"Onde se aplicou mais a austeridade é onde estão pior"

Líder do Podemos, partido que neste momento surge como primeira força política em Espanha, explica as ideias do seu programa e diz porque considera inevitável um perdão da dívida, numa entrevista exclusiva Actualidad Economica/DN.

Chama a atenção que não vá permitir que se receba uma quantia que supere um determinado salário mínimo interprofissional. Isso não implica defraudar as expectativas de progresso das pessoas?

Na Suíça, cujos cidadãos ninguém negará que podem alcançar as suas expectativas, não se pode ganhar mais do que 12 vezes o salário mínimo nacional. Creio que acima de qualquer legítima aspiração pessoal está o interesse nacional. Um dos principais problemas de Espanha é a desigualdade.

Parece original que escolha a Suíça, pátria do segredo bancário e um país pouco exemplar por tantas razões, mas isso não iria provocar uma fuga de talentos?

Respeito a Suíça, não somos sectários: se algo está bem feito, reconhecemo-lo, independentemente de quem o faça. Não gostamos do segredo bancário, mas que realizem referendos de vez em quando ou que estabeleçam um teto salarial parece-nos razoável. Quanto à fuga de talentos, isso é o que está a acontecer agora. Dezenas de milhares de universitários, a geração mais bem preparada da história, veem-se obrigados a sair. Tenho muita inveja do que fez o Equador: para reforçar o seu sistema universitário, oferece aos doutorados espanhóis bolsas e salários decentes. Aqui não há incentivos para que os melhores fiquem. Este tem sido o país das cunhas.

Faltam oportunidades para os jovens, mas a questão é que limitar os salários agravaria a fuga de talentos. Estamos a viver isso no futebol. A Liga espanhola é das mais poderosas porque é a que paga melhor... Mas não queria que ficássemos presos nos salários, há muitos outros aspetos para analisar. Um redator da revista, ao ler o vosso programa, disse: "Se ganhar o Podemos não volto a trabalhar. Dão-nos rendimento mínimo, habitação, saúde, educação, pensão..." Alguém no Podemos parou para avaliar o que custa isso e o seu impacto no défice?

Vamos por partes. A Liga espanhola é um magnífico exemplo. Alguns jogadores recebem quantias escandalosas, mas no que tem que ver com academias e com os jovens poderem treinar, não podemos dizer que somos os melhores.

A melhor academia do mundo é a do Barça e a segunda, provavelmente, a do Madrid.

A do Barça é verdade, a do Madrid nem tanto. Eu preferiria uma liga apostada no desenvolvimento do futebol como algo que toda a gente pode praticar em vez de facilitar que haja multimilionários que pagam poucos impostos.

Já disseram isso aos adeptos? A vossa liga seria um aborrecimento.

Também gosto de futebol, mas não pode ser um negócio. Os valores do desporto expressam o melhor da condição humana e, quando se mercantiliza a ponto de o adepto não poder ir aos estádios porque não tem como pagar a entrada, algo estamos a fazer mal. Diz também que prometemos rendimento mínimo, saúde e pensões. Pensava que desde o fim da II Guerra Mundial todos os democratas estavam de acordo...

... e estamos de acordo em que faz falta saúde e pensões. O que quero que me digam é como pensam pagar tudo isso.

A Espanha destina pouco à despesa social. Se nos limitássemos a chegar à média europeia, já estaríamos a favorecer algo fundamental para que a economia melhore: a procura interna. A razão para estarmos em crise não é que os salários sejam elevados, mas as pessoas não comprarem. E como financiar a despesa social? Com uma reforma tributária que obrigue os ricos a serem mais solidários. As grandes fortunas pagam pouco.

Leia mais na edição impressa ou no e-paper do DN:

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG