATO. Mas, se tivermos uma visão ainda mais alargada, não é apenas a Rússia e o Médio Oriente que são desafios, também a ascensão da China e de outras potências que terão ainda de decidir se fazem parte do sistema ou não. Por isso, os valores são essenciais. E acreditamos nesses valores de que estamos sempre a falar? E estamos dispostos a agir em sua defesa juntos? Ou cada qual tentará ir à China por si próprio em busca de algumas vantagens laterais contra o outro? Isso não nos conduz numa boa direção.

Obama é o primeiro presidente americano depois de Nixon a nascer no Pacífico. Isso explica que a sua política externa seja orientada para a Ásia, ou, no fundo, é essa a tendência natural da América?

A minha resposta é que já somos uma nação do Pacífico há muito tempo, bastante antes de o presidente Obama nascer. E iremos continuar a sê-lo. Mas somos também uma nação atlântica. E isso é decisivo nos Estados Unidos. Não nos podemos dar ao luxo de olhar só para um lado. Temos de estar presentes nos dois oceanos, pois muitas nações olham para os Estados Unidos à procura de segurança e da garantia de que estamos com elas. Os europeus sabem disso, mas talvez nem sempre tenham estado atentos ao papel que os Estados Unidos têm na Ásia-Pacífico e no facto de essa região ser palco de tantas tensões. Os interesses securitários da Europa na Ásia são, na realidade, protegidos pelos Estados Unidos. Não se trata assim de uma coisa ou de outra. Não nos podemos dar ao luxo de escolher. Temos de fazer ambas as coisas. O presidente admitiu que negligenciámos um pouco as relações com o Pacífico e temos de prestar nova atenção. Também está a reintroduzir as forças dos Estados Unidos na Europa devido à agressão pela Rússia. Iniciou o TTIP, uma nova forma de parceria transatlântica. Penso que os Estados Unidos percebem bem a sua localização atlântica. Uma das razões pelas quais um grupo de académicos está em Lisboa a discutir esta parceria é porque fica no Atlântico Norte. Mas agora o pan-atlântico também se tornou uma área de integração, incluindo África e a América do Sul. E há situações trágicas, como a que está a acontecer no Mediterrâneo agora. Fluxo de pessoas. Mas há fluxo de pessoas também a atravessar o Atlântico e que estão a mudar a natureza das nossas sociedades. Isso é um dos assuntos. A energia, os contactos comerciais são importantes. Mas também aspetos negativos: drogas, armas.

Leia mais na edição impressa ou no epaper do DN

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG