Os dez dias que derrotaram a esperança

Foi mesmo a cinco de julho que a Grécia se levantou e disse não? Quem nesse dia celebrou o triunfo fala da sua desilusão - e de como vê o seu futuro, do país e do Syriza.

Ainda não passaram duas semanas sobre aquela noite. A noite em que ela, Eleni, 51 anos, jornalista desempregada, gritou vitória na praça Syntagma, braços no ar a fazer-se às fotos, discurso triunfal: "Agora é tudo claro. É democracia direta. Temos uma linha direta com o governo."

Oxi, oxi, oxi, bandeiras vermelhas e palavras de ordem com revolução e socialismo, reptos a Merkel, as cores gregas em todas as TV do mundo, em todas as primeiras páginas. Tão longe, essa noite, essa festa, esse orgulho, toda a esperança desse orgulho. Agora Eleni está ao telefone a falar do acordo feito pelo seu governo. E não está feliz. "Não sou só eu. As pessoas estão chocadas." Era tudo claro no dia 5. E agora? "Ainda é absolutamente claro: 61% das pessoas disseram que não queriam estas medidas. Experimentámo-las. Sabemos que não funcionam. Nunca funcionarão." E a linha direta com o governo? "Achávamos que o governo ia traduzir o referendo de uma forma e fizeram-no de outra. Pensei que iriam usar o poder que o referendo lhes conferiu de outra maneira."

Panagos Spyropoulos, 31 anos, advogado, ex membro da juventude do Nova Democracia que se tornou apoiante do Syriza mantendo-se, nas suas palavras, "moderado", suspira: "Tsipras caiu numa armadilha. Mas é também um pouco responsável por isso. Sabia que ia ser chantageado e não estava suficientemente preparado para a negociação." A desilusão pesa em cada palavra. "Para dizer a verdade, fiquei tão angustiado com tudo isto que estou cheio de dores de estômago. Esperava medidas duras, por exemplo nas pensões, mas a forma como o acordo foi feito traumatizou a ideia de Europa. O trauma na nossa economia e sociedade é demasiado profundo. E estão-nos a pedir que retiremos leis já votadas. É inaceitável, é baixo. É vontade de punir."

E punido por ter acreditado é como se sente Aris Papatheodoropoulos, 35 anos, dono de uma loja de sumos na Plaka (a zona mais turística do centro de Atenas) na qual instituiu um sistema de cooperativa na qual ele e os empregados ganham o mesmo salário e partilham as decisões. "Sinto-me muito triste, desapontado, melancólico." Ri, amargo. "Acho que vou entregar-me à melancolia o resto da minha vida." Como vê o governo e o PM? "Primeiro senti-me traído, muito zangado. Mas passado este tempo acho que Tsipras fez o melhor que pôde. Tentou. E não teve força para resistir. Os países do sul, os países pequenos, como Portugal, não o apoiaram. E ele falhou. Não conseguiu ganhar a guerra. Perdemos." Faz silêncio do outro lado, a voz doce à procura de palavras. "Foi um grande golpe, sinto como se me tivessem batido. Estou a tentar aceitar. Mas nunca mais votarei nele, é meu inimigo agora, não me representa. Estou certo de que foi honesto no que tentou, fez o maior esforço que alguém podia fazer. E agora temos mais um memorando - o terceiro - desta vez com um partido de esquerda." Cala-se de novo. "O pior disto é que mata a esperança. Estou tão farto. Vou desistir, não vou mais seguir as notícias. Vou tentar concentrar-me a espremer laranjas [ri]. Tentar encontrar terapia no meu trabalho, tentar que este projeto, a cooperativa, tenha sucesso. Focar-me em coisas que me façam mais feliz. E desistir da esperança na esquerda. A primeira vez que um partido de esquerda esteve no poder, prometeram, tentaram, e não fez diferença. Se calhar é como dizia Thatcher: não há alternativa."

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